Dois valores convivem em paradoxo na Coreia, o culto da ostensividade e a busca pela privacidade. Contudo, as novas revoluções tecnológicas jogaram pólvora no incensário antes que esses valores sem conciliassem.
Os grandes incidentes digitais ocorridos na Coreia do Sul em 2025 não podem ser tratados como episódios isolados, falhas técnicas pontuais ou meros “acidentes” de um sistema complexo. Em conjunto, eles revelam padrões estruturais de negligência, escolhas políticas implícitas e um modelo econômico-tecnológico que normalizou riscos inaceitáveis. O que está em jogo vai além da segurança da informação. Há o risco da própria relação entre tecnologia, poder e vida cotidiana. Esses casos coreanos são ilustrativos, pois estamos todos na mesma situação.

Intimidade violada: o caso das câmeras IP e o colapso do espaço privado
O ataque a cerca de 120 mil câmeras IP domésticas e comerciais representa algo qualitativamente distinto de um vazamento de dados. Trata-se de uma violação direta da intimidade. Filmagens de residências, saunas, hospitais e espaços de cuidado foram exploradas como mercadoria sexual, inclusive envolvendo menores. Não houve sofisticação técnica: senhas padrão, combinações triviais e negligência básica bastaram.
Minha leitura é que esse episódio confirma, de forma brutal, a crítica de Sherry Turkle, psicóloga e socióloga da tecnologia que analisa os efeitos da vida digital sobre a subjetividade e as relações humanas. Turkle argumenta que tecnologias conectadas corroem a fronteira entre o público e o privado. Isso aconteceu nos casos coreanos. Ao introduzirmos dispositivos “inteligentes” em espaços íntimos, dissolvemos voluntariamente o que antes era um refúgio. Vigiar um cômodo à distância oferece conveniência limitada, mas expõe lares a invasões reais, como as 545 e 648 filmagens vendidas por dois hackers. A perda vai além do material: dissolve o refúgio do privado
O ganho funcional é mínimo; a perda simbólica e material é enorme.
A isso se soma o diagnóstico de Jaron Lanier, cientista da computação e crítico da economia digital, para quem a tecnologia contemporânea é marcada pela lógica do “barato a qualquer custo”. Essas câmeras existem porque são produzidas e vendidas sob um modelo de “vigilância de baixo custo”, no qual segurança não é prioridade e os dados não possuem valor protegido. O resultado é previsível: quando tudo é barato, a privacidade também se torna descartável.
Centralização e colapso: o incêndio no data center governamental
O incêndio no National Information Resources Service (NIRS), que comprometeu centenas de terabytes de dados públicos e paralisou serviços essenciais, expõe outra dimensão do problema: a fragilidade da centralização extrema. O discurso da eficiência encobriu a criação de um ponto único de falha com consequências sistêmicas.
Computação nas nuvens é uma metáfora perigosa. Nicholas Carr, ensaísta e crítico da tecnologia, autor de The Big Switch, que antecipou os riscos de tratar a computação em nuvem como uma utilidade neutra. O que se chama de “nuvem” é, na realidade, uma infraestrutura física vulnerável. Ao concentrar dados estatais, históricos e operacionais em um único complexo, o Estado troca redundância por eficiência aparente e cria o risco de um apagão civilizacional.
Pelo visto, o problema é institucional. Scott Alexander, ensaísta debatedor sobre falhas burocráticas, fala de crises de competência. É o que vejo no caso coreano. Como é possível que um data center nacional opere sem backups plenamente funcionais ou sistemas de supressão adequados? O incêndio uma erosão de responsabilidade, auditorias complacentes e uma cultura administrativa que confunde complexidade com inevitabilidade.
Falhas específicas incluíram ausência de backups offsite funcionais—apenas 60% dos 858 terabytes foram recuperados até outubro —e sistemas de supressão de fogo inadequados para baterias de lítio, que atingiram 160°C em runaway térmico. Cinco funcionários do NIRS enfrentaram acusações de negligência profissional, expondo auditorias frouxas e priorização de custo sobre redundância em uma infraestrutura que centralizava 700 serviços públicos.
Dados como ativo tóxico: Coupang, Shinhan e o capitalismo de vigilância
Os vazamentos envolvendo a Coupang e a Shinhan Card, afetando dezenas de milhões de pessoas, mostram que o problema se estende ao setor privado. Não se trata apenas de falhas de segurança, é o próprio sistema calcado em uma arquitetura de coleta excessiva de dados.
A crítica de Shoshana Zuboff, socióloga e autora do conceito de capitalismo de vigilância, é tristemente aplicável aqui. Para Zuboff, essas violações não são acidentes: são consequências estruturais de um sistema que transforma comportamentos cotidianos em excedente comportamental explorável. Quando empresas acumulam dados granulares sobre consumo, localização e hábitos, elas criam ativos altamente perigosos. Não é possível proteger indefinidamente informações que jamais deveriam ter sido coletadas nesse nível de detalhe.
Acrescento ainda a perspectiva de Tim Wu, jurista e teórico da regulação. Wu sempre alerta acerca dos riscos coletivos dos monopólios e poder econômico. Se a Coupang opera como uma plataforma dominante, sua falta de concorrência real reduz incentivos à diligência. A segurança deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser um custo evitável, transferindo ao Estado a responsabilidade de intervir após o dano consumado.
