A.J. Ayer: Linguagem, Verdade e Lógica

A.J. “Freddie” Ayer, em sua obra “Linguagem, Verdade e Lógica”, publicada originalmente em 1936, tornou-se o principal porta-voz no mundo anglófono do positivismo lógico. Este movimento filosófico que emergiu do Círculo de Viena nos anos 1920 teve figuras como Rudolph Carnap e Kurt Gödel na busca para reconciliar a filosofia com os avanços das ciências. Propunham uma avaliação da verdade estritamente em termos da verificabilidade empírica ou da lógica da linguagem.

O livro de Ayer apresentou uma versão modificada desse pensamento, que ele chamou de “empirismo lógico”, e lançou um ataque radical à filosofia tradicional, declarando a metafísica como um disparate, as questões de valor como inexistentes em termos factuais, e a filosofia como uma atividade predominantemente linguística.

O ponto de partida de Ayer é uma crítica demolidora à metafísica tradicional. Ao contrário de Kant, que acusava os metafísicos de ignorarem os limites do entendimento, Ayer os acusa de desobedecerem às regras da linguagem significativa. Para ele, uma afirmação factual só tem significado genuíno se for possível verificá-la através da experiência sensorial. Este “princípio de verificação” é central em seu argumento: uma frase é factualmente significativa se, e somente se, soubermos quais observações nos levariam a aceitá-la como verdadeira ou a rejeitá-la como falsa. Proposições como “há montanhas no lado oculto da Lua” são significativas, pois, em princípio, são decidíveis pela observação, mesmo que a tecnologia para tal ainda não exista. Em contraste, enunciados metafísicos como “o Absoluto entra na evolução e no progresso, mas é incapaz deles” são considerados desprovidos de significado literal, pois nenhuma observação concebível poderia confirmar ou infirmar tal asserção. Ayer distinguiu inicialmente entre uma verificação “forte” (onde a verdade é conclusivamente estabelecida pela experiência) e “fraca” (onde a experiência a torna meramente provável). Em sua introdução à edição de 1946, ele reconheceu as limitações da verificação forte, admitindo que nenhuma proposição empírica pode ser conclusivamente estabelecida, e refinou seu princípio, focando na relevância da observação para determinar a verdade ou falsidade de uma proposição.

Se a metafísica é eliminada como um conjunto de pseudo-proposições sem sentido, qual o papel restante para a filosofia? Para Ayer, a função da filosofia é “totalmente crítica”, uma “atividade de análise linguística”. Ela não se destina a construir sistemas de primeiros princípios ou a oferecer uma imagem completa da realidade, como Descartes tentou. Em vez disso, os filósofos deveriam se dedicar a elucidar e analisar as proposições da ciência e do senso comum, não para testar sua validade factual (tarefa da própria ciência ou da experiência), mas para clarificar os critérios usados para determinar sua verdade ou falsidade e as relações lógicas entre elas. A filosofia, nesse sentido, não se preocupa com o “significado” no sentido psicológico, mas com “definições em uso”. Em vez de compilar um dicionário de definições explícitas (onde um símbolo é sinônimo de outro), a filosofia busca mostrar como frases contendo um determinado símbolo podem ser traduzidas para frases equivalentes que não o contêm, revelando sua estrutura lógica subjacente, a exemplo da teoria das descrições definidas de Bertrand Russell.

Sob o escrutínio positivista de Ayer, diferentes tipos de proposições recebem tratamentos distintos. As verdades da lógica e da matemática, que parecem necessárias e certas, são classificadas como “proposições analíticas” ou “tautologias”. Elas são verdadeiras em virtude das definições dos símbolos que contêm – “são verdadeiras simplesmente porque nunca permitimos que sejam outra coisa”. Uma proposição como “2×5=10” ou “todos os corpos são extensos” (no sentido kantiano de analiticidade) não oferece nova informação sobre o mundo, mas elucida as convenções de nossa linguagem ou as implicações de nossos conceitos. Elas são, portanto, desprovidas de conteúdo factual, mas podem ser úteis ao revelar consequências insuspeitas de nossas crenças e garantir a consistência de nossos sistemas de conhecimento. O “problema da verdade”, para Ayer, dissolve-se: os termos “verdadeiro” e “falso” são logicamente supérfluos, meros sinais de asserção ou negação. A questão relevante é como as proposições são validadas – as analíticas pela lógica interna, as sintéticas (empíricas) pela experiência.

A abordagem de Ayer à ética e à teologia é igualmente radical e decorre de seu princípio de verificação. Juízos de valor, como “roubar é errado”, não são considerados proposições científicas ou factuais. Em vez disso, são classificados como “emotivos”: expressões de sentimentos, aprovação ou desaprovação, ou comandos disfarçados. Como tal, não podem ser verdadeiros nem falsos. É impossível, segundo Ayer, disputar sobre questões de valor; o que parecem ser disputas éticas são, na verdade, desacordos sobre os fatos do caso, ou tentativas de influenciar os sentimentos do interlocutor. A ética e a estética, enquanto campos de estudo, deveriam ser compreendidas no âmbito das ciências sociais, que descrevem os fenômenos morais e suas causas. De forma análoga, as afirmações sobre a existência de um Deus transcendente ou de uma alma imortal são consideradas metafísicas e, portanto, sem significado literal, pois não podem ser empiricamente verificadas. Ayer argumenta que esta visão, paradoxalmente, encontra apoio entre os próprios teístas, para quem Deus é um mistério que transcende o entendimento humano e, portanto, não pode ser descrito significativamente.

“Linguagem, Verdade e Lógica” teve um impacto sísmico na filosofia anglo-saxônica, atraindo muitos pela sua clareza, audácia e aparente alinhamento com uma visão de mundo científica. Contudo, o positivismo lógico enfrentou críticas severas, algumas das quais o próprio Ayer veio a reconhecer. O próprio princípio de verificação foi questionado: seria ele mesmo verificável empiricamente ou uma verdade analítica? Se não, sob seus próprios critérios, não seria ele próprio sem significado? Outros críticos argumentaram que a elevação da linguagem a um status tão central e a tentativa de definir seus limites poderiam ser vistas como uma nova forma de metafísica. Além disso, a exclusão de vastas áreas da investigação filosófica tradicional, como a ética normativa e a metafísica, foi vista por muitos como um empobrecimento da filosofia. Na introdução de 1946, Ayer admitiu algumas deficiências, como a apresentação sumária da teoria emotiva dos valores e a problemática da verificação forte. Apesar do declínio do positivismo lógico como escola dominante, sua ênfase na clareza linguística, na análise lógica e no rigor argumentativo deixou uma marca indelével na filosofia analítica subsequente.

“Linguagem, Verdade e Lógica” permanece um marco na filosofia do século XX. Foi um convite a repensar os próprios fundamentos do conhecimento e da investigação filosófica. Seria uma tentativa de varrer o que Ayer considerava os escombros da metafísica e de assentar a filosofia sobre bases mais seguras e transparentes, ligadas à lógica e à experiência. Embora suas teses mais radicais tenham sido amplamente contestadas e modificadas, o espírito crítico e o rigor analítico da obra continuam a ressoar nos debates filosóficos.

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