O assunto surgiu na fila da farmácia. Duas pessoas à minha frente comparavam marcas como quem escolhe vinho: “esse dá menos enjoo”, “aquele emagrece mais rápido”. Ninguém falava de alimentação, de sono, de caminhar. Falavam de canetas.
Eu entendo o entusiasmo. Já usei uma dessas medicações. Funcionou. A balança desceu sem a batalha diária contra a geladeira. A fome, que antes era ruído constante, virou sussurro. Pela primeira vez em anos, comer deixou de ser uma negociação mental o tempo todo. Seria desonesto fingir que não vi benefício.
Mas uma coisa é reconhecer efeito. Outra é transformar isso em solução.
Ozempic, Mounjaro e semelhantes não são truques de Instagram. São medicamentos desenvolvidos para tratar diabetes e, depois, incorporados ao arsenal contra a obesidade. Atuam em hormônios ligados à saciedade e ao controle glicêmico. Reduzem o apetite, retardam o esvaziamento gástrico, alteram a relação com a comida. O mecanismo é elegante. O resultado, visível.
O problema começa quando a caneta vira cosmologia.

Vejo gente tratando essas drogas como ponto final de um processo que mal começou. A lógica é simples: “se eu não sinto fome, emagreci; se emagreci, o problema acabou”. Só que peso não é só fome. É rotina, ambiente, ansiedade, sedentarismo, oferta constante de ultraprocessados, sono ruim, jornadas longas. A injeção age em uma via. A vida segue agindo nas outras dez.
Há ainda um dado incômodo, pouco glamouroso: a reincidência. Quando a medicação é suspensa, parte considerável do peso volta. Não porque o remédio “falhou”, mas porque ele nunca foi o único fator em jogo. Ele silenciou um sintoma — o apetite exacerbado — enquanto o resto da engrenagem permaneceu igual. Tira-se o apoio farmacológico, volta o velho cenário, com o acréscimo de um metabolismo que agora reage à perda anterior.
Isso não é argumento contra o uso. É argumento contra a fantasia.
Também me preocupa o horizonte que não enxergamos. São drogas relativamente novas no uso massivo para emagrecimento. Os efeitos de longo prazo em pessoas sem diabetes, usando por anos a fio, ainda estão sendo mapeados. Sabemos dos enjoos, dos vômitos, da constipação, da perda de massa magra quando não há exercício associado. Sabemos menos sobre o que acontece depois de uma década. Medicina é sempre gestão de risco, não aposta cega.
Mesmo assim, o discurso público desliza para a panaceia. Influenciadores exibem antes e depois como prova moral. Clínicas vendem pacotes como se fossem planos de telefonia. O subtexto é sedutor: “você não precisa mudar tanto; a ciência resolve”. É a mesma promessa que já vimos com pílulas milagrosas, dietas instantâneas, aparelhos abdominais de madrugada na TV. Muda a tecnologia, fica a esperança de atalhos.
Só que emagrecer não é apenas diminuir números. É reorganizar a vida em torno de um corpo que se move mais e come de outro jeito. Medicamentos podem facilitar esse processo. Podem reduzir a barreira inicial, dar fôlego, tornar possível o que antes parecia inviável. Mas não caminham por você, não cozinham por você, não desligam a tela mais cedo para você dormir.
Quando usei, percebi algo simples: a fome menor criava espaço. Espaço para escolher melhor, para não repetir por impulso, para sair de casa sem pensar em comida o tempo todo. Esse espaço podia ser preenchido com novos hábitos — ou com o mesmo sedentarismo de sempre, só que com menos calorias. Um caminho constrói saúde. O outro apenas adia o problema.
Remédio não é fracasso moral. Às vezes é ferramenta necessária, legítima, baseada em evidência. O erro está em transformá-lo em substituto de tudo o mais. Corpo não é planilha onde se ajusta uma variável e o resto obedece.
Essas canetas não são milagre nem vilã. São apoio. Apoio não sustenta casa se a estrutura continua torta.
Leonardo Marcondes Alves é antropólogo e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Emagrecimento. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/02/10/emagrecimento/. Acesso em: 23 jan. 2026.

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