Victor Turner (1920–1983) foi um antropólogo cultural britânico nascido em Glasgow. Seu trabalho de campo entre os Ndembu, na atual Zâmbia, orientou uma reflexão sistemática sobre rituais e processos de transição social. Ao examinar cerimônias locais, Turner ampliou a estrutura tripartida proposta por Arnold van Gennep e conferiu centralidade analítica à fase liminar.
Sua interlocução com Van Gennep constitui continuidade e deslocamento. Van Gennep privilegiara a mudança de status social objetivamente reconhecida. Turner concentrou-se nas transformações internas associadas ao rito: reconfigurações morais, cognitivas e afetivas que acompanham a passagem. O estado liminar deixou de ser apenas intervalo socialmente definido e passou a ser analisado como processo de desconstrução e recomposição da pessoa.
O conceito de communitas sintetiza essa inflexão. Turner descreve os ritos de passagem como momentos que suspendem hierarquias e autorizam formas alternativas de relação. Durante a liminaridade, participantes são temporariamente despojados de títulos, posições e distinções. Nesse contexto emerge um vínculo direto, não mediado por status, que ele denominou communitas: experiência de igualdade prática e pertença compartilhada.
Liminalidade e communitas compõem o que Turner chamou de anti-estrutura ritual. O termo designa situações em que classificações sociais são suspensas, expondo o caráter construído das hierarquias. A estrutura organiza a vida coletiva e distribui posições; o ritual interrompe periodicamente essa distribuição, reinscrevendo a ideia de unidade humana. A relação entre estrutura e anti-estrutura assume, em sua análise, forma dialética.
Turner estendeu o alcance da liminaridade para além de rituais obrigatórios. Propôs a distinção entre liminar e liminoide. O liminar integra ritos coletivos vinculados à ordem social e à reprodução institucional. O liminoide caracteriza práticas voluntárias das sociedades complexas, situadas nas margens da vida econômica e política. Carnaval, teatro, peregrinações, festivais e movimentos contraculturais constituem espaços de experimentação simbólica nos quais formas de communitas podem emergir.
A colaboração intelectual com Richard Schechner aproximou antropologia e estudos da performance, consolidando a análise do ritual como ação simbólica encenada. O modelo tripartido também foi incorporado à psicologia clínica como esquema interpretativo do trauma: ruptura involuntária como separação, sofrimento prolongado como liminaridade bloqueada, e terapia como processo de reintegração.
A contribuição de Turner redefiniu o alcance do legado de Van Gennep. Ao deslocar a atenção do estatuto social para a experiência vivida, introduziu categorias capazes de descrever processos contemporâneos de transformação. Liminalidade e communitas permanecem instrumentos analíticos para compreender situações em que identidades se suspendem, relações se reconfiguram e novas formas de pertencimento se tornam pensáveis.
Bibliografia
TURNER, Victor. Schism and Continuity in an African Society: A Study of Ndembu Village Life. Manchester: Manchester University Press, 1957.
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TURNER, Victor. The Ritual Process: Structure and Anti-Structure. Chicago: Aldine, 1969.
TURNER, Victor. Dramas, Fields, and Metaphors: Symbolic Action in Human Society. Ithaca: Cornell University Press, 1974.
TURNER, Victor. From Ritual to Theatre: The Human Seriousness of Play. New York: PAJ Publications, 1982.
TURNER, Victor; TURNER, Edith. Image and Pilgrimage in Christian Culture. New York: Columbia University Press, 1978.

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