Os Mitchells: o clã cigano brasileiro nos EUA

Um clã romani, os Mitchell, um dos grupos mais visíveis do Sul norte-americano traçam suas origens no Brasil do século XIX. Em um raro exemplo da antiguidade e da multidireção dos fluxos migratórios, essa família descendente do patriarca Emil Mitchell (c. 1857–1942), nascido no Rio de Janeiro, se estende por Mississippi, Alabama e estados vizinhos.

As migrações ciganas entre Europa, Brasil e Estados Unidos constituem um capítulo pouco explorado da história atlântica moderna e contemporânea. Longe de seguirem trajetórias lineares, esses deslocamentos foram marcados por coerção, adaptação econômica, redes transnacionais e movimentos de retorno, o que indica padrões de mobilidade multidirecional.

O que singulariza os Mitchell, além da extensão genealógica, é sua forma de articular identidade, mobilidade, legalidade e tradição num contexto hostil à vida nômade (e convenhamos, hostil a minorias). Entre migrações imperiais, estratégias de cidadania e rituais públicos, o grupo construiu uma identidade política e simbólica que sobreviveu à assimilação do século XX.

Exílio e povoamento

A presença romani no Brasil remonta às políticas do Império Português. A partir da década de 1560, a Coroa passou a deportar grupos considerados indesejáveis para as colônias. Entre eles estavam os calons, submetidos ao degredo como punição e, ao mesmo tempo, como instrumento de ocupação territorial.

A deportação era instrumento de controle social. Os ciganos foram classificados pela Inquisição como elementos socialmente indesejáveis, associados à heresia, à feitiçaria e à desordem moral. A pena de degredo para o Brasil figurava entre as punições mais severas. O primeiro cigano documentado a desembarcar em território brasileiro, Antônio de Torres, chegou em 1574. A partir daí, formaram-se núcleos ciganos em diferentes regiões da colônia.

O Brasil tornou-se um dos poucos espaços onde populações romani não apenas foram toleradas, mas mobilizadas pelo Estado para “povoar” regiões de fronteira do leste do São Francisco, de um eixo que ligava Minas Gerais ao Piauí. Muitos se integraram às dinâmicas de fronteira do mundo colonial, atuando como aventureiros, exploradores e buscadores de ouro. Alguns lograram prosperidade como comerciantes, inclusive no tráfico de pessoas escravizadas, evidenciando uma inserção ambígua e pragmática nas estruturas econômicas do período. Ainda sim, ficavam sujeitos às “correrias”, verdadeiros progroms. Nesse ambiente hostil, emigrar era uma possibilidade.

Do Brasil, parte desses ciganos passou a integrar novos circuitos migratórios rumo aos Estados Unidos, sobretudo nos séculos XIX e XX. Registros jornalísticos e listas de passageiros revelam rotas indiretas e identidades fluídas. Em 1895, o New York Times noticiou a chegada de um grupo de ciganos liderado por Juan Miguel, que teria vindo da Bulgária e da Hungria “via Brasil”. O grupo viajou em segunda classe no navio S. S. Philadelphia, evitando o controle de Ellis Island. Contudo, os registros oficiais indicam que a maioria dos passageiros era classificada como nativa do Brasil ou da Venezuela, não da Europa Oriental, conforme os sobrenomes listados — Miguel, Nocolo, Grifo, Nicolas, Uslar, entre outros.

Casos semelhantes reaparecem no início do século XX. Em 1902, o S. S. Byron chegou a Nova York com passageiros oriundos do Brasil e da Argentina, registrados como gregos, sérvios ou italianos. Embora não identificados formalmente como ciganos, os sobrenomes e padrões de mobilidade indicam possível pertencimento a grupos romani. A posse de somas elevadas de dinheiro por algumas famílias aponta para estratégias econômicas bem-sucedidas e circulação de capital ao longo dessas redes transnacionais.

