Voltaire e os Quakers

quakers

PRIMEIRA CARTA SOBRE OS QUAKERS

Acreditei que a doutrina e a história de um povo tão extraordinário mereciam a curiosidade de um homem sensato. Para informar-me a esse respeito procurei um dos mais célebres quakers da Inglaterra, que, após trinta anos de comércio, soubera impor limites à sua fortuna e aos seus desejos, retirando-se para um campo próximo de Londres.

Fui procurá-lo em seu retiro – casa pequena, mas bem construída, muito limpa e sem enfeites. O quaker era um velhote viçoso que nunca ficara doente porque jamais conhecera paixões e intemperança. Em toda minha vida nunca vi um ar mais nobre nem mais acolhedor do que o seu. Estava vestido, como todos os de sua religião, com uma roupa sem pregas nos lados, sem botões nos bolsos e nas mangas, trazendo um chapelão de abas caídas, como o de nossos eclesiásticos. Recebeu-me de chapéu, adiantou-se até mim sem inclinar o corpo, e, no entanto, havia mais delicadeza no ar franco e humano de seu rosto do que aquela presente no hábito de puxar uma perna para trás da outra e de carregar na mão aquilo que foi feito para cobrir a cabeça.

“Amigo”, disse-me. “Vejo que és estrangeiro. Se te posso ser útil, basta que o digas”. “Senhor”, respondi-lhe, curvando o corpo e deslizando um pé em sua direção, segundo nosso costume, “estou certo de que minha justa curiosidade não vos desagradará, e que gostareis de instruir-me a respeito de vossa religião”.

“A gente de teu país”, respondeu-me, “faz muitos cumprimentos e reverências, mas nunca vi alguém com tanta curiosidade como a ti. Entre e jantemos”.

Continuei a fazer cerimônias sem sentido porque ninguém se desfaz de seus hábitos de uma só vez.

Após uma refeição sadia e frugal, iniciada e terminada com uma prece a Deus, comecei a interrogar meu homem. Iniciei pela questão a qual os bons católicos puseram mais de uma vez aos huguenotes:

“Meu caro senhor, sois batizado?”

“Não”, respondeu-me o quaker, “nem meus confrades o são”.

“Como? Raios!”, retorqui. “Então não sois cristãos?”

“Meu filho”, retomou ele docemente, “não pragueje. Somos cristãos e tentamos ser bons cristãos, mas não pensamos que o cristianismo consista em jogar água fria com um pouco de sal sobre a cabeça”.

“Ei, diabos!” Retruquei indignado com tal impiedade. “Esquecestes que Jesus Cristo foi batizado por João?”

“Amigo, nada de pragas”, disse o benigno quaker. “Cristo recebeu o batismo de João, mas nunca batizou alguém; não somos discípulos de João, mas do Cristo”.”

“Ai, como seríeis queimado em país de Inquisição, pobre homem”, respondi-lhe. “Que eu vos batize e vos faça cristão!”

“Se precisássemos condescender com a tua fraqueza, nós o faríamos de bom grado”, disse-me gravemente; “não condenamos quem pratica a cerimônia do batismo, mas cremos que aqueles que professam uma religião saudável e espiritual devem abster-se, na medida do possível, das cerimônias judaicas”.

“Ora, vejam só! Cerimônias judaicas!”

“Sim, meu filho”, continuou, “tão judaicas que muitos judeus ainda hoje realizam o batismo de João. Consulta a Antiguidade. Ensinar-te-à que João apenas renovou essa prática, já em uso desde havia muito entre os hebreus, como a peregrinação a Meca entre os ismaelitas. Jesus aceitou receber o batismo de João, assim como se submeteu à circuncisão, mas essas duas práticas devem ser abolidas pelo batismo de Cristo. Batismo do espírito, ablução da alma, que salva os homens. O precursor João dizia: ‘Em verdade, vos batizo com água, mas outro virá depois de mim, mais potente do que eu e cujas sandálias sou indigno de usar; esse batizará com fogo e com o Santo Espírito’. Da mesma maneira, o grande apóstolo dos gentios, Paulo, escreve aos Coríntios: ‘O Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho’. E este mesmo Paulo só batizou com água duas pessoas e, ainda assim, contra sua própria vontade. Circuncidou seu discípulo Timóteo, e os demais apóstolos também circuncidaram todos os que o quiseram. És circunciso?”, acrescentou.

