Indigenismo de José Bonifácio e Pe. Feijó

A consolidação do Estado-nação brasileiro no século XIX exigiu mais do que a ruptura política com a metrópole; demandou a invenção de uma identidade nacional que pudesse absorver as alteridades presentes no território. Nesse cenário, o debate sobre o destino das populações originárias colocou em campos opostos, mas estranhamente convergentes, duas das figuras mais influentes do Império: José Bonifácio de Andrada e Silva e o Padre Diogo Antônio Feijó. Embora fossem adversários políticos ferrenhos — Bonifácio ancorado em um conservadorismo ilustrado e Feijó personificando a ala do liberalismo exaltado —, ambos compartilhavam a repulsa à política de “guerra justa” e ao extermínio sistemático que caracterizou o período joanino, notadamente contra os Botocudos. Para ambos, o indígena não era um inimigo a ser eliminado, mas um sujeito a ser integrado à engrenagem do Império.

José Bonifácio personificou o que se pode chamar de integracionismo ilustrado. Seus “Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil”, de 1823, representam a aplicação pragmática do Iluminismo europeu à realidade sul-americana. Bonifácio concebia o indígena como um “diamante bruto”, uma metáfora que carregava tanto um reconhecimento de valor intrínseco quanto a convicção de que apenas a lapidação pela civilização ocidental poderia dar utilidade a esse sujeito. Ele rejeitava a força bruta como método de governança. Em seu lugar, propunha o método da atração: missionários e artesãos deveriam substituir soldados, ensinando ofícios mecânicos e agricultura através da brandura e do convencimento.

A visão andradina era um projeto de engenharia social. Bonifácio defendia a miscigenação institucionalizada, incentivando casamentos entre indígenas e brancos não apenas por tolerância, mas para diluir as identidades étnicas em favor de uma “população homogênea”. Esse desejo de homogeneidade estendia-se à estrutura agrária; ele propunha que os indígenas se tornassem proprietários das terras que cultivassem. Ao transformá-los em pequenos produtores rurais integrados ao mercado, Bonifácio buscava saldar o que via como uma dívida moral, ao mesmo tempo em que fortalecia a economia nacional. A religião, nesse esquema, deixava de ter um fim puramente teológico para tornar-se uma ferramenta pragmática de controle moral e civilizatório.

Em contraste com a idealização de Bonifácio, o Padre Diogo Antônio Feijó operou sob a ótica do pragmatismo liberal e da eficiência administrativa. Como ministro da justiça e, posteriormente, regente, Feijó herdou o caos dos aldeamentos deixado após a expulsão dos jesuítas. Em razão disso, buscou regulamentar esses espaços como centros de produção e reserva de mão de obra. Sua abordagem era moldada pelas urgências da ordem pública e da segurança das fronteiras agrícolas. Se Bonifácio falava em “lapidar” o indígena, Feijó falava em transformá-lo em um cidadão comum, plenamente sujeito às leis do Império. Para o Padre, o status especial do indígena era transitório; uma vez “civilizado”, ele deveria fundir-se à massa da população, sem proteções ou distinções.

Um exemplo notável do pragmatismo de Feijó foi sua tentativa de introduzir os Irmãos Morávios, missionários protestantes, para gerir os aldeamentos. Essa proposta revelava uma busca por métodos de colonização que privilegiassem a disciplina produtiva em detrimento da ortodoxia católica tradicional. Feijó via os indígenas como uma força necessária para ocupar os “vazios” do território brasileiro, servindo como uma barreira humana tanto contra incursões estrangeiras quanto contra o risco de revoltas internas. Enquanto Bonifácio projetava uma nação unida por uma identidade fundida, Feijó buscava um Estado organizado por uma cidadania funcional.

A transição do extermínio para o integracionismo no Brasil Imperial não foi um gesto de benevolência, mas uma mudança de estratégia política. José Bonifácio e Padre Feijó, apesar de suas divergências sobre a estrutura do poder, concordavam que o futuro do Brasil dependia da neutralização da autonomia indígena através de sua incorporação à ordem civil e econômica. O indígena deixava de ser o alvo do mosquete para tornar-se o objeto da lei e do trabalho, consolidando um modelo de integração que, embora evitasse o massacre direto, buscava a dissolução definitiva das culturas originárias em nome da unidade do Império.

SAIBA MAIS

ANDRADA E SILVA, José Bonifácio de. Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2002. (Edição original de 1823).​
BASILE, Marcello. O laboratório da nação: a era regencial. In: GRINBERG, L.; SALLES, R. (orgs.). O Brasil Imperial. Vol. II: 1831-1870. Rio de Janeiro: FGV, 2011.​
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.​
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2013.​
MONTEIRO, John M. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. Campinas: Mercado de Letras; São Paulo: Edusp, 1994.(
SOUSA, Octávio Tarquínio de. Diogo Antônio Feijó. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.​

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