Sem a ambição de listas extensas nem a ansiedade por metas quantitativas, decidi que 2026 será um ano de convivência prolongada com poucos livros. Tal como fiz em 2025 com A Odisseia e o GEB, no ano da defesa do doutorado. A experiência mostrou que a leitura mais fértil não é necessariamente a mais apressada, mas aquela que se estende, retorna, insiste. Ler menos, reler mais, permanecer.
Para isso, escolhi essas obras que, cada uma a seu modo, exigem demora.
O primeiro livro é O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Não se trata propriamente de uma leitura linear. É um texto que se abre ao acaso, que aceita interrupções e retomadas, e que parece ganhar sentido justamente na descontinuidade. A proposta não é “terminá-lo”, mas mantê-lo por perto ao longo do ano, como um caderno de observações alheias que, pouco a pouco, passam a dialogar com as nossas.
O segundo é A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Um romance que desacelera deliberadamente o tempo e força o leitor a fazer o mesmo. Mais do que a narrativa em si, interessa-me acompanhar o modo como Mann transforma o sanatório em um laboratório intelectual: ali se cruzam ciência, política, metafísica, doença e educação. É uma leitura que pede atenção paciente, quase ritual.
Em paralelo, pretendo remoer — sem pressa — as leituras do ano passado. Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstadter e A Odisseia. Não é uma primeira leitura, mas uma tentativa de digestão.
Ao longo de 2026, pretendo compartilhar aqui impressões pontuais, notas de leitura e observações surgidas desse convívio prolongado. Não se trata de resenhas nem de guias, mas de registros de percurso. Leituras, afinal, também são viagens longas — e algumas valem mais pelo caminho do que pela chegada.


Deixe um comentário