Respondi-lhe que não tinha essa honra.

“Pois bem, amigo”, concluiu, “és cristão sem seres circunciso e eu, sem ser batizado”.

Eis como meu santo homem abusava especiosamente de três ou quatro passagens das Santas Escrituras que pareciam favorecer sua seita, mas com a melhor boa fé do mundo esquecia uma centena de passagens que a esmagavam. Cuidei para não contestá-lo em nada. Com um entusiasta nada se tem a ganhar. Não se deve ter a lembrança de mostrar a um homem os defeitos de sua amante, nem a um defensor, a fraqueza de sua causa, nem razões a um iluminado. Assim, passei a outras questões.

“Com respeito à comunhão, como estais habituados?”

“Não estamos habituados”, respondeu.

“Como? Nada de comunhão?”

“Não. Nenhuma, senão a dos corações”. E citou-me, então, ainda uma vez, as Escrituras. Fez-me um belíssimo sermão contra a comunhão e falou-me, num tom inspirado, para provar-me que todos os sacramentos não se encontravam uma única vez nos Evangelhos.

“Perdoa minha ignorância”, disse-me, “não te forneci a centésima parte das provas de minha religião, mas podes vê-las na exposição de nossa fé por Robert Barclay. É um dos melhores livros que já saíram das mãos de um homem. Nossos inimigos concordam em que é muito perigoso, o que prova como é razoável”.

Prometi-lhe ler o livro e meu quaker já acreditou-me convertido.

Em seguida, explicou-me em poucas palavras algumas singularidades que expõem sua seita ao desprezo das outras.

“Confesse que tiveste dificuldade para impedir o riso quando respondi a todas as tuas cortesias com meu chapéu sobre a cabeça e te tratando com o ‘tu’. No entanto, pareces bastante instruído e não podes ignorar que no tempo do Cristo nenhuma nação caía no ridículo por substituir o plural pelo singular. Dizia-se a César Augusto: amo-te, peço-te, agradeço-te. Aliás, não suportava que o chamassem de Senhor, Dominus. Só muito depois dele os homens resolveram fazer-se chamar por ‘vós’ em vez de ‘tu’, como se fossem duplos, e usurpar os títulos impertinentes de Grandeza, Eminência, Santidade, dados pelos vermes da terra a outros vermes da terra, assegurando-lhes, com: profundo respeito e infame falsidade, que são seus servidores muito humildes e obedientes. Como nos precavemos contra esse indigno comércio de mentiras e adulações, tuteamos igualmente os reis e os sapateiros, não saudamos ninguém. Temos pelos homens apenas a caridade, e o respeito apenas pelas leis”.

“Nossa roupa, um pouco diferente da dos outros homens, é um aviso contínuo para que não nos assemelhemos a eles. Os outros trazem as marcas de suas dignidades; nós, as da humildade cristã. Fugimos das assembleias de prazer, dos espetáculos, do jogo, porque seríamos lastimáveis se enchêssemos com tais bagatelas corações que Deus deve habitar. Nunca fazemos juramento, mesmo em justiça. Pensamos que o nome do Altíssimo não deve ser prostituído nos debates miseráveis dos homens. Quando é preciso que compareçamos diante dos magistrados pelos negócios dos outros (pois nunca temos processos), afirmamos a verdade por ‘sim’ e por ‘não’, e os juízes nos acreditam sob simples palavra, enquanto tantos cristãos perjuram sobre o Evangelho. Nunca vamos à guerra, não porque temamos a morte; ao contrário, bendizemos o momento que nos une ao Ser dos Seres, mas porque não somos lobos, tigres ou cães e sim homens, cristãos. Nosso Deus, que ordenou o amor aos inimigos e o sofrimento sem lamúrias, não há de querer, sem dúvida, que atravessemos o mar para ir degolar nossos irmãos, só porque assassinos vestidos de vermelho, com um gorro de dois pés de altura, recrutam cidadãos, fazendo ruído com dois bastões sobre uma pele de asno bem esticada. Quando, após as batalhas ganhas, Londres inteira brilha iluminada, o céu incendiado de fogos, o ar ressoando com o barulho das ações de graças, dos sinos, dos órgãos, dos canhões, gememos em silêncio sobre os assassínios que causam a alegria pública”.

