Averróis

Ibn Rushd, conhecido no Ocidente latino como Averróis (1126–1198), foi filósofo, médico e jurista muçulmano de Córdoba, em Al-Ándalus. Recebeu o título de “O Grande Comentador” por sua análise exaustiva de Aristóteles. Sua obra buscou reconciliar a filosofia aristotélica com o Islã. Dante o colocou no Limbo da Divina Comédia ao lado dos maiores filósofos da Antiguidade.

Sua família já ocupava posição destacada. O avô, Abu al-Walid Muhammad, falecido em 1126, foi qadi supremo de Córdoba e imã da Grande Mesquita sob os almorávidas. O pai, Abu al-Qasim Ahmad, também exerceu o cargo de qadi até a substituição dos almorávidas pelos almóadas em 1146. Ibn Rushd estudou hadith, fiqh, medicina e teologia. Aprendeu jurisprudência maliquita com al-Hafiz Abu Muhammad ibn Rizq, estudou hadith com Ibn Bashkuwal, aluno de seu avô, e memorizou o Muwatta de Malik. Estudou medicina com Abu Jafar Jarim al-Tajail e possivelmente conheceu Ibn Bajjah ou recebeu instrução dele. Participou de um círculo intelectual em Sevilha com Ibn Tufayl, o médico Ibn Zuhr e o futuro califa Abu Ya‘qub Yusuf.

O pai lhe ensinou o Muwatta. Conheceu as obras de Ibn Bajjah. Defendeu o estudo da filosofia como permitido e, entre elites, obrigatório. Argumentou que textos religiosos devem receber interpretação alegórica quando parecem contradizer a razão filosófica. Opôs-se às tendências neoplatônicas de Al-Farabi e Ibn Sina. Procurou restaurar o que considerava os ensinamentos originais de Aristóteles. Demonstrou competência em khilaf, área de disputas jurídicas islâmicas. Estudou também a escola ash‘arita, opondo-se às críticas à filosofia, sobretudo as de Al-Ghazali em Tahafut al-Falasifa.

Em 1169, Ibn Tufayl apresentou Ibn Rushd ao califa Abu Ya‘qub Yusuf em Marrakesh. O califa perguntou se os céus existem desde a eternidade ou tiveram início, questão controversa. Ibn Rushd hesitou. O califa então expôs opiniões de Platão, Aristóteles e filósofos muçulmanos. A demonstração de erudição o tranquilizou. O califa se impressionou com sua resposta, e Ibn Rushd registrou admiração pelo vasto saber do governante. O califa relatou a dificuldade de compreender Aristóteles, e Ibn Tufayl recomendou que Ibn Rushd explicasse essas obras. Esse episódio marcou o início de seus comentários extensos sobre Aristóteles.

Suas doutrinas filosóficas centrais articulam a reconciliação entre fé e razão. Não há conflito fundamental entre revelação e filosofia, que constituem vias distintas para a mesma verdade. Defendeu a ideia de dupla verdade: textos religiosos contêm verdades alegóricas acessíveis ao público amplo, enquanto a filosofia oferece verdade demonstrativa aos intelectuais. Sustentou a exegese racional, segundo a qual textos religiosos devem ser interpretados alegoricamente quando parecem contradizer a razão. Afirmou a eternidade do mundo, entendendo Deus como princípio animador de uma realidade eterna, e não como criador ex nihilo. Propôs a unidade do intelecto, segundo a qual há um único intelecto universal compartilhado por toda a humanidade. Dessa tese decorre a eternidade da espécie humana e a negação da imortalidade individual, já que a personalidade constitui manifestação transitória de um intelecto comum.

Sua carreira judicial e médica desenvolveu-se entre 1169 e 1184. Em 1169 foi nomeado qadi em Sevilha. Em 1171 assumiu o mesmo cargo em Córdoba. Como juiz, decidiu casos e emitiu fatwas com base na lei islâmica. Produziu muitas obras entre 1169 e 1179, sobretudo em Sevilha. Em 1179 retornou ao cargo de qadi em Sevilha. Em 1182 sucedeu Ibn Tufayl como médico da corte e, no mesmo ano, tornou-se qadi supremo de Córdoba, posição antes ocupada por seu avô. Viajou pelo império almóada para funções judiciais e realizou pesquisas astronômicas durante essas viagens.

Sua queda em desgraça ocorreu em 1195. O califa Abu Ya‘qub Yusuf morreu em 1184 e foi sucedido por Abu Yusuf Ya‘qub al-Mansur. Ibn Rushd manteve inicialmente o favor real. Em 1195 surgiram acusações contra suas doutrinas. Foi julgado em Córdoba, e seus ensinamentos foram condenados como heréticos por setores ash‘aritas mais rigorosos. Seus livros foram queimados, e ele foi exilado em Lucena. Uma hipótese aponta ofensa ao califa em seus escritos. Estudos modernos atribuem a queda a razões políticas, pois al-Mansur buscava apoio de ulemás ortodoxos para a guerra contra reinos cristãos, e o afastamento de Ibn Rushd favorecia essa aliança.