No século XX, o movimento tornou-se ainda mais dinâmico. Havia também um fluxo dos Estados Unidos ao Brasil. Figuras como Miller e Steve Costello, líderes de ciganos espanhóis nos Estados Unidos, mantiveram intensa correspondência relatando deslocamentos constantes entre EUA, Brasil e outros países. Em cartas da década de 1920, mencionam dificuldades econômicas no estado do Paraná e planos de retorno à América do Norte. A crise de 1929 intensificou esse processo inverso: muitos ciganos deixaram os Estados Unidos rumo ao Brasil, América Central e México, buscando escapar dos efeitos da Grande Depressão. O clã Bimbulesti, ciganos kalderash oriundos da Rússia, migrou dos Estados Unidos para a América do Sul no início do século XX, estabelecendo-se na Argentina e no Brasil após cisões internas de liderança.

Os Mitchells

O caso dos Mitchells é bem documentado e possui um referência geográfica em um cemitério, o que faz dessa família um exemplo traceável dos fluxos migratórios. Embora muitos romani brasileiros pertençam ao ramo calon, os Mitchell são associados a grupos machvaya ou a tradições rom de origem balcânica, provavelmente húngara. A hipótese predominante sustenta que seus ancestrais chegaram ao Brasil no século XIX, durante um período de maior circulação transatlântica, fixando-se no Rio de Janeiro. Foi ali que Emil Mitchell nasceu, em 1857, já em um ambiente de contato entre a cultura romani e a sociedade urbana brasileira.

A tradição oral atribui-lhe quinze filhos com Kelly Mitchell e mais de uma centena de descendentes diretos à época de sua morte.

A passagem dos Mitchell da América do Sul para a do Norte coincide com as grandes migrações do pós-1850. As fontes familiares situam a chegada de Emil aos Estados Unidos por volta de 1862, ainda criança. Quanto à rota, há versões concorrentes: entrada por Nova Orleans, porto ligado ao comércio sul-americano, ou por Nova York, para integrar comunidades romani já estabelecidas no Norte. Em ambos os casos, a movimentação refletia a busca por um espaço econômico mais amplo.

Vale notar que os Mitchells aqui tratados não possuem conexão com o  Gypsy Mitchell Clan, de origem irlandesa.

Circuito e ancoragem: a formação de um território simbólico

Uma vez nos Estados Unidos, os Mitchell adotaram um padrão de migração em circuito, deslocando-se sazonalmente por Mississippi, Alabama e Louisiana. O clima ameno favorecia a vida em tendas, mantida até o início do século XX. A região tornou-se um espaço funcional: suficientemente rural para a itinerância, mas conectada a centros urbanos.

Em 1884, Emil obteve cidadania norte-americana, possivelmente em Cleveland, Ohio. O gesto funcionou como um “escudo” legal para um grupo cuja sobrevivência dependia da mobilidade. O Sul e o Meio-Oeste do pós-Guerra Civil ofereciam mercados propícios a atividades tradicionais do clã — comércio de cavalos, metalurgia itinerante e leitura da sorte — em um território ainda em expansão.

1915: a morte de uma rainha e a fundação de um centro espiritual

Meridian, no Mississippi, converteu-se em polo não por planejamento, mas por um evento ritual. Em 1915, a morte de Kelly Mitchell, aos 47 anos, nas proximidades de Coatopa, Alabama, obrigou o grupo a buscar uma cidade com infraestrutura para um funeral de grandes proporções. Segundo a tradição, Emil ofereceu ao médico que a atendia uma soma extraordinária — dez mil dólares em ouro — na tentativa de salvá-la.

Meridian dispunha de uma casa funerária com fábrica de gelo, condição necessária para preservar o corpo até a reunião das famílias romani dispersas. O sepultamento ali estabeleceu um marco: a cidade passou a ser um território “sagrado”, ao qual o clã retornaria por gerações. Os funerais e a celebração dos ancestrais fez deste ponto focal uma oportunidade de manutenção de identidade e socialização.

O funeral, em 12 de fevereiro de 1915, adquiriu proporções públicas. Estima-se a presença de cerca de vinte mil pessoas, número que duplicou a população local. Uma banda abriu a procissão até a Igreja Episcopal de St. Paul. Emil conduziu os homens a pé, de cabeça descoberta; mulheres e crianças seguiram em carruagens. O esquife, puxado por cavalos brancos com plumas negras, transportava Kelly em um caixão metálico com detalhes prateados. Vestia sedas vivas e um manto cerimonial; os cabelos, trançados segundo o costume, eram adornados por um colar de conchas, herança familiar.

