Platão imaginou prisioneiros acorrentados dentro de uma caverna, de costas para a entrada. Tudo que conhecem são sombras projetadas na parede à sua frente. O mundo real — os objetos, a luz, o sol — está do lado de fora, inacessível. O conhecimento verdadeiro exigiria libertar-se das correntes e sair da caverna. A realidade estaria lá fora, independente de qualquer observador, esperando ser contemplada.
Kant aceita a estrutura do problema, mas inverte a solução. Para ele, o erro não está em ficar preso às sombras; está em supor que a realidade plena poderia ser alcançada saindo da caverna. Pior: está em supor que os objetos lá fora, as “coisas em si mesmas”, seriam o fundamento do conhecimento. Kant argumentou que jamais temos acesso às coisas como elas são em si mesmas. Temos acesso apenas às aparências, aos fenômenos, àquilo que a mente humana é capaz de processar. A diferença decisiva em relação a Platão é que, para Kant, essa limitação não é uma tragédia. As aparências não são ilusões. São o único tipo de conhecimento possível, e são governadas por leis universais porque a mente que as produz é universal.
Dito de outro modo: a realidade não está nos objetos que projetam as sombras. Está na estrutura da mente que as recebe e organiza.
O sono dogmático e o despertar
Immanuel Kant nasceu em Königsberg em 1724 e ali viveu até sua morte em 1804, numa existência marcada pela regularidade quase mecânica e pela profundidade extraordinária do pensamento. Nos Prolegômenos a toda Metafísica Futura, publicados em 1783, ele confessou que foi David Hume quem “interrompeu seu sono dogmático”. A expressão merece atenção. O sono dogmático era a confiança tranquila de que a razão poderia conhecer o mundo diretamente, sem examinar suas próprias condições de funcionamento. Hume sacudiu essa confiança ao mostrar que conceitos como causalidade não derivam da experiência: por mais vezes que se observe o sol nascer, isso não garante logicamente que ele nascerá amanhã. A ciência, se dependesse apenas da experiência, seria um edifício sem alicerce.
Kant recusou as duas saídas fáceis. Não voltou ao racionalismo dogmático que Hume havia abalado, nem aceitou o ceticismo a que o empirismo de Hume parecia conduzir. Sua resposta foi reformular a pergunta: em vez de perguntar “como o mundo é?”, perguntou “quais são as condições que tornam possível o conhecimento do mundo?”.
Analítico e sintético, a Priori e a Posteriori
Para organizar sua resposta, Kant estabeleceu duas distinções que se cruzam. A primeira separa o conhecimento analítico do sintético. O conhecimento analítico é tautológico: o predicado já está contido no sujeito. Dizer que “todo solteiro é não casado” não acrescenta informação nova; apenas explicita o que a definição já contém. O conhecimento sintético, ao contrário, acrescenta algo: “o planeta Saturno tem anéis” afirma mais do que o conceito de planeta já inclui.
A segunda distinção separa o conhecimento a priori do a posteriori. O conhecimento a priori independe da experiência; o a posteriori depende dela. Combinando as duas distinções, Kant identifica três tipos de conhecimento. O analítico a priori cobre verdades lógicas e definições: necessário, mas vazio. O sintético a posteriori cobre os fatos empíricos: informativo, mas contingente. E existe ainda o sintético a priori, que é ao mesmo tempo novo e necessário. Esse terceiro tipo é o mais importante e o mais problemático: como é possível um conhecimento que acrescenta informação ao mundo e, ao mesmo tempo, vale universalmente, sem precisar ser verificado caso a caso?
A resposta de Kant é que esse conhecimento é possível porque ele não descreve o mundo como ele é em si mesmo; descreve as condições impostas pela mente ao processar qualquer experiência possível.
Espaço, tempo e as intuições puras
Geometria e álgebra eram, para Kant, exemplos paradigmáticos de conhecimento sintético a priori. A geometria descobre as leis universais do espaço; a álgebra, as leis universais do tempo. Mas espaço e tempo, argumentou Kant, não são propriedades dos objetos externos. São “intuições puras”, formas pelas quais a mente humana organiza qualquer percepção possível. Antes de perceber qualquer coisa, a mente já trouxe consigo o espaço e o tempo como molduras nas quais toda experiência será encaixada.