Nos anos finais, Ibn Rushd retornou à corte em Marrakesh e recuperou o favor do califa. Morreu em 11 de dezembro de 1198, correspondente a 9 de Safar de 595 AH. Foi enterrado inicialmente no Norte da África e depois transferido para Córdoba, onde ocorreu novo funeral. O místico Ibn Arabi esteve presente. O local de sepultamento permanece incerto.

Seu legado no mundo islâmico foi considerado limitado por razões geográficas. Al-Ándalus situava-se na periferia ocidental, distante de centros intelectuais como Bagdá, Cairo, Damasco e Samarcanda. Inovações circulavam com maior frequência do Oriente para o Ocidente. Suas ideias foram vistas como superadas no Oriente, onde o aristotelismo já era estudado desde o século IX e novas correntes derivadas de Avicena estavam em desenvolvimento. A acusação local de heresia não explica isoladamente a recepção reduzida, pois figuras como Al-Ghazali e Ibn Arabi também enfrentaram acusações semelhantes e exerceram maior influência. Não existia autoridade central capaz de condená-lo de forma unificada em todo o mundo islâmico, e decisões em Marrakesh ou Córdoba não tinham validade em centros orientais.

No Ocidente latino, suas obras foram traduzidas por Miguel Escoto e deram origem ao averroísmo latino entre os séculos XIII e XVI. Essa corrente gerou controvérsias e foi condenada pela Igreja em 1270 e 1277. Defendia a tese do intelecto único compartilhado por todos, o que implicava negação da imortalidade pessoal. Apesar das condenações e das críticas de Tomás de Aquino, o averroísmo latino manteve seguidores até o século XVI. Sua influência alcançou também o mundo judaico, com traduções e comentários realizados por rabinos, incluindo Maimônides.

Sua produção bibliográfica inclui ao menos 67 obras originais. Entre elas, 28 tratados filosóficos, 20 textos médicos, 8 jurídicos, 5 teológicos e 4 gramaticais. Produziu comentários sobre a maior parte das obras de Aristóteles e sobre a República de Platão. Muitos textos árabes se perderam, mas sobreviveram em traduções hebraicas ou latinas. Seus comentários aristotélicos, iniciados em 1169, foram escritos em grande parte em Sevilha entre 1169 e 1179. Esses comentários dividem-se em três tipos: curtos, como epítomes e resumos; médios, como paráfrases explicativas; longos, como análises linha a linha. filosófica do século XII.

A recepção visual medieval e renascentista inclui representações em obras italianas. Aparece em pintura de Andrea di Bonaiuto na Capela Espanhola em Florença, integra a Escola de Atenas de Rafael entre 1509 e 1511 no Vaticano, e figura em O Triunfo de São Tomás de Aquino de Benozzo Gozzoli, onde Aquino aparece triunfante sobre Averróis.

A harmonização entre fé e razão constituiu um dos eixos centrais do pensamento de Averróis. No Tratado Decisivo (Faṣl al-Maqāl), argumentou de que filosofia e religião eram compatíveis e representavam dois caminhos distintos para a mesma verdade (Machulak, 2011). Como jurista, Averróis sustentou que o próprio Alcorão ordenava o estudo racional do mundo. A investigação filosófica assumia, assim, o caráter de obrigação religiosa para aqueles capazes de exercê-la. Seu pensamento articulou fé e razão de modo sistemático, preservando a legitimidade da investigação intelectual dentro da tradição muçulmana.

Teve sua “batalha dos livros” com Al-Ghazali. Enquanto A incoerência dos filósofos de Al-Ghazali atacava o pensamento influenciado pela filosofia grega, Averróis respondeu com A incoerência da incoerência. Nessa obra, defendeu a causalidade e o uso da lógica como instrumentos legítimos do conhecimento.

O impacto de suas ideias no mundo ocidental ainda é sentido Ao insistir na existência de uma esfera de investigação racional independente da teologia, embora compatível com ela, Averróis lançou bases que mais tarde contribuíram para o secularismo e para o método científico associados à filosofia ocidental. Apesar de seu posterior exílio no mundo islâmico, as traduções latinas de suas obras provocaram uma revolução textualnas universidades europeias do século XIII, como Universidade de Paris e Universidade de Pádua . Esse movimento deu origem ao chamado “averroísmo”, corrente intelectual que ampliou a circulação de seus comentários sobre Aristóteles e influenciou o desenvolvimento da escolástica.
A dívida intelectual de Tomás de Aquino para com Averróis é maior do que se costuma perceber, embora Tomás de Aquino tenha contestado algumas de suas conclusões específicas, como a tese da “unidade do intelecto”.

SAIBA MAIS

Machulak, E. (2011). The Islamic scholar who gave us modern philosophy. Humanities, 32(6). https://www.neh.gov/humanities/2011/novemberdecember/feature/the-islamic-scholar-who-gave-us-modern-philosophy

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