O que significa descrever o mundo quando o mundo já tem dono?
Quando o grego Estrabão (c. 64 a.C. – c. 24 d.C.) começou a escrever sua Geografia, no início da era cristã, Roma não era apenas um império territorial — era um império cognitivo. Estradas, exércitos e impostos precisavam de algo mais básico: um mapa mental do mundo habitado. Não um mapa de linhas e coordenadas, mas um inventário de povos, portos, montanhas, recursos, histórias e temperamentos. A geografia, para Estrabão, não era uma ciência abstrata. Era uma ferramenta de governo.
Nascido em Amaseia, no Ponto (atual Turquia), por volta de 64 a.C., Estrabão viveu a transição da República para o Império, sob Augusto. Viajou por vastas regiões do Mediterrâneo oriental, Egito e Itália. Mas seu maior percurso foi intelectual: ele tentou reunir todo o saber geográfico grego disponível e reorganizá-lo para um novo mundo político — um mundo romano.
Sua obra, a Geographica, em 17 livros, é menos um atlas do que uma enciclopédia do espaço humano. Estrabão não se interessa apenas por onde ficam as coisas, mas por quem vive nelas, como vivem e por que isso importa. Montanhas moldam o caráter. Rios explicam a riqueza. Costas recortadas favorecem o comércio e a navegação. Povos de planícies abertas tendem à mobilidade; povos isolados por relevos abruptos, à autonomia. A paisagem, para ele, não é cenário: é força histórica.
Esse modo de pensar não surge do nada. Estrabão escreve sob a influência do estoicismo, para o qual o cosmos é uma ordem racional, onde natureza e destino se entrelaçam. A geografia, então, torna-se uma ponte entre o físico e o moral. Não se trata apenas de medir a Terra, mas de compreendê-la como um sistema de relações que condiciona culturas, economias e poderes.
Isso o distingue de outro grande nome da tradição geográfica antiga, Ptolomeu, que viveria mais tarde e privilegiaria a matemática, as coordenadas e a cartografia técnica. Estrabão pratica algo diferente: uma geografia corográfica, regional e descritiva. Ele quer contar o “caráter” dos lugares. Seu mundo é narrativo antes de ser geométrico.
Ainda assim, há método. Estrabão combina três fontes principais. Primeiro, a autópsia — aquilo que viu com os próprios olhos. Segundo, a leitura crítica de autores anteriores como Homero, Heródoto, Eratóstenes e Políbio. Terceiro, a síntese histórica: cada região é apresentada não apenas em termos físicos, mas também políticos e culturais, especialmente sob o domínio romano.
Seu leitor ideal não é o filósofo isolado, mas o administrador imperial. A geografia, escreve ele, é útil ao estadista, ao general e ao governante. Saber onde estão as passagens montanhosas, quais povos são guerreiros ou mercadores, quais cidades têm bons portos ou terras férteis — tudo isso é conhecimento estratégico. A Geographica é, nesse sentido, uma forma de ver o mundo “de cima”, como um espaço a ser organizado.
Mas há algo mais sutil em jogo. Estrabão escreve num momento em que o mundo mediterrânico parece, pela primeira vez, politicamente unificado. Sua obra ajuda a imaginar essa unidade. Ao descrever desde a Península Ibérica até a Índia, da Britânia à Etiópia, ele transforma a diversidade em totalidade inteligível. O oikoumene — o “mundo habitado” — torna-se um palco coerente, onde Roma ocupa o centro implícito.
Isso não significa que ele seja um mero propagandista. Estrabão é, acima de tudo, um mediador cultural. Ele preserva tradições locais, mitos de fundação, memórias de povos conquistados. Sua geografia é atravessada por vozes antigas que ele se recusa a descartar, mesmo quando as submete ao crivo da crítica. É revelador que ele defenda Homero como fonte geográfica válida: os poemas épicos, para ele, guardam um saber acumulado sobre o mundo.
Durante séculos, porém, Estrabão foi subestimado. Comparado aos grandes inovadores, pareceu apenas um compilador. Faltaria a ele a originalidade de um descobridor ou a precisão de um matemático. Essa leitura diz mais sobre as expectativas modernas do que sobre sua obra. A Geographica não pretende revolucionar a ciência; pretende organizar o mundo conhecido de forma útil e inteligível. Seu gesto é editorial e interpretativo — e profundamente político.
A história da recepção de Estrabão é marcada por longos períodos de silêncio e redescobertas decisivas. Pouco citado na Antiguidade clássica, ele foi mais utilizado como repositório de informações por compiladores tardios do que como autoridade central. No Ocidente latino medieval, sua obra praticamente desapareceu, enquanto no Império Bizantino manuscritos da Geographica continuaram a circular entre eruditos. A virada veio no Renascimento: a primeira tradução latina completa surgiu em Roma, em 1469, seguida pela edição princeps do texto grego em Veneza, em 1516, integrando Estrabão ao esforço humanista de recuperar o saber antigo sobre o mundo. Durante muito tempo visto como mero compilador, ele foi reavaliado pela filologia e pela história intelectual do século XX, que passaram a reconhecê-lo como um autor com projeto próprio, articulando geografia, filosofia e política. Hoje, sua obra é acessível em edições críticas modernas, como a de August Meineke no século XIX, além das traduções comentadas das coleções Loeb e Budé, que consolidaram Estrabão como fonte essencial para o estudo da geografia e da imaginação espacial na Antiguidade.
Hoje, lemos Estrabão de outro modo. Ele se tornou uma fonte insubstituível para a topografia histórica do mundo antigo, para a etnografia de povos desaparecidos e, sobretudo, para entender como os antigos imaginavam o espaço. Sua obra mostra que mapas nunca são neutros. Toda descrição do mundo carrega uma visão de ordem, importância e centralidade.
A geografia de Estrabão é, nesse sentido, uma geografia do poder — mas também da memória. Ao tentar abarcar o mundo habitado, ele nos lembra que conhecer é sempre situar, conectar e hierarquizar. Seu legado não é um conjunto de coordenadas, mas um modo de olhar: atento às paisagens, às histórias e às formas pelas quais os lugares moldam a vida humana.
Descrever o mundo, para Estrabão, era uma forma de habitá-lo intelectualmente. E talvez ainda seja.

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