A consequência é significativa. Quando um geômetra prova que a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180 graus, não está descobrindo uma propriedade de triângulos abstratos existentes num mundo platônico. Está descrevendo como o espaço, tal como a mente humana o constitui, necessariamente funciona. A universalidade da geometria não vem do mundo; vem da estrutura da percepção.
As categorias do entendimento
O espaço e o tempo organizam a percepção bruta. Mas percepção não é ainda conhecimento. Para que a experiência se torne conhecimento objetivo, a mente precisa de um segundo conjunto de ferramentas: os conceitos puros do entendimento, que Kant chamou de categorias. Entre elas estão unidade, pluralidade, causalidade e substância. Assim como espaço e tempo são as formas da intuição, as categorias são as formas do pensamento. Elas não são extraídas da experiência; são trazidas pela mente a qualquer experiência possível.
A causalidade, em particular, era o ponto central do debate com Hume. Hume havia mostrado que jamais observamos a causalidade diretamente: observamos eventos em sequência, mas não a necessidade que os conecta. Kant concordou que a causalidade não vem da experiência, e daí retirou uma conclusão oposta à de Hume: a causalidade é uma categoria a priori do entendimento, uma estrutura que a mente impõe ao mundo ao organizá-lo em experiência. Por isso ela é universal e necessária: toda experiência possível já virá estruturada por ela. O problema de Hume não era um obstáculo à ciência; era a evidência de que a ciência é possível precisamente porque a mente constitui a experiência segundo leis universais.
Kant formulou isso com precisão nos Prolegômenos: “a validade objetiva do juízo de experiência não significa nada mais do que sua validade universal necessária”. Diferente da caverna de Platão, as aparências não são ilusões arbitrárias. São fenômenos governados por leis que a própria mente fornece, e é por isso que a ciência pode descobri-las.
Fenômenos e nômenos
A distinção entre fenômeno e nômeno é o coração da filosofia crítica de Kant. O nômeno é a “coisa em si mesma”, o objeto como seria independentemente de qualquer relação com uma mente percebente. O fenômeno é o objeto tal como aparece para nós, depois de processado pelas intuições de espaço e tempo e pelas categorias do entendimento. Toda a ciência opera no domínio dos fenômenos. O nômeno é, por princípio, inacessível ao conhecimento humano: não porque seja distante ou oculto, mas porque as próprias ferramentas do conhecimento, espaço, tempo e categorias, só se aplicam ao que pode ser experienciado.
O esquema pode ser visualizado assim: o nômeno, a coisa em si, passa pelas intuições puras de espaço e tempo, gerando juízos de percepção, que são ainda subjetivos. Quando as categorias do entendimento são aplicadas a esses juízos de percepção, produzem-se juízos de experiência, que são objetivos e universalmente válidos. Esse processo não ocorre no tempo; é a estrutura lógica de qualquer experiência possível, não uma sequência de eventos mentais.
A razão e seus ideais reguladores
Se o entendimento opera com categorias, a razão, faculdade de nível superior, opera com ideias. Kant usou o termo “ideia” num sentido técnico: ideais que a razão busca mas nunca pode alcançar dentro da experiência possível. Há três dessas ideias: a ideia psicológica, que é o sujeito completo, isto é, a alma como totalidade; a ideia cosmológica, que é o conjunto completo de todas as condições da experiência; e a ideia teológica, que é o complexo de tudo que é possível, isto é, Deus.
Nenhuma dessas ideias corresponde a um objeto que possa ser experienciado. Não podemos conhecer a alma como substância, o universo como totalidade ou Deus como ser necessário. Kant chamou de “ilusão transcendental” a tendência da razão de tratar essas ideias como se fossem objetos de conhecimento. Mas as ideias não são inúteis: funcionam como princípios reguladores, horizontes que orientam a busca do conhecimento sem jamais serem alcançados. É porque a razão busca a unidade completa das condições que a ciência avança.