Antes do fechamento do caixão, objetos pessoais foram depositados no interior. A narrativa tradicional (lore) fala de moedas de ouro lançadas pelos enlutados, o que alimentou rumores de um sepultamento “em ouro”. Para conter tentativas de profanação, a sepultura foi reforçada com concreto e barras de aço.

Emil morreu em 16 de outubro de 1942, aos 85 anos, em uma tenda em Sand Mountain, perto de Albertville, Alabama. Foi sepultado em Meridian, ao lado de sua primeira esposa.

Rose Hill: ritual, memória e patrimonialização

O cemitério Rose Hill, em Meridian, permanece como principal local de peregrinação dos Mitchell. A tumba de Kelly é reconhecível pelo acúmulo constante de oferendas: frutas, moedas, miçangas, brinquedos, cigarros e, de forma recorrente, garrafas de Orange Crush, bebida associada à falecida. Uma crença difundida afirma que quem deixa um presente acompanhado de um pedido pode receber, em sonho, orientação da Rainha.

Esse regime de visitas traduz uma forma de patrimonialização interna. O espaço funerário funciona como arquivo ritual: preserva a memória do clã e, ao mesmo tempo, media sua visibilidade pública. Assim como em outros contextos romani, a exibição controlada do rito garante distinção sem dissolver fronteiras identitárias.

Herança e presença contemporânea

Ao longo do século XX, muitos descendentes se integraram à vida urbana e a ocupações diversas. Ainda assim, ramos da família permanecem no entorno de Meridian e no norte do Alabama. Práticas como quiromancia e leitura da sorte persistem em alguns núcleos, agora lado a lado com profissões convencionais. Culturalmente, os Mitchell se associam a grupos machvaya e ao universo chamado “Redbone”, mas se autodefinem como o clã Mitchell da nação romani.

Esse caso dos ciganos brasileiros e americanos em transição dialoga com outros casos de migração multidirecional entre Europa, Brasil e Estados Unidos no século XIX. Discuto alguns casos desses (Alves 2023), embora de não ciganos. Missionários, monges itinerantes e colportores protestantes — como João Maria D’Agostini e Francisco Penzotti — também operaram em circuitos transnacionais semelhantes. O Atlântico foi sempre um espaço de circulação contínua de pessoas, crenças e práticas.

As migrações ciganas entre Brasil e Estados Unidos, longe de serem episódicas, revelam uma lógica própria de mobilidade: flexível, estratégica e profundamente enraizada em redes familiares e econômicas. Elas demonstram que as categorias de nacionalidade e pertencimento são menos fixas. Nesse cenário, o Brasil ou os Estados Unidos não eram o destino final, mas plataformas intermediárias em trajetórias globais de longa duração.

SAIBA MAIS

findagrave.com

ALVES, Leonardo Marcondes. On the Footsteps of the Faith: The Nineteenth Century Transnational Foundations of Latin American Pentecostalism. In: The Pentecostal World. Routledge, 2023. p. 55-66. DOI 10.4324/9781003108269-6

ANDRADE Júnior, Lourival. “Os ciganos e os processos de exclusão.” Revista Brasileira de História 33, no. 66 (December 2013). https://doi.org/10.1590/S0102-01882013000200006.

GROPPER, Rena Cotton. Gypsies in the City. Princeton, NJ: The Darwin Press, 1975.

HICKS, Ed. “Where the World’s Romany Trails Meet.” New York Times Magazine, July 10, 1932.

MENINI, Natally Chris da Rocha. “Indesejáveis necessários”: os ciganos degredados no Rio de Janeiro Setecentista. 2021. 198 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2021.

MOTA, Atico Vilas-Boas da. “The Gypsies of Brazil.” The Unesco Courier, October 1984, 32–34.

STEPHENS, Katherine Bernice. “American Gypsies: Immigration, Migration, Settlement.” Master’s thesis, California State University, San Bernardino, 2003. https://scholarworks.lib.csusb.edu/etd-project/2354.

SUTHERLAND, Anne H. Roma: Modern American Gypsies. Waveland Press, 2016.

Leonardo Marcondes Alves é antropólogo e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2026)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2026)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Os Mitchells: o clã cigano brasileiro nos EUA. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/01/29/os-mitchells-o-cla-cigano-brasileiro-nos-eua/. Acesso em: 28 jan. 2026.

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