Em uma pequena igreja de madeira encravada nas montanhas da Virgínia Ocidental, a fé não é metáfora — é risco físico imediato. O documentário Holy Ghost People (1967), dirigido e narrado por Peter Adair, conduz o espectador para dentro de um universo religioso onde o corpo é o campo de prova da crença, e a salvação é testada na fronteira entre êxtase e morte.
A câmera não observa de fora; ela entra, senta nos bancos, respira o ar pesado dos cultos noturnos e acompanha uma comunidade pentecostal de Scrabble Creek cujas práticas incluem glossolalia, curas pela fé e o mais controverso dos rituais: o manuseio de serpentes venenosas. Não há trilha dramática nem comentários irônicos. O que vemos é a lógica interna de um mundo onde Marcos 16:18 — “pegarão em serpentes” — não é símbolo, mas instrução literal.
Os cultos são longos, repetitivos, intensos. Cânticos simples criam um ritmo hipnótico; palmas marcam o tempo; vozes se erguem até se tornarem gritos. O documentário mostra homens que se cumprimentam com beijos nos lábios, mulheres que tremem sob o que descrevem como o poder do Espírito Santo, fiéis que caem ao chão enquanto oram. O corpo inteiro participa da liturgia. Não há separação clara entre emoção, fisiologia e transcendência.
As entrevistas revelam uma teologia vivida, não sistematizada. Os membros falam de libertação do pecado, de proteção divina no cotidiano, de experiências diretas com Deus que ultrapassam qualquer mediação institucional. Alguns descrevem a glossolalia como uma língua dada pelo Espírito; outros relatam paralisias súbitas ou tremores como sinais da presença divina. Para eles, essas manifestações não são excessos emocionais, mas evidências empíricas de um mundo espiritual tão concreto quanto o chão da igreja.
É nesse contexto que o manuseio de serpentes aparece não como espetáculo, mas como culminação. As cobras — frequentemente copperheads — circulam de mão em mão enquanto o canto continua. O risco não é negado; é teologicamente reinterpretado. Ser picado não invalida a fé. Ao contrário, a recusa em buscar ajuda médica é apresentada como a prova final de confiança em Deus. A medicina pertence a outra ordem de realidade; aqui, a soberania é divina.
O momento mais perturbador do filme não é um grito ou um transe, mas a indiferença calma diante do colapso de um homem que cai violentamente durante a dança. Ninguém corre. Ninguém grita. O culto segue. A comunidade está habituada a um limiar diferente entre vida e morte, onde a intervenção humana pode significar falta de fé. O clímax chega quando o próprio pastor é mordido. A câmera registra apenas a mão inchada; sabemos depois que ele morreria. O filme termina ali, sem moral explícita.
O que torna Holy Ghost People tão duradouro não é o exotismo das imagens, mas o desconforto intelectual que ele provoca. Ele desafia pressupostos modernos sobre racionalidade, saúde, autonomia individual e o papel do sofrimento. Em vez de retratar seus personagens como curiosidades folclóricas, Adair os apresenta como pessoas coerentes dentro de um sistema de sentido que dá valor redentor ao perigo. A pergunta implícita não é “como eles podem acreditar nisso?”, mas “o que significa levar uma crença às últimas consequências?”.
O documentário também expõe algo que sociedades secularizadas preferem esquecer: toda fé profunda envolve algum tipo de aposta. Na maior parte do mundo religioso contemporâneo, essa aposta é simbólica, moral ou social. Em Scrabble Creek, ela ainda é biológica. O veneno não é alegoria.
Ao recusar narração julgadora, o filme nos deixa sozinhos com nossa própria reação — fascínio, horror, respeito, incredulidade. Esse silêncio é sua força ética. Ele não transforma os fiéis em heróis nem em tolos, mas em testemunhas radicais de uma forma de cristianismo onde a linha entre milagre e tragédia é fina, visível e, ainda assim, atravessada repetidas vezes.
SAIBA MAIS
Adair, Peter (dir.). Holy Ghost People. 1967. Documentário.
Minha etnografia sobre como uma comunidade camponesa no Paraná emprega seus recursos comuns e sua religiosidade pentecostal para fazer decisões econômicas que viabilizam sua existência.

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