Theodor Mommsen

Como Theodor Mommsen reescreveu a Antiguidade — e quase a queimou no processo

Às duas da manhã de 7 de julho de 1880, quando Berlim dormia sob um céu de verão, Theodor Mommsen (1817–1903) acordou com o cheiro de fumaça. O incêndio consomia que um homem passou uma vida inteira construindo. Em vez de fugir pela Marchstraße 6, Mommsen correu para dentro, tentando salvar os manuscritos.

Entre as cinzas daquela noite estavam pergaminhos emprestados do Trinity College de Cambridge, um códice de Jordanes da Universidade de Heidelberg, documentos raros de Bruxelas e Halle. Mommsen queimou as mãos tentando salvá-los. Tinha sessenta e dois anos. Já era o maior classicista vivo. E naquela madrugada, por um instante, quase se tornou apenas mais um homem que perdeu tudo para as chamas.

Mas Mommsen sobreviveu. E o fogo, paradoxalmente, se encaixaria na narrativa que ele vinha construindo há décadas: a história de Roma como uma história de quase-catástrofes, de impérios que escorregam no limiar do abismo e, às vezes, caem.

O historiador

Garding em 1817 era uma aldeia de pastores e pescadores na costa do mar Báltico, então sob coroa dinamarquesa. Lá nasceu Mommsen, filho de um pastor luterano. Era uma região que ele descreveria mais tarde com a mesma precisão clínica que reservava às províncias romanas: Holstein, terra de ventos cortantes e identidades disputadas. A educação veio primeiro em casa, depois no Gymnasium Christianeum de Altona.

Em 1838, Mommsen matriculou-se em direito na Universidade de Kiel. Não tinha vocação para a advocacia. Contudo, o direito romano lhe parecia a porta mais estreita para a compreensão de uma civilização. Dividiu quarto com Theodor Storm, que se tornaria um dos grandes poetas do século XIX, e juntos publicaram o Liederbuch dreier Freunde, um livro de canções que hoje parece um artefato de outra vida: Mommsen, o jovem que ainda acreditava que a poesia e a erudição podiam dividir o mesmo quarto.

A bolsa da monarquia dinamarquesa que o levou à França e à Itália entre 1844 e 1847 mudou tudo. Nas ruínas e nas inscrições, Mommsen encontrou sua verdadeira língua. Seria o latim dos pedreiros, dos soldados, dos escravos que deixaram seus nomes gravados em pedras pelo império. A epigrafia — a ciência das inscrições — tornou-se sua obsessão. Cada letra desgastada era um fio de conversação com o passado.

A Revolução de 1848 encontrou Mommsen em Rendsburg, escrevendo como correspondente de guerra. Não por acaso, ele defendia a anexação germânica de Schleswig-Holstein — a mesma terra onde nasceu, agora disputada entre dinamarqueses e alemães. O liberalismo de Mommsen custou o emprego na Universidade de Leipzig em 1851, quando protestou contra a nova constituição da Saxônia.

Foi nesse exílio profissional, primeiro em Zurique, depois Breslau., que Mommsen escreveu sua grande história da República Romana. Entre 1854 e 1856, três volumes de Römische Geschichte saíram das prensas de Leipzig. O sucesso foi imediato.

Mommsen traduzia o vocabulário político de seu tempo para a Roma antiga: a aristocracia rural e o clero exerciam “sua influência maligna”; César era um homem de “energia” e “genialidade”; Pompeu, reduzido a um “cabo”; Catão, o Jovem, um “Dom Quixote” em toga. Os críticos chamaram isso de tendencioso. Os leitores, de revolucionário. George Bernard Shaw, ao escrever Caesar and Cleopatra em 1898, consultou Mommsen.

A admiração de Mommsen por César era tão ilimitada quanto seu desprezo pela oligarquia senatorial. Cícero, o orador que os humanistas adoravam, era para Mommsen um “fraco”. Esse liberal que defendia reformas constitucionais elogiava um ditador como salvador de um Estado decadente. Os historiadores posteriores chamariam isso de “cesarismo”. Mommsen chamaria de realismo.

Já seu Römisches Staatsrecht, publicado entre 1871 e 1888, consagrou-o como historiador jurídico. Os romanos jamais codificaram sua constituição — deixaram-na dispersa em costumes, orações fúnebres, decisões judiciais, gestos de poder. Mommsen sistematizou o direito público romano em três volumes que reorganizaram uma disciplina inteira.

“Apenas alguém profundamente familiarizado com direito e estudos clássicos poderia investigar adequadamente o direito público romano”, escreveu ele. Era uma declaração de método, mas também uma declaração de guerra contra os diletantes. Em 1899, completaria o ciclo com Römisches Strafrecht, sobre o direito penal romano. O império, para Mommsen, era uma máquina jurídica de funcionamento preciso, e ele pretendia entender cada engrenagem.

Mas havia outro império que Mommsen estava construindo, menos visível e talvez mais duradouro. Em janeiro de 1847, ainda um jovem pesquisador, enviou um memorando à Academia Real Prussiana de Ciências com uma proposta quase insana: reunir todas as inscrições latinas conhecidas em uma única coleção sistemática. A ideia foi aprovada em 1853. O primeiro volume do Corpus Inscriptionum Latinarum saiu em 1863. Quando Mommsen morreu, em 1903, o projeto já contava com quinze volumes e aproximadamente duzentas mil inscrições.

O método era brutalmente simples e impossivelmente trabalhoso: a “autópsia”. Cada inscrição transcrita deveria ser confrontada com o original. Para isso, Mommsen tecia uma rede de correspondentes que se estendia da Itália à Austrália, da Suécia ao Norte da África. Numismatas, arqueólogos, curadores de museus, padres com acesso a catacumbas — todos eram recrutados para um exército invisível de copistas e verificadores. O Corpusera uma instituição, um protocolo de verdade que ainda hoje recebe suplementos.

Em 1858, Mommsen tornou-se membro da Academia de Ciências de Berlim e, posteriormente, secretário permanente da Academia Prussiana. Em 1861, começou a lecionar história romana na Universidade de Berlim, onde permaneceu por vinte e seis anos. Formou uma geração: Wilhelm Dilthey, Eduard Schwartz, Otto Seeck. Aconselhou o Monumenta Germaniae Historica, pesquisas sobre o limes romano, o Thesaurus Linguae Latinae. Mesmo na velhice, voltou-se para a papirologia, como se cada nova disciplina fosse uma sala de um palácio que ele nunca terminaria de explorar.

A carreira política foi mais conturbada. Deputado na Câmara dos Representantes da Prússia, depois no Reichstag alemão, passou pelo Partido Progressista, pelo Nacional Liberal, pelos Secessionistas. Apoiou a unificação alemã, mas nutria uma decepção crescente com o Império. Em 1881, defendeu uma aliança entre liberais e social-democratas com uma linguagem tão agressiva que quase foi processado. Bismarck, o arquiteto do império, era seu inimigo político declarado.

E havia o antissemitismo. Durante a Berliner Antisemitismusstreit de 1879, Mommsen atacou publicamente as posições de Heinrich von Treitschke e participou da fundação da Associação para o Combate ao Antissemitismo. Era, em certo sentido, um defensor da Aufklärung contra o tribalismo. Mas o mesmo Mommsen que defendia a assimilação de minorias escrevia, em 1897, que os tchecos eram “apóstolos da barbárie” e que “o crânio tcheco é impermeável à razão, mas sensível a golpes”. O nacionalismo alemão, mesmo em suas formas mais “liberais”, carregava essa ferida.

O incêndio de 1880 destruiu o quarto volume da Römische Geschichte, dedicado ao Império Romano. O projeto original previa cinco volumes, mas esse nunca foi completado. O manuscrito desapareceu nas chamas, e com ele uma possível síntese de Mommsen sobre a transição da república para o império. Só em 1992, Alexander Demandt reconstruiria esse volume a partir de anotações de aulas encontradas em um sebo de Nuremberg, publicado como Römische Kaisergeschichte.

