Schleiermacher: Sobre os Diferentes Métodos da Tradução

Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768–1834) ocupa uma posição singular na história intelectual moderna. Teólogo protestante, filósofo e filólogo, é lembrado como o “pai da teologia protestante moderna”, mas sua influência ultrapassa largamente o campo da religião. Ao lado de Wilhelm von Humboldt, figura entre os fundadores da hermenêutica filosófica contemporânea, com um único ensaio, lançou as bases conceituais da teoria da tradução como disciplina reflexiva. Sua obra combina sistematicidade, sensibilidade histórica e uma atenção incomum à linguagem como forma de vida.

Tal como em sua teologia e em sua hermenêutica, Schleiermacher não parte de definições abstratas, mas de práticas concretas. No caso da tradução, trata-se menos de estabelecer regras técnicas do que de esclarecer os pressupostos culturais, linguísticos e intelectuais que orientam o ato tradutório. O tradutor não é um simples mediador neutro, mas um agente situado entre línguas, tradições e formas de pensamento.

Teologia e experiência religiosa

Na teologia, Schleiermacher buscou reconciliar o cristianismo com a crítica iluminista sem reduzir a religião à moral ou à metafísica. Em Über die Religion: Reden an die Gebildeten unter ihren Verächtern (Sobre a religião: discursos aos seus desprezadores cultos, 1799), definiu a religião como um sentimento imediato de dependência absoluta (das schlechthinnige Abhängigkeitsgefühl, “sentimento de dependência absoluta”) diante do infinito. A religião não seria, primariamente, um sistema de doutrinas, mas uma forma específica de consciência e experiência vivida no interior de uma comunidade.

Esse deslocamento do dogma para a experiência influenciou a teologia liberal e os estudos modernos da religião. Ao mesmo tempo, revelou um traço constante de seu pensamento: a centralidade da compreensão (Verstehen, “compreensão”) como um processo situado, histórico e mediado pela linguagem.

Hermenêutica: compreender é interpretar

Na hermenêutica, Schleiermacher propôs uma teoria geral da compreensão, válida não apenas para textos bíblicos ou jurídicos, mas para toda produção discursiva. Interpretar envolve, segundo ele, duas dimensões inseparáveis: a gramatical, voltada para a língua e suas regras, e a psicológica ou técnica, voltada para o autor, seu contexto e sua intenção.

A compreensão opera no interior do chamado círculo hermenêutico: entende-se o todo a partir das partes e as partes a partir do todo. Não se trata de um vício lógico, mas da própria condição da compreensão. Esse modelo influenciou a filosofia hermenêutica posterior, de Dilthey a Gadamer, e fornece o pano de fundo teórico de sua reflexão sobre a tradução.

Tradução como problema filosófico

O ensaio Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens (Sobre os diferentes métodos de traduzir, 1813), apresentado como conferência à Academia de Ciências de Berlim, é o texto fundador da teoria moderna da tradução. Nele, Schleiermacher não oferece uma tipologia exaustiva de procedimentos, mas uma distinção conceitual que revela o núcleo do problema tradutório.

Ele começa diferenciando dois tipos de prática:

  1. Dolmetschen (interpretação): tradução voltada para fins práticos, comerciais ou cotidianos, cujo objetivo é a transmissão eficiente do conteúdo.
  2. Übersetzen (tradução propriamente dita): voltada para textos científicos, filosóficos, literários ou sagrados, nos quais forma e conteúdo são indissociáveis.

É apenas no segundo caso que a tradução se torna um problema teórico pleno. Para esses textos, Schleiermacher formula sua célebre alternativa metodológica.

Duas vias fundamentais

Segundo Schleiermacher, o tradutor dispõe, em essência, de apenas duas possibilidades:

  1. Levar o leitor ao autor (Verfremdung, “estranhamento” ou “estrangeirização”).
  2. Levar o autor ao leitor (Einbürgerung, “naturalização” ou “domesticação”).

No primeiro método, preferido por Schleiermacher, o tradutor “deixa o autor em paz” e move o leitor em sua direção. A tradução preserva a estranheza (Fremdheit, “caráter estrangeiro”) do texto original, ajustando a língua de chegada à sintaxe, aos conceitos e ao ritmo da língua de partida. O resultado pode parecer árduo ou pouco natural, mas oferece ao leitor a experiência intelectual de um encontro com outra forma de pensar.

No segundo método, o tradutor adapta o texto estrangeiro às normas da língua e da cultura do leitor. O autor passa a falar como se tivesse escrito originalmente na língua de chegada. O texto flui com naturalidade, mas ao custo de apagar diferenças históricas, conceituais e estilísticas.

Schleiermacher rejeita a neutralidade dessa escolha. Para ele, a domesticação tende a nivelar as línguas e a empobrecer a experiência cultural, enquanto a estrangeirização amplia as possibilidades expressivas da língua de chegada e preserva a alteridade do texto original.

Linguagem e maneira de pensar

O fundamento dessa posição é uma concepção forte de linguagem. Cada língua, para Schleiermacher, expressa uma determinada maneira de pensar (Denkweise, “modo de pensamento”). Traduzir não é apenas substituir palavras, mas tentar tornar inteligível uma forma estrangeira de organizar a experiência. Nesse sentido, a tradução é um exercício hermenêutico radical.

O tradutor, longe de ser invisível, desempenha um papel criativo e formativo. Ele media não apenas entre textos, mas entre mundos simbólicos. A boa tradução, portanto, exige erudição, sensibilidade linguística e disposição para o risco.

Alcance e legado

A oposição entre estrangeirização e domesticação tornou-se um eixo permanente dos estudos da tradução. No século XX, teóricos como Antoine Berman e Lawrence Venuti retomaram explicitamente Schleiermacher, transformando sua preferência metodológica em uma posição ética contra a hegemonia cultural e o apagamento da alteridade.

Mais do que uma técnica, a tradução aparece em Schleiermacher como um ato cultural de alta responsabilidade. Ela pode servir à circulação superficial de conteúdos ou à formação intelectual profunda de uma comunidade leitora. Ao optar por “levar o leitor ao autor”, o tradutor contribui para a ampliação do horizonte linguístico e intelectual de sua própria língua.

Considerações finais

Tal como em sua teologia e hermenêutica, Schleiermacher pensa a tradução a partir da experiência, não de esquemas abstratos. Seu ensaio de 1813 permanece atual porque identifica, com clareza rara, o dilema central do traduzir: entre a facilidade da assimilação e o esforço do encontro com o outro.

Nesse sentido, Schleiermacher não é apenas um teórico da tradução, mas um pensador da alteridade linguística. Sua obra sugere que compreender o outro — seja um texto, uma língua ou uma tradição — exige deslocamento, paciência e abertura. Traduzir, como compreender, é sempre atravessar uma distância sem suprimi-la.

SAIBA MAIS

SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens. 1813.

SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. On Religion: Speeches to Its Cultured Despisers. Cambridge: Cambridge University Press.

ALVES, Leonardo Marcondes. Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher. Círculo de Cultura Bíblica, 2021. Disponível em: https://circulodeculturabiblica.org/2021/01/18/friedrich-daniel-ernst-schleiermacher/

BERMAN, Antoine. L’épreuve de l’étranger. Paris: Gallimard, 1984.

VENUTI, Lawrence. The Translator’s Invisibility. London: Routledge, 1995.

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

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