
Fernando Sorrentino (1942–) é um escritor argentino contemporâneo cuja obra se distingue pela peculiar fusão do quotidiano com o absurdo e o fantástico. Suas narrativas, frequentemente marcadas por um humor peculiar e uma ironia refinada, exploram a irrupção do insólito no mundo comum, muitas vezes sem recurso a explicações lógicas. Embora distinto do realismo mágico canônico latino-americano, o trabalho de Sorrentino naturaliza o inverosímil dentro de cenários banais, criando um universo literário singular.
A prosa de Sorrentino situa-se numa encruzilhada fecunda da tradição literária argentina, absorvendo e reconfigurando influências de dois mestres de estilos contrastantes: Jorge Luis Borges e Roberto Arlt. Da herança borgeana, Sorrentino herda a exploração de paradoxos e universos regidos por uma lógica do absurdo própria. No entanto, substitui a erudição e a profundidade metafísica de Borges por um tom mais irónico e um humor ácido. Ambos partilham uma economia de palavras e uma prosa precisa, despojada de sentimentalismo. A influência é visível em contos como o que dá título a Sanitario No. 7, onde um personagem, tal como figuras borgeanas, tenta escapar ao seu criador, evidenciando a metaficção como tema.
Por outro lado, Sorrentino dialoga com o grotesco urbano e a sátira social de Roberto Arlt. Se Arlt retratou a Buenos Aires marginal e os delírios de personagens fracassados em obras como Os Sete Loucos, Sorrentino adapta esse olhar crítico para o universo da pequena burguesia, da burocracia e das relações de poder quotidianas. O gosto pelo patético e pelo cómico cruel é partilhado, mas em Sorrentino a angústia existencial arltiana cede lugar a uma ironia mais controlada e distanciada. Imperios y servidumbres, com sua alegoria de um homem dominado por formigas, ecoa as tramas de Arlt sobre dominação e fracasso, mas transpostas para uma chave fantástica e irónica.
A análise de algumas obras-chave revela a consistência e evolução de seu projeto literário. Em El rigor de las desdichas (1972), o fantástico irrompe no quotidiano de forma arbitrária e implacável. O conto homónimo, sobre um homem assombrado por um fantasma que só aparece quando ele usa bermudas, funciona como uma metáfora do destino enquanto piada cruel, indecifrável. O estilo aqui é marcado por uma narrativa seca, quase burocrática, que intensifica por contraste o absurdo dos eventos, numa técnica que pode lembrar Kafka.
Em Imperios y servidumbres (1982), o foco desloca-se para as relações desiguais de poder e servidão, exploradas através do grotesco. O conto “El imperio de los insects”, onde um funcionário que tenta exterminar formigas acaba por se tornar seu escravo, serve de alegoria sobre a fragilidade do controlo humano e a inversão de hierarquias. A crítica social aproxima-se de Arlt, mas a execução é filtrada por um humor mais refinado e uma fantasia mais explícita.
Finalmente, em Sanitario No. 7 (1993), a metaficção assume o centro do palco. O tema da literatura como prisão e a relação tensa entre autor e personagem são explorados com humor negro. O conto-título, onde um homem descobre ser personagem de um livro e tenta sabotar a narrativa, dialoga diretamente com textos de Borges como “Exame da Obra de Herbert Quain”, mas substitui o labirinto intelectual pela exploração do desespero cômico da criatura presa na página.
Pela sua obra é fácil reconhecer o lugar de Fernando Sorrentino na literatura argentina contemporânea. Combina com maestria a especulação fantástica de linhagem borgeana com a crítica social e o grotesco de raiz arltiana. Sua assinatura reside na forma como o absurdo emerge em cenários prosaicos, tratado com uma linguagem precisa, um humor mordaz e uma ironia distanciada. Através de suas narrativas, oferece uma reflexão singular sobre a vulnerabilidade humana, as relações de poder e a natureza precária e frequentemente inexplicável da realidade.

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