Embora a dominância da Coupang reduza incentivos à diligência, a empresa restaurou um terço dos serviços rapidamente e seu fundador se desculpou publicamente. Ainda assim, a falta de concorrência real transfere riscos ao Estado, que interveio com forças-tarefas. A segurança deixa de ser diferencial competitivo e vira custo evitável
Os escândalos de dados na Coreia não são falhas acidentais de uma sociedade digital que, de resto, seria saudável; eles expõem uma tensão estrutural no âmago da modernidade sul-coreana: uma cultura que sacraliza a visibilidade ao mesmo tempo em que exige controle absoluto sobre a intimidade. Se minha tese for aceita, o problema deixa de ser enquadrado como um déficit de regulamentação, de cibersegurança ou de ética corporativa, e passa a ser compreendido como uma contradição civilizacional — na qual a aceleração tecnológica superou a gramática moral capaz de delimitar a exposição, o consentimento e a vergonha.
O que está em jogo não são meramente dados pessoais, mas a erosão das próprias condições sob as quais a privacidade ainda pode funcionar como um bem moral, em vez de um luxo nostálgico. Aceitar esta posição forçaria uma reorientação das políticas e do discurso público: afastando-se de correções tecnocráticas em direção a um acerto de contas cultural com o ideal coreano de transparência como uma virtude quase moral. Nesta leitura, as violações de dados não são desvios do sistema; elas são o seu resultado lógico.
Para ficar alerta
Esses incidentes demonstram a insuficiência de ajustes marginais. Não se trata de corrigir falhas pontuais, endurecer protocolos ou punir alguns responsáveis. O que os casos coreanos expõem é um conflito estrutural entre valores que deixamos de reconhecer como conflitantes. Privacidade, conveniência, centralização e extração de dados não podem ser maximizadas simultaneamente.
A Coreia do Sul — frequentemente celebrada por sua sofisticação tecnológica e por uma cultura que valoriza a reserva — revela aqui o paradoxo da modernidade digital: sistemas altamente avançados sustentados por pressupostos frágeis. Tratou-se a privacidade como opcional, a redundância como desperdício e os dados como recursos infinitos e inofensivos. O resultado não é um “acidente”, mas um modo recorrente de falha.
O denominador comum é a externalização do risco. Usuários pagam com sua intimidade; cidadãos, com a interrupção de serviços essenciais; o Estado, com crises de confiança institucional. Em contrapartida, os ganhos permanecem difusos, diluídos na promessa de conveniência, eficiência e crescimento. Essa assimetria não é técnica, é política.
Aceitar esse modelo implica uma escolha normativa clara, ainda que raramente explicitada: tolerar a erosão do espaço privado, a fragilidade sistêmica e a recorrência de colapsos em troca de sistemas mais baratos, mais rápidos e mais centralizados. Se esse é um preço aceitável, então os episódios de 2025 não são um alerta, mas o novo normal.
A questão, portanto, não é se novas falhas ocorrerão — elas ocorrerão. A questão é se estamos dispostos a continuar chamando de progresso um arranjo que exige, como custo estrutural, a conversão da intimidade em risco e da infraestrutura pública em aposta permanente.
SAIBA MAIS
BBC NEWS. South Korea police say 120,000 home cameras hacked for ‘sexploitation’ footage. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cj01q6p7ndlo. Acesso em: 18 jan. 2026.
CARR, Nicholas. The Big Switch: Rewiring the World, from Edison to Google. New York: W. W. Norton, 2008.
KASPERSKY. Breach of 120,000 IP cameras in South Korea: security tips. Disponível em: https://www.kaspersky.com/blog/south-korea-120000-ip-cameras-hacked/54961/. Acesso em: 18 jan. 2026.
REUTERS. South Korea scrambles to restore services after major state data centre fire. Disponível em: https://www.reuters.com/markets/emerging/south-korea-state-data-centre-fire-knocks-out-online-services-quick-response-2025-09-26/. Acesso em: 18 jan. 2026.
KOREA HERALD. Shinhan Card reports internal leak of 190,000 customers’ data. Disponível em: https://www.koreaherald.com/article/10642506. Acesso em: 18 jan. 2026.
BBC NEWS. South Korea: Online retail giant Coupang hit by massive data leak. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c36zwywll02o. Acesso em: 18 jan. 2026.
LANIER, Jaron. You Are Not a Gadget: A Manifesto. New York: Alfred A. Knopf, 2010.
SISKIND, Scott Alexander. Mediocrity and the Collapse of Complex Systems. Astral Codex Ten, 2022. Disponível em: https://astralcodexten.substack.com/p/mediocrity-and-the-collapse-of-complex. Acesso em: 18 jan. 2026.
THE REGISTER. Coupang data leak affects 34 million South Koreans. Disponível em: https://www.theregister.com/2025/06/12/coupang_data_leak/. Acesso em: 18 jan. 2026.TECHCRUNCH. Coupang breach: former employee accessed 34M user records. Disponível em: https://techcrunch.com/2025/06/10/coupang-breach-34-million-users/. Acesso em: 18 jan. 2026.
TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.
WU, Tim. The Curse of Bigness: Antitrust in the New Gilded Age. New York: Columbia Global Reports, 2018.
ZDNET. South Korea telecom breaches: SKT, KT, LG Uplus all hit in 2025. Disponível em: https://www.zdnet.com/article/south-korea-telecom-breaches-2025/. Acesso em: 18 jan. 2026.
ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. O paradoxo da privacidade na era digital coreana. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/01/18/o-paradoxo-da-privacidade-na-era-digital-coreana/. Acesso em: 20 jan. 2026.

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