Paleoantropologia: a emergência dos hominídeos

A paleoantropologia estuda o registro fóssil dos hominídeos e suas circunstâncias culturais. Nos últimos trinta anos apareceram novos dados e descobertas de tal modo que fica meio difícil de acompanhar o consenso científico.

Alguns conceitos para manter-se em mente quando ler notícias sobre paleoantropologia:

Principais espécies hominídeos do Pleistoceno

  • Australopiteco (Australopithecus, “símio do sul”). Existiu entre 4.5 e 1.2 milhões de anos antes do presente. Um gênero do plioceno do qual teria emergido o gênero homo. O “elo perdido” entre os símios e o hominídeos. Ainda que muito similares aos chimpazés, eram mais bípedes e menos arbóreos. Dentalmente semelhantes aos humanos. Com o tamanho de cérebro pouco maior do que o dos símios atuais. Primeiros usos de pedra como ferramenta.
  • Homo habilis. Floresceu entre 2.3 e 1.65 anos atrás. O “habilidoso” do nome resulta de ter feito uso contínuo ferramentas de pedra na tradição lítica olduvaiense.
  • Homo naledi: espécie com similaridades entre o habilis e os australopitecídeos.
  • Homo erectus. Desenvolveu cerca de 2 milhões de anos atrás. A disferenciação entre macho e fêmea (dimorfismo sexual) ficou mais acentuada. Talvez os primeiros a deixarem a Áfria, pois foi encontrado na Geórgia, China, Java além de no sul da África, atestando uma capacidade de dispersão.
  • Homo floresiensis. Espécie endêmica da Ilha de Flores, Indonésia. Seria uma evolução do homo habilis, mas de pequena estatura. 50 mil a 190 mil anos atrás. Talvez tenha sido os últimos remanescentes dos hominídeos de capacidade craniana pequena.
  • Heidelbergense (Homo heidelbergensis). Viveu entre 600 mil e 200 mil anos atrás. Tradição lítica acheuliana (ferramentas que parecem umas “coxinhas” de pedra). Encontrado na Europa e talvez a mesma espécie vivia no sul da África. É um problema para classificação e relação com outras espécies. Talvez o ancestral dos neandertais e dos denisovanos. Caracteriza-se pelos cérebros maiores que as espécies acimas.
  • Neandertal (Homo sapiens neaderthalis): espécie eurasiana que floresceu entre 400 e 40 mil anos atrás. Possuíam cultura complexa, como fazer fogo, roupas e tratamentos medicinais. Mais corpulentos e com membros curtos que os sapiens modernos, transmitiram um legado genético às populações da Europa, Ásia, Oceania e Américas, mas muito pouco à África.
  • Denisovanos (Denisova hominins). Descobertos na Síbéria em 2010. Embora tivessem a aparência de humanos modernos, sua dentição seria mais arcaica. Há índicios de seus genes nos humanos modernos, principalmente entre os melanésios, aborígenes australianos e negritos filipinos. Seriam aparentados dos neadertais, com os quais tiveram cruzamentos.
  • Homo sapiens arcaicos. Surgido cerca 300–500 mil anos. Contrários dos neadertais e denisovanos, sua variabilidade fenotípica permitiu adaptações em ambientes variados.
  • Cro-Magnons: termo hoje obsoleto para referir-se aos primeiros europeus Sapiens moderno que existiram entre 60 e 30 mil anos atrás. Teriam cruzado com os neandertais.
  • Homo sapiens modernos. Espécie geneticamente uniforme apesar de sua distribuição ampla (nativos a todos os continentes, menos na Antártida). Comportalmente diferenciaram dos Sapiens arcaicos cerca de 160-60 mil anos atrás.

Modelos de especiação

Hoje existem três modelos paleoantropólogicos para a relação evolutiva entre as diferentes espécies.

  1. Evolução linear [1]e saída da África em tempos relativamente recentes. Neadertais e outras espécies não contribuíram tanto para a formação do ser humano moderno e são galhos podados da árvore evolutiva, embora tenham sido contemporâneos dos Sapiens arcaicos. Uma versão combinada com alguns elementos do multirregionalismo (principalmente a hibridização) é a teoria mais aceita.
  2. Multiregionalismo. Várias ondas migratórias e especiação gradual. Neandertais, Denisovanianos, Heidelbergenses e Sapiens arcaicos evoluíram paralelamente e tiveram cruzamentos até formar o Homo sapiens moderno. Uma variante da teoria supõe que as outras espécies foram aos poucos assimiladas pelos Sapiens.
  3. Vai e volta. Hominídios que saíram da África há 1.8 milhões de anos evoluíram para ouras espécies na Eurásia. Depois, retornaram à África onde houve sobreposições das diferentes espécies, com cruzamentos, até que um grupo com características modernas emergiu. De volta, saíram os hominídeos da África, mas já como Sapiens modernos.