SEGUNDA CARTA SOBRE OS QUAKERS

Foi essa, aproximadamente, a conversa que tive com esse homem singular, e para minha surpresa, no domingo seguinte, levou-me à igreja dos quakers. Possuem várias capelas em Londres. Aquela aonde fui está próxima do famoso pilar denominado  “Monumento” (A coluna elevada para comemorar o incêndio de Londres em 1666. Nota do Autor).

Ao entrar com meu guia, os demais já se encontravam reunidos. Havia mais ou menos quatrocentos homens e trezentas mulheres; estas escondiam o rosto sob os leques, e aqueles permaneciam cobertos com seus chapelões. Estavam todos sentados, num profundo silêncio. Passei por eles sem que um só erguesse os olhos para mim. O silêncio durou por volta de um quarto de hora. Por fim, um deles levantou-se, tirou o chapéu e, depois de algumas caretas e de alguns suspiros, despejou, em parte pela boca, em parte pelo nariz, um galimatias tirado do Evangelho, segundo acreditava, e incompreensível tanto para ele como para os outros. Quando o contorcionista terminou seu belo monólogo e a assembleia se separou, muito edificada e estúpida, perguntei ao meu homem por que os mais sábios dentre eles suportavam tais bobagens. “Somos obrigados a tolerá-las”, disse-me, “porque não podemos saber se um homem que se levanta para falar será inspirado pelo espírito ou pela loucura. Na dúvida, escutamos pacientemente. Permitimos até mesmo que as mulheres falem. Muitas vezes, dois ou três de nossos devotos sentem-se inspirados ao mesmo tempo e, então, faz-se um bonito barulho na casa do Senhor”.

“Não tendes padres?” – perguntei.

“Não, meu amigo” – disse o quaker. – “E estamos muito bem. Praza a Deus que não ousemos ordenar a alguém que receba o Espírito Santo aos domingos, com exclusão de todos os outros. Graças aos céus, somos os únicos sobre a terra a não ter padres. Quererias arrancar-nos uma distinção tão feliz? Por que abandonaríamos nosso filho nas mãos de amas mercenárias quando temos leite para lhe dar? As mercenárias logo dominariam a casa, oprimindo a mãe e a criança. Deus disse: recebeste grátis, dai grátis. Iremos, depois dessa palavra, comerciar o Evangelho, vender o Espírito Santo e fazer de uma assembleia de cristãos uma loja de comerciantes? Não damos dinheiro algum a homens vestidos de negro para que assistam nossos pobres, enterrem nossos mortos, preguem aos nossos fiéis. Estas santas tarefas nos são muito caras para que as descarreguemos sobre outros”.

“Mas” – insisti -, “como podeis discernir se é o Espírito de Deus que vos anima em vossos discursos?”

“Quem orar a Deus para que o esclareça e quem anunciar as verdades evangélicas que sinta estará seguro de que Deus o inspira”.

E, então, cumulou-me com citações das Escrituras que, em sua opinião, demonstravam só haver cristianismo com revelação imediata, acrescentando estas palavras notáveis: “Quando moves um de teus membros, é tua própria força que o mexe? Não, sem dúvida, pois tal membro frequentemente possui movimentos involuntários. É, portanto, aquele que criou teu corpo de terra que o faz mover-se. E as ideias que tens na alma? Por acaso serias tu o seu formador? Menos ainda, pois surgem mesmo contra tua vontade. É, portanto, o criador de tua alma que te dá ideias. No entanto, como deixou a liberdade para teu coração, dá a teu espírito as ideias que teu coração merece. Vives em Deus, ages e pensas em Deus. Tens apenas que abrir os olhos para a luz que ilumina todos os homens. Então, verás a verdade e farás com que seja vista”.

“Ei! Aí está o mais genuíno Padre Malebranche” – gritei.

“Conheço teu Malebranche” – disse-me. -“Era um tanto quaker, mas não o suficiente”.

Essas foram as coisas mais importantes que aprendi no tocante à doutrina dos quakers. Na primeira carta lereis sua história, que achareis ainda mais extraordinária do que sua doutrina.

TERCEIRA CARTA SOBRE OS QUAKERS

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George Fox

Já percebestes que os quakers existem desde Jesus Cristo, primeiro quaker, segundo eles. Logo após sua morte, a religião teria sido corrompida, assim permanecendo durante quase dezesseis séculos. No entanto, houve sempre alguns quakers escondidos pelo mundo, cuidando da conservação do fogo sagrado, extinto em todos os outros lugares, até que, finalmente, sua luz propagou-se pela Inglaterra no ano de 1642.

Nessa época, três ou quatro seitas dilaceravam a Grã-Bretanha com guerras civis, empreendidas em nome de Deus. Foi então que um tal de George Fox, do condado de Leicester, filho de um operário da seda, resolveu pregar como um verdadeiro apóstolo, isto é, sem saber ler nem escrever. Era um jovem de vinte e cinco anos e santa mente louco. Vestia-se de couro da cabeça aos pés, indo de aldeia em aldeia a clamar contra a guerra e contra o clero. Se tivesse pregado apenas contra os guerreiros, nada teria a temer, mas atacava a gente da Igreja: foi logo jogado na prisão. Levaram-no diante do juiz de paz, em Derby. Fox apresentou-se ao juiz mantendo seu gorro de couro sobre a cabeça. Um sargento deu-lhe uma grande bofetada, dizendo: “Patife, não sabes que é preciso descobrir-se diante do senhor juiz?” Fox apresentou a outra face e pediu ao sargento que lhe desse mais uma bofetada, pelo amor de Deus. O juiz de Derby quis que prestasse juramento antes de ser interrogado. “Sabe, meu amigo”; disse ao juiz, “que nunca tomo em vão o nome de Deus”.

O juiz, vendo que o homem o tuteava, enviou-o às Pequenas-Casas de Derby para ser chicoteado. Louvando a Deus, George Fox foi ao Hospital dos Loucos, onde a sentença do juiz foi rigorosamente executada. Aqueles que lhe infligiram a penitência do chicote surpreenderam-se ao vê-lo pedir que lhe dessem ainda mais algumas chicotadas, para o bem de sua alma. Os bons senhores não se fizeram de rogados: Fox teve dose dupla, agradecendo-lhes cordialmente. Pôs-se a pregar. Começaram rindo e acabaram escutando. E como o entusiasmo é uma doença contagiosa, muitos foram persuadidos e os carrascos tornaram-se discípulos.

Liberto da prisão, correu os campos com uma dúzia de prosélitos, pregando sempre contra o clero, chicoteado de tempos em tempos. Um dia, estando no pelourinho, arengou ao povo com tamanha força que converteu uns cinquenta ouvintes e pôs o restante a seu favor, sendo arrancado com tumulto do buraco onde se encontrava. Procurou-se o cura anglicano que condenara Fox ao suplício, e foi supliciado em seu lugar.

Ousou converter alguns soldados de Cromwell: abandonaram o oficio das armas e recusaram-se a prestar juramento. Cromwell não queria saber de seita que não combatesse, como Sisto V agourava uma seita “dove non si chiavava”, serviu-se de seu poder para perseguir os recém-chegados, lotando as prisões com eles. Mas as perseguições só servem para fazer prosélitos: saíam das prisões fortalecidos em sua crença e seguidos pelos carcereiros que haviam convertido. Eis, porém, o que mais contribuiu para ampliar a seita: Fox acreditava-se inspirado. Consequentemente, achou que deveria falar de um modo diferente do dos outros homens. Pôs-se a tremer, a contorcer-se, a caretear, a reter o fôlego e soltá-lo com violência – nem a pitonisa de Delfos faria melhor. Em pouco tempo habituou-se muito à inspiração e logo já não sabia mais falar de outra maneira. Foi o primeiro dom que comunicou a seus discípulos. De boa fé imitaram as caretas do mestre: tremiam com todas. as suas forças no momento da inspiração. Daí o nome quakers: tremedores (Porque um dos membros da seita, quando visitado pelo Espírito Santo, era sacudido pelos tremores da inspiração. Tomava, então, a palavra e seus irmãos o ouviam num silêncio cheio de recolhimento. Nota do Autor). O povinho divertia-se a arremedá-los, Tremia-se, falava-se pelo nariz, tinha-se convulsão, acreditava-se ter o Espírito Santo. Careciam de alguns milagres – e os fizeram.