As antinomias ilustram os problemas que surgem quando a razão ultrapassa seus limites. Kant apresentou pares de teses opostas que parecem igualmente demonstráveis: “o mundo tem um começo no tempo” e “o mundo não tem começo no tempo”; “existe liberdade no mundo” e “tudo na natureza segue leis necessárias”. Nenhum dos dois lados pode ser refutado dentro da experiência, porque nenhum deles descreve um fenômeno possível. A solução de Kant foi mostrar que a contradição se dissolve quando se reconhece que liberdade e necessidade operam em planos distintos: a liberdade pode residir no domínio do nômeno, fora do alcance da causalidade natural, enquanto o domínio dos fenômenos permanece inteiramente governado por leis.
Além da física: ciências humanas
A epistemologia de Kant não se limitava às ciências naturais. O pensador refletiu sobre o estatuto de disciplinas como a história, a geografia física e a antropologia, reconhecendo nelas formas legítimas de conhecimento que operam por coordenação em vez de subordinação. Na física, os fatos são organizados por leis que os subordinam uns aos outros numa hierarquia dedutiva. Na história, os fatos se relacionam por coordenação: são situados no tempo e no espaço, mas não podem ser deduzidos uns dos outros. O que unifica o conhecimento histórico não é uma lei teórica, mas uma ideia prática: a ideia de razão, entendida como liberdade progressiva, que serve de princípio regulador para a narrativa histórica.
A antropologia, por sua vez, se sobrepõe em parte à psicologia empírica, mas é orientada pelo ideal cosmopolita de uma humanidade que se reconhece como comunidade moral. Kant lecionou geografia física durante décadas em Königsberg e dedicou à antropologia um curso regular que resultou numa obra publicada em 1798. Nessas disciplinas, o rigor não é o mesmo que na física matemática, mas isso não as torna menos sérias. Elas representam formas de organizar a experiência segundo princípios que a razão fornece, adaptados à especificidade de seus objetos.
O que fica
A inversão kantiana foi uma “revolução copernicana” da filosofia, e a analogia é precisa. Copérnico não removeu a Terra do universo; deslocou o centro do universo para fora dela. Kant não removeu o mundo do conhecimento; deslocou o fundamento do conhecimento para dentro da mente. O que se ganha com isso é a possibilidade de verdades universais: se a geometria vale para todo triângulo possível, é porque todo triângulo possível já foi constituído segundo a intuição pura do espaço que a mente traz à experiência. O preço é o reconhecimento de que o mundo em si permanece inacessível.
Para Kant, esse preço era justo. A ciência não precisava alcançar as coisas em si mesmas para ser objetiva e universal. Precisava apenas descrever com rigor as leis segundo as quais a mente constitui a experiência. Nesse sentido, a caverna de Platão não é um problema a ser resolvido pela fuga; é a condição permanente do conhecimento humano. A diferença é que, para Kant, as sombras na parede têm estrutura, e é essa estrutura, não o sol lá fora, que a filosofia pode conhecer.
SAIBA MAIS
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os Pensadores).
KANT, Immanuel. Prolegômenos a toda metafísica futura. Lisboa: Edições 70, 1988.
KANT, Immanuel. Ideia de uma história universal com um propósito cosmopolita. Lisboa: Edições 70, 1995.
KANT, Immanuel. Antropologia de um ponto de vista pragmático. São Paulo: Iluminuras, 2006.
KLEINGELD, Pauline. Kant on history and the idea of moral progress. The Monist, v. 82, n. 3, p. 520-541, 1999.
STURM, Thomas. Kant und die Wissenschaften vom Menschen. Paderborn: Mentis, 2009.
WATKINS, Eric (ed.). Kant and the sciences. New York: Oxford University Press, 2001.
YOVEL, Yirmiahu. Kant and the philosophy of history. Princeton: Princeton University Press, 1980.

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