Alguns conceitos adicionais

  • Eva mitocondrial. O DNA nas mitocôndrias são transmitidos primordialmente por via materna. Com base nisso, é possível calcular a distância genética de populações atuais até a ancestral matrilinear mais recente de uma espécie. Contrário do que muitos podem pensar, não é a ancestral mais antiga de uma espécie. Nem é o primeiro membro de uma espécie. Também não exclui a existência de outras fêmeas contemporâneas. Tampouco exclui a existência de outras linhagens ancestrais dos indivíduos atuais (sua avó paterna poderia ser a última de outra linhagem, por exemplo). Não se iguala à ancestral comum de uma espécie, a qual tende a ser mais recente. Por fim, o conceito mais mal compreendido: todo mundo tem o DNA mitocondrial materno, mas há raros casos de transmissão de parte do DNA mitocondrial paterno, visto que o espermatozóide também possui mitocôndrias. A eva mitocondrial dos seres humanos teria vivido há 145 mil anos.
  • Cultura lítica, tradição lítica ou indústria lítica: nomes bonitinhos para indicar as modas de lascar e polir pedras.
  • Modernidade anatômica: não corresponde à modernidade cultural ou comportamental. Os Sapiens arcaicos não necessariamente possuíam língua e raciocínio simbólico como os modernos, mas provavelmente tinham uma capacidade no “hardware” para tal.
  • Símios atuais não são ancestrais dos hominídeos. Chimpazés, bonobos, gorilas e orangotangos evoluíram a partir de outras linhagens.
  • Hipótese da única espécie. Teoria hoje rejeitada de que houve uma só espécie de hominídeo na cronologia evolucionária. Proposta por C. Loring Brace e Milford Wolpoff, da University of Michigan. Ainda repetida em muitos textos e ilustrações populares.
  • Classificação por fatores independentes. As diferentes espécies de hominídeos são classificados com base em elementos da genética, anatomia e artefato arqueológicos e outras informações. Há várias espécies e subespécies propostas, mas são reconhecidas como distintas somente se cada categoria de elementos apresentar diferenciação segura.
  • Hominídeos: primatas com seguintes traços anatômicos e comportamentais: bipedalismo preferencial e caminhada ereta; dentes com arco dentário parabólico encurtado e caninos pequenos; início tardio da maturidade sexual; cérebro grande; habilidades culturais e comportamentais complexas, como o uso de ferramentas.
  • Encefalização: crescimento da massa do cérebro;
  • Bipedalismo: caminhada e equilíbrio sobre os dois pés.
  • Terrestrialidade: preferência por um habitat no solo em contraposição ao arboralismo de outros primatas.


SAIBA MAIS

Cann, Rebecca L., Mark Stoneking, and Allan C. Wilson. “Mitochondrial DNA and human evolution.” Nature 325.6099 (1987): 31-36. DOI 10.1038/325031a0

Stringer, Chris (2014). «Why we are not all multiregionalists now»Trends in Ecology & Evolution (5): 248–251 DOI:10.1016/j.tree.2014.03.001.

Martinon-Torres, M., Xing, S., Liu, W., Maria Bermudez de Castro, J. (2018). A “source and sink” model for East Asia? Preliminary approach through the dental evidence. Comptes Rendus Palevol, 17 (1-2), 33-43. doi: 10.1016/j.crpv.2015.09.011

Maier, P.A., Runfeldt, G., Estes, R.J. et al. African mitochondrial haplogroup L7: a 100,000-year-old maternal human lineage discovered through reassessment and new sequencing. Sci Rep 12, 10747 (2022). https://doi.org/10.1038/s41598-022-13856-0

Luo, Shiyu, et al. “Biparental inheritance of mitochondrial DNA in humans.” Proceedings of the National Academy of Sciences 115.51 (2018): 13039-13044. https://doi.org/10.1073/pnas.1810946115

Rius, Rocio, et al. “Biparental inheritance of mitochondrial DNA in humans is not a common phenomenon.” Genetics in Medicine 21.12 (2019): 2823-2826. https://doi.org/10.1038/s41436-019-0568-0

Warren, M. (2019). “Biggest Denisovan fossil yet spills ancient human’s secrets”. Nature News. 569 (7754): 16–17. DOI:10.1038/d41586-019-01395-0

Warren, M. (2018). “Mum’s a Neanderthal, Dad’s a Denisovan: First discovery of an ancient-human hybrid – Genetic analysis uncovers a direct descendant of two different groups of early humans”. Nature. 560 (7719): 417–418. DOI:10.1038/d41586-018-06004-0


[1] Outros nomes. Hipótese da origem única, Modelo “Fora da África”, Hipótese da Substituição, Origem Recente Africana. Modelos estritamente lineares (como em ilustrações de textos escolares) foram já abandonados desde os anos 1970.

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