O Patriarca Fox disse publicamente a um juiz de paz, na presença de uma grande assembleia: “Amigo, cuida-te. Deus logo te punirá por perseguires santos”. O juiz era um bêbado que tomava diariamente má cerveja e aguardente. Morreu de apoplexia dois dias depois, justamente ao acabar de assinar uma ordem de prisão contra alguns quakers. A morte súbita não foi atribuída à intemperança do juiz: foi encarada por todo mundo como um efeito das predições do santo homem.

Essa morte fez mais quakers do que mil sermões e convulsões poderiam fazer. Cromwell, vendo-os crescer em número diariamente, quis atraí-los ao seu partido. Ofereceu-lhes dinheiro, más foram incorruptíveis, e admitiu, um dia, que essa religião fora a única contra a qual seus guinéus não prevaleceram.

Sob o reinado de Carlos II foram perseguidos algumas vezes, mas não por motivos religiosos, e sim porque se recusavam a pagar o dízimo ao clero e a prestar os juramentos prescritos pela lei, e porque tuteavam os magistrados.

Enfim, Robert Barclay, escocês, em 1675 apresentou ao rei sua Apologia dos Quakers, obra tão boa quanto poderia ser. A epístola dedicatória a Carlos II não contém baixas adulações, mas verdades ousadas e conselhos justos.

“Fruíste”, diz a Carlos II no final da epístola, “a doçura e a amargura da prosperidade e das grandes infelicidades; foste expulso dos países onde reinas, sentiste o peso da opressão e deves saber quão detestável é o opressor diante de Deus e diante dos homens. Se, depois de tantas provações e bênçãos, teu coração se endurecesse e esquecesse o Deus que se lembrou de ti em tuas desgraças, teu crime, seria maior e tua condenação mais terrível. Em vez de escutares os aduladores de tua corte, escuta a voz de tua consciência, que nunca te adulará. Sou teu amigo fiel e teu súdito, Barclay”.

O mais surpreendente é que essa carta, escrita a um rei por um particular obscuro, teve seus efeitos e a perseguição cessou.

QUARTA CARTA  SOBRE OS QUAKERS

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Penn e Tamanend celebram o tratado de paz em 1683. Benjamin West, 1771

Por essa ocasião surgiu o ilustre Guilherme Penn, que estabeleceu a potência dos quakers na América e que poderia tê-los tornado respeitáveis na Europa, se os homens pudessem respeitar a virtude sob aparências ridículas. Era filho único do Cavalheiro Penn, vice-almirante da Inglaterra, favorito do duque de York desde Jaime II.

Guilherme Penn, aos quinze anos, encontrou um quaker em Oxford, onde estudava. O quaker persuadiu-o e o jovem, vivo, naturalmente eloquente, fisionomia e maneiras nobres, logo ganhou alguns companheiros. Insensivelmente estabeleceu uma Sociedade dos Jovens Quakers, que se reuniam em sua casa, tornando-se chefe de seita aos dezesseis anos.

Saindo do colégio e regressando à casa do vice-almirante, seu pai, em vez de ajoelhar-se diante dele para pedir-lhe a bênção, segundo o costume inglês, abordou-o de chapéu na cabeça, dizendo-lhe: “Fico muito contente, amigo, por ver-te de boa saúde”. O vice-almirante julgou que o filho tivesse enlouquecido, mas logo percebeu que se tornara quaker. Usando todos os recursos fornecidos pela prudência, procurou convencê-lo a viver como os outros. O rapaz respondia exortando o pai a tornar-se quaker também.

