O filósofo olhou para o relógio. Estava atrasado para a cerimônia de posse, aquela em que se filiaria ao Partido. Décadas mais tarde, alegaria ter interpretado mal o relógio — ter lido mal a hora, ter avaliado mal o momento. Mas o relógio estava funcionando. Foi o filósofo que o parou.
A pergunta que move Ser e Tempo não é técnica, nem histórica, nem psicológica. É quase ingênua: o que significa ser? Heidegger insiste que essa é a questão esquecida da filosofia ocidental. Desde Platão, aprendemos a falar com precisão sobre entes — coisas, ideias, substâncias, sujeitos — mas deixamos de interrogar aquilo que torna possível que algo seja. O ser tornou-se evidente demais para continuar visível. A filosofia passou a operá-lo em silêncio.
Para recolocar essa pergunta, Heidegger não começa com abstrações, mas com uma escolha metodológica decisiva: investigar o único ente para quem o próprio ser é um problema. O humano não é apenas algo que é, mas algo para quem estar-aí importa. Somos capazes de perguntar pelo sentido do ser porque, antes de qualquer teoria, já estamos implicados nele. Esse ente recebe o nome de Dasein.
A filosofia, desde os gregos, tomaram como dado o “ser”. Seria uma coisa, essencial, atemporal, eterna e imutável. Dasein significa literalmente “ser-aí”, mas a tradução não deve enganar. Não se trata de localização espacial, como um objeto que ocupa um ponto no mundo. O termo aponta para uma condição existencial: o humano é um modo de ser que se dá sempre em situação, exposto, aberto, lançado num campo de significados que não criou do zero. O Dasein não observa a própria existência à distância. Ele a vive, preocupa-se com ela, arrisca-a. Seu ser está sempre em jogo.
Essa estrutura aparece de forma mais clara na noção central de ser-no-mundo. Heidegger rejeita a imagem clássica de um sujeito fechado em si que depois estabelece relações com um mundo externo. Não há, primeiro, uma mente; depois, objetos. Há, desde sempre, uma unidade originária: existir já é estar envolvido num mundo. O hífen em ser-no-mundo não é um recurso estilístico, mas filosófico. Ele marca um fenômeno indivisível.
O mundo, aqui, não é um conjunto neutro de coisas. É uma totalidade de significados práticos. Vivemos num ambiente estruturado por finalidades, usos, expectativas. Um martelo não é, primariamente, um corpo físico com determinadas propriedades. Ele é aquilo com que se martela, em referência a pregos, madeira, construção, abrigo. Seu “ser” se revela no uso. Heidegger chama esse modo de aparecimento de à-mão (Zuhandenheit).
Esse é o modo cotidiano e dominante de nossa relação com os entes. As coisas funcionam de forma transparente, quase invisível. Só percebemos o martelo como objeto quando ele quebra. Só notamos a caneta quando a tinta acaba. A análise teórica — aquilo que Heidegger chama de presente-à-mão (Vorhandenheit) — surge como um modo derivado, não originário. A ciência e a metafísica clássica tomaram esse modo secundário como fundamental, invertendo a ordem da experiência.
Mas o Dasein não se define apenas por sua relação com coisas. Ele também é, essencialmente, um quem. E esse “quem” raramente é um indivíduo singular no sentido forte. No cotidiano, existimos diluídos no impessoal: das Man, o “se”, o “todo mundo”. Vive-se como se vive, pensa-se como se pensa, deseja-se o que se deve desejar. O “eles” decide antes de nós. Essa forma de existência é confortável, funcional e socialmente eficaz — mas tem um custo: a perda de si.
Heidegger não trata isso como um desvio moral, mas como uma estrutura constitutiva. O Dasein tende a cair no mundo, a perder-se na rotina, no falatório, na distração. A autenticidade não é um estado permanente nem uma virtude psicológica. É uma modificação dessa condição. Ser autêntico é reassumir a própria existência como própria, arrancando-a do anonimato do “se”.
O raciocínio de Heidegger fundamenta-se na distinção entre “ser e “ente”. O “ente” é tudo aquilo que existe de modo concreto, inclusive o ser humano enquanto presença no mundo, enquanto “algo que é”. Já o “ser” diz respeito ao sentido ou fundamento dessa existência, isto é, ao modo como os entes existem e se tornam compreensíveis. Como o ser nunca aparece isoladamente, mas sempre por meio dos entes, Heidegger sustenta que só é possível investigar o ser a partir da análise do ente que pode questionar a própria existência: o ser humano.
O conceito que unifica essas dimensões é cuidado (Sorge). O ser do Dasein é cuidado porque ele é, ao mesmo tempo, lançado num mundo que não escolheu, projetado em possibilidades futuras e absorvido nas ocupações do presente. Heidegger descreve essa estrutura como “ser-adiante-de-si, já-sempre-em-um-mundo, junto-a-entes”. Não se trata de três momentos cronológicos, mas de uma unidade dinâmica.
Essa unidade só se torna inteligível a partir do tempo. Não o tempo do relógio, feito de instantes sucessivos, mas a temporalidade existencial. O Dasein é futuro porque vive projetando possibilidades; é passado porque já se encontra lançado numa situação; é presente porque se ocupa com o que está à mão. Esses três êxtases não se somam: eles se interpenetram.
Nesse horizonte aparece a experiência decisiva do ser-para-a-morte. A morte, para Heidegger, não é um evento biológico a ser descrito, mas a possibilidade mais própria do Dasein. Ela é certa, intransferível e indeterminada quanto ao quando. Antecipá-la não é cultivar morbidez, mas romper com as ilusões do “eles”. A morte individualiza porque ninguém pode morrer em nosso lugar. Ao confrontá-la, o Dasein percebe que sua vida não é um rascunho infinito, mas um campo finito de possibilidades que exigem decisão.
As implicações dessa análise são amplas. Heidegger desmonta o dualismo sujeito-objeto, recoloca o sentido como algo prático antes de teórico e mostra que toda compreensão é situada. Não começamos do zero; interpretamos a partir de um mundo já interpretado. A filosofia, nesse quadro, não oferece normas morais nem sistemas fechados. Ela reabre a pergunta pelo ser e, com isso, devolve ao humano a tarefa incômoda de assumir a própria existência.
Pensar o Dasein não é aprender um novo conceito. É ser confrontado com uma descrição desconfortavelmente fiel daquilo que já somos — antes de qualquer teoria, antes de qualquer escolha consciente.
Um pensador controverso

Martin Heidegger (1889–1976) ocupa uma posição incômoda na história da filosofia porque seu pensamento resiste a separações simples entre obra e vida. Sua formação inicial em teologia, o aprendizado da fenomenologia com Edmund Husserl e o engajamento com a filosofia pré-socrática e com o idealismo alemão direcionou seu projeto intelectual que desloca o eixo da tradição.
Esse gesto teórico, no entanto, não pode ser dissociado de sua trajetória política. Ao assumir o reitorado da Universidade de Freiburg em 1933 e filiar-se ao Partido Nacional-Socialista, Heidegger inscreve sua biografia numa zona de tensão que continua a marcar a recepção de sua obra. A controvérsia não é um apêndice externo, mas um problema interpretativo permanente: a radicalidade ontológica de seu projeto contradiziam seus atos.
A influência de Heidegger se dá menos por adesão do que por confronto crítico. Hannah Arendt, sua aluna e depois uma de suas mais severas críticas, reelabora categorias centrais como mundo e existência, deslocando-as para uma reflexão sobre natalidade, pluralidade e responsabilidade política. Hans-Georg Gadamer, também seu discípulo, transforma a hermenêutica da facticidade em uma hermenêutica filosófica universal, centrada no diálogo, na linguagem e na historicidade da compreensão. Na França, Jean-Paul Sartre reinterpretou o Dasein em chave existencialista; Maurice Merleau-Ponty incorporou suas análises à fenomenologia do corpo e da percepção; e Jacques Derrida levou a crítica heideggeriana da metafísica a um novo patamar, interrogando a linguagem, a presença e a escrita.
No mundo anglófono, a recepção inicial foi marcada por resistência e desconfiança, mas acabou dando lugar a um engajamento crítico duradouro, sobretudo em torno de suas reflexões sobre técnica, modernidade e o esgotamento da metafísica. O legado de Martin Heidegger, portanto, não é unitário nem reconciliado. Ele permanece como uma dupla herança: de um lado, a abertura de caminhos filosóficos fundamentais; de outro, a exigência desconfortável de confrontar a distância — e por vezes o abismo — entre profundidade intelectual e responsabilidade ética.
A recepção de Martin Heidegger no Brasil iniciou-se nas décadas de 1940-1950 através de quatro vertentes principais — a reinterpretação da filosofia grega liderada por Eudoro de Sousa, a abordagem ontológica de Vicente Ferreira da Silva, a vertente hermenêutica de Emmanuel Carneiro Leão e a ontologia da finitude de Gerd Bornheim e Ernildo Stein —, com Vicente Ferreira da Silva destacando-se como figura central ao introduzir conceitos como Dasein e ek-sistência e fundar o Colégio Livre de Estudos Superiores e a revista Diálogo, irradiando a influência heideggeriana para intelectuais como Oswald de Andrade e João Guimarães Rosa; apesar da precocidade desses contatos, a consolidação institucional só ocorreu em 2012 com a primeira edição bilíngue de Ser e Tempo traduzida por Fausto Castilho, após mais de sessenta anos de espera pelos direitos autorais, enquanto o pensamento heideggeriano brasileiro produziu desdobramentos em áreas como filosofia política (José Arthur Giannotti), ética ambiental (Marcelo Luiz Pelizzoli) e cuidados paliativos, sempre convivendo com a tensão entre a relevância filosófica da obra e o envolvimento de seu autor com o nazismo.
| Conceito | Tradução | Explicação |
| Seinsfrage | A questão do Ser | O questionamento sobre o sentido do “ser” e o esquecimento dessa pergunta pela filosofia ocidental. |
| Dasein | Ser-aí | O ente que somos nós mesmos; a existência definida pela exposição ao mundo e à situação. |
| In-der-Welt-sein | Ser-no-mundo | A superação do dualismo sujeito-objeto; existimos sempre já engajados em um contexto. |
| Zuhandenheit / Vorhandenheit | Manualidade / Subsistência | O modo de ser dos objetos: como ferramentas úteis (martelo) vs. objetos isolados para observação. |
| Das Man | O “A gente” / O Impessoal | A tendência de se perder no cotidiano, agindo e pensando como “todo mundo” age. |
| Eigentlichkeit | Propriedade (Autenticidade) | O ato de assumir a própria existência, arrancando-a do anonimato do “impessoal”. |
| Sorge | Cuidado (Cura) | A estrutura triádica: o fato de estarmos lançados no mundo, projetando possibilidades e ocupados com entes. |
| Zeitlichkeit | