A história da aviação não começa nos hangares de metal do século XX, (nem com Santos-Dumont, tampouco com os irmãos Wright) mas no abismo que separa o desejo da gravidade. Voar, antes de ser um problema de sustentação, foi uma questão de teologia e poética.
Dos registros semilendários do Imperador Shun na China — o primeiro a vislumbrar a descida controlada com paraquedas — aos vasos celestes que o Rei Salomão teria ofertado à Rainha de Sabá, o céu sempre foi o território do sagrado e do poder absoluto.
O mito de Dédalo e Ícaro fixou no imaginário ocidental a ideia de que o engenho, quando desmedido, encontra seu limite no sol ou no abismo marinho. Essa herança trágica atravessa os séculos e encontra eco na figura de Bladud, o lendário rei da Bretanha e pai do Rei Lear buscou a liberdade em asas de penas apenas para encontrar a morte. Somente com Leonardo da Vinci é que essa pulsão ganha o rigor da anatomia. Ao dissecar o voo dos pássaros, Da Vinci não apenas rascunhou o paraquedas e o princípio do planador, mas inaugurou uma era onde o céu poderia ser decifrado pelo desenho e pela física.
A tentativa de materializar esses desenhos levou a episódios de coragem quase quixotesca. Giovanni Battista Danti tentou desafiar a gravidade sobre as águas do Lago Trasimeno, enquanto o ferreiro francês Besnier, em 1679, arriscou a própria vida ao cruzar um rio com um aparato rudimentar. Tais esforços não passavam despercebidos pela elite intelectual; na Royal Society, figuras como Robert Hooke e Christopher Wren documentavam experimentos com uma curiosidade científica que já começava a transbordar para a sátira social. No jornal The Guardian (1713), Addison e Steele zombavam do entusiasmo crescente pelo voo, vendo nele mais uma vaidade de uma época obcecada pela novidade.
Essa tensão entre o progresso e a moralidade permeava também a poesia e a literatura filosófica. Se Francis Harding, em seu In artem volandi (1692), via no voo uma questão de virtude e limite, Samuel Johnson, em Rasselas (1759), apresentava uma “Dissertação sobre a Arte de Voar” no qual a audácia de um mecânico terminava, invariavelmente, nas águas de um lago — um lembrete satírico da nossa natureza terrestre. Contudo, foi o jesuíta Francesco Lana de Terzi, em seu Prodromo (1670), quem vislumbrou a face mais sombria da invenção. Ao projetar seu navio a vácuo com esferas de cobre, Lana foi o primeiro a alertar que a conquista dos ares seria, fatalmente, convertida em ferramenta de destruição e guerra.
No século XVIII, a fronteira entre o delírio e a realidade tornou-se cada vez mais tênue. Enquanto o luso-brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão encantava a corte com sua “Passarola” em 1709, a literatura expandia os limites do possível. Pier Jacopo Martello, em Gli Occhi di Gesù, concebeu um navio voador guiado por macacos adestrados, uma imagem que une o bizarro ao fantástico. A ficção científica começava a germinar em obras como Die Geschwinde Reise de Eberhard Kindermann, que imaginava viagens interplanetárias, e no épico Navis Aeria de Bernard Zamagna, que levava o leitor a um voo poético ao redor do globo.
A política também buscava suas asas. Daniel Defoe, em The Consolidator (1705), criou uma máquina movida por uma “chama ambiente” e composta por 513 penas, uma metáfora ácida sobre o funcionamento do Parlamento inglês. Jonathan Swift em Viagens de Gulliver (1726) fala de um ilha flutuante de Laputa, suspensa por um gigantesco ímã e operada segundo os princípios de William Gilbert e Isaac Newton. Aqui, a tecnologia que é, ao mesmo tempo, um prodígio da física e um instrumento de opressão. Quando os irmãos Montgolfier finalmente subiram aos céus em seu balão em 1783, eles inauguraram a aerostática moderna e deram corpo a um espectro de sonhos e medos que, por milênios, pairou sobre a humanidade como uma promessa de transcendência.
Logo viria o avião. Reza a lenda urbana e os melhores dicionários pseudoetimológicos que o termo “avião” veio do francês, um acrônimo para Appareil Volant Imitant un Oiseau Naturel (avion), que teria o engenheiro Clément Ader cunhado em 1890. Mas, na realidade, provavelmente deriva do latim, avis.