Por fim o pai afrouxou, pedindo-lhe apenas que fosse ver o rei e o duque de York de chapéu na mão e sem tuteá-los. Guilherme respondeu que sua consciência não lho permitia, e o pai, indignado e desesperado, expulsou-o de casa. O jovem Penn agradeceu a Deus porque já sofria por Sua causa. Foi pregar na cidade e fez muitos prosélitos.

As prédicas dos ministros esclareciam todos os dias seus ouvintes, e como Penn era jovem, belo e bem feito, as mulheres da corte e da cidade acorriam devotamente para ouvi-lo. O patriarca George Fox veio dos confins da Inglaterra para vê-lo em Londres, tal era sua reputação. Ambos resolveram realizar missões nos países estrangeiros. Embarcaram para a Holanda, depois de deixarem um bom número de obreiros para cuidar da vinha londrina. Seus trabalhos obtiveram êxito feliz em Amsterdam, mas sua maior honra e o maior perigo para sua humildade foi a recepção que lhes fez a princesa palatina Elisabeth, tia de Jorge I, rei da Inglaterra, mulher ilustre por seu espírito e por seu saber, a quem Descartes dedicara seu Romance de Filosofia.

Vivia retirada em Haia, onde viu seus “amigos”, pois na Holanda os quakers passaram a ser chamados assim. Conferenciou com eles várias vezes; frequentemente pregaram em casa dela e se não a tornaram uma perfeita quaker, pelo menos admitiram que não estava longe do reino dos céus.

Os amigos também semearam na Alemanha, mas colheram pouco. Não se pode apreciar muito a moda do tuteamento num país onde a boca sempre está cheia dos termos Alteza e Excelência. A notícia da doença do pai levou Penn a regressar logo à Inglaterra, para vê-lo morrer. O vice-almirante reconciliou-se com o filho, apesar da diferença religiosa. Em vão Guilherme exortou-o a não receber o sacramento e a morrer como quaker. Inutilmente o ingênuo velhinho recomendou a Guilherme que pusesse botões nas mangas e alamares no chapéu.

Guilherme herdou muitos bens, entre os quais dividas da Coroa por adiantados que o vice-almirante fizera para expedições marítimas. Nessa época nada era menos seguro do que dinheiro devido pelo rei. Penn foi obrigado mais de uma vez a ir tutear Carlos II e seus ministros para obter o pagamento. Em 1680, o governo deu-lhe em lugar do dinheiro a propriedade e a soberania de uma província da América, ao sul de Maryland. Eis um quaker transformado em soberano. Partiu para seus novos estados com dois navios, carregados de quakers que o seguiram. Chamou-se o país de Pennsylvania, por causa do nome de Penn. Fundou aí a cidade de Philadelphia, hoje muito florescente. Começou fazendo uma liga com os americanos, seus vizinhos. Foi este o único tratado entre americanos e cristãos que não foi jurado nem rompido. O novo soberano foi também o legislador da Pensilvânia. Fez leis sábias, nunca mudadas depois dele. A primeira é a de não maltratar alguém por questão de religião e encarar como irmãos todos os que acreditarem em Deus.

Mal o governo se estabeleceu, alguns comerciantes da América vieram instalar-se na colônia. Os nativos, em vez de fugirem para as florestas, acostumaram-se insensivelmente com os pacíficos quakers. O ódio que votavam aos outros cristãos, conquistadores e destruidores da América, era proporcional ao amor que tinham pelos recém-vindos. Em pouco tempo, um grande número desses pretensos selvagens, encantados com a doçura de seus vizinhos, vieram em massa pedir a Guilherme Penn que os recebesse entre seus vassalos. Era um espetáculo bastante novo ver um soberano tuteado por todo mundo, a quem se falava de chapéu na cabeça, um governo sem padres, um povo sem armas, cidadãos iguais e vizinhos sem ciúme.

Guilherme Penn poderia vangloriar-se de ter trazido à terra a tão falada idade de ouro, que parece ter existido apenas na Pensilvânia. Os negócios de seu novo país levaram-no de volta à Inglaterra, após a morte de Carlos II. O Rei Jaime, que amara o pai, teve a mesma afeição pelo filho, não o considerando mais como a um sectário obscuro, mas como a um grande homem. A política do rei era conforme ao seu gosto: queria adular os quakers abolindo as leis feitas contra os não conformistas, para poder introduzir a religião católica a favor dessa liberdade. Todas as seitas inglesas perceberam a armadilha e não caíram nela. Reuniram-se contra o catolicismo, seu inimigo comum. Mas Penn não acreditou que devesse renunciar aos seus princípios para favorecer os protestantes que o odiavam, contra um rei que o amava. Havia estabelecido a liberdade de consciência na América; não desejava destruí-la na Europa. Permaneceu, pois, fiel a Jaime II, a ponto de ser acusado de jesuíta. A calúnia afligiu-o sensivelmente. Foi obrigado a justificar-se com escritos públicos. Entretanto, o infeliz Jaime II, misto de grandeza e de fraqueza, como todos os Stuarts, fez pouco e fez muito, como todos eles, e acabou perdendo o reino sem que soubesse como.

Todas as seitas inglesas receberam de Guilherme III e de seu parlamento aquela liberdade que haviam recusado das mãos de Jaime II. Foi então que os quakers começaram a gozar, pela força das leis, todos os privilégios que possuem hoje. Penn, depois de ter visto sua seita estabelecida sem contradição em seu país de origem, regressou à Pensilvânia. Os seus e os americanos o receberam com lágrimas de alegria, como a um pai que voltasse para ver seus filhos. Todas as suas leis haviam sido observadas religiosamente durante sua ausência, coisa jamais sucedida a um legislador antes dele. Permaneceu alguns anos em Filadélfia e partiu, enfim, malgrado seu, para solicitar em Londres novas vantagens em favor do comércio da Pensilvânia. Desde então viveu em Londres até a extrema velhice, considerado como chefe de um povo e de uma religião. Morreu em 1718.

A propriedade e o governo da Pensilvânia continuaram para seus descendentes, que os venderam ao rei pela quantia de doze mil peças de ouro. Os negócios do rei só lhe permitiram pagar mil. O leitor francês julgará que foram pagos com promessas pelo ministério, que se apoderou do governo. De jeito nenhum. Como a Coroa não pôde saldar sua dívida no tempo previsto, o contrato foi declarado nulo e a família Penn recuperou todos os seus direitos.

Não posso adivinhar qual a sorte da religião dos quakers na América, mas vejo que perece dia a dia em Londres. Por todo o país, a religião dominante, se não persegue, engole todas as outras em longo prazo. Os quakers não podem ser membros do Parlamento nem ocupar um posto público porque precisariam prestar juramento e não querem jurar. Estão reduzidos à necessidade de ganhar dinheiro pelo comercio. Seus filhos, enriquecidos pela engenhosidade de seus pais, querem gozar, querem ter honras, botões e punhos. Envergonham-se de serem chamados quakers e fazem-se protestantes para andar na moda.


O notório filósofo francês Voltarie (1694-1778), ardente defensor da liberdade de pensamento e de expressão, publicou em 1734 essa coleção de ensaios epistolares, Lettres philosophiques (em inglês Letters Concerning the English Nation e em português Cartas Filosóficas) como meio de demonstrar aos franceses que uma sociedade plural e tolerante era possível. Em 1726 refugiou-se na Inglaterra, quando nasceu sua admiração pela tolerância e liberdade vigentes nesse país.  Nessa ocasião, entabulou contatos com diversos grupos religiosos, científicos e sociais ingleses.

Nesses quatros ensaios iniciais de sua coletânea, Voltaire parece querer chocar os franceses, acostumados com o ritualismo da corte e das cerimônias católicas: os quakers não têm clero, trata-se por “tu”, aderem a um estilo de vida simples, não fazem distinção de status pessoal, não realizam sacramentos e respeitam a crença alheia.

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