Em 1902, o Prêmio Nobel de Literatura veio como uma coroação tardia. Os jurados reconheceram como literatura disfarçada de história. “Vigorosa e viva”, disseram. “Energia estilística próxima do romance.” Mommsen, que citava Shakespeare em cartas pessoais e considerava Goethe “o homem mais sábio do século”, havia transformado a historiografia em arte sem jamais abandonar a erudição.

Mommsen morreu em Charlottenburg, nos arredores de Berlim. Deixou dezesseis filhos. Yma deles, Maria, casou-se com Ulrich von Wilamowitz-Moellendorff, outro gigante da filologia. Seu neto Theodor Ernst Mommsen levaria o nome da família para a historiografia medieval nos Estados Unidos; seus bisnetos Hans e Wolfgang Mommsen se tornariam figuras centrais na historiografia alemã do século XX.

Mas o legado verdadeiro é mais difuso. Alfred Thayer Mahan formulou as ideias centrais de The Influence of Sea Power Upon History enquanto lia Mommsen. Heiner Müller escreveu Mommsens Block em 1993, inspirado pelas notas fragmentárias sobre o Império Romano tardio e pela decisão da Alemanha Oriental de substituir a estátua de Karl Marx na Universidade Humboldt por uma de Mommsen. Era como se, mesmo na morte, ele continuasse a disputar o espaço público com os revolucionários.

Um Gymnasium em Bad Oldesloe recebeu seu nome. Garding passou a se chamar “Mommsen-Stadt Garding”. Quase mil publicações carregam sua assinatura. E o Corpus Inscriptionum Latinarum continua crescendo, volume após volume, como um organismo que Mommsen incubou e que sobreviveu ao seu criador.

OBRAS

Tese, Ad legem de scribis et viatoribus et de auctoritate (1843)

De collegiis et sodaliciis Romanorum (1843)

Die röm. Tribus in administratives Beziehung (1844)

Epigraphische Analekten (1849; se continuent dans les années suivantes)

Die unteritalischen Dialekte (9850); Ueber den Chronographen vonm Jahre 354(1850)

Römische Urkunden (1850)

Das Edit. Diokletian (1851; publié à nouveau en 1893)

Inscriptiones regni Neapoletani (1852)
Die röm. Feldmesser (1802)

Römische Geschichte (1854; se continue dans les années suivantes et a eu huit éditions)

Inscriptione Confæderationis helvetica (1854)

Die Stadtrechte der latinischen Gemeinden Salpensa and Malaca (1855)

Die Rechtsfrage zwischen Cæsar und dem Senat (1857)

Volusii Macciani distribulio paritum (1857)

Die röm. Chronologie bis auf Cæsar (1858)

Geschichte das röm. Munzwesens (1860)

Juris antejustiniani fragmenta (1861)

Verzeichniss der röm. Provinzen aufgesetz und 297 (1862)

Corpus inscr. lat. (t. I, 1863)

Röm. Forschungen (1863)

Res Gestæ Divi Augusti (1865, republié en 1883)

Digesta Justiniani Augusti (1868)

Plinii epistulæ et panegyricus (1870)

Röm. Staatsrecht (1871; se continue dans les années suivantes)

Corp. inscr. lat. (t. V, 1872)

Observationes epigraphicæ (dans L’Ephem. epigr., 1872; se continuent dans les volumes suivants)

Corp. inscr. lat. (t. III, 1873)

De militär System Cæsars (1877)

Corp. inscr. lat. (t. VIII, 1881)

Jordanis Romana et Gatica (1882)

Corp. inscr. lat. (t. IX, X, 1883)

Die Conscriptionsordnung der Röm. Kaiserzeit (1884)

Röm. Geschichte (t. V, 1885)

Das röm. Militarwesen seit Diokletian, (1889)

Chronica minora sœculi IV, V, VI, VII (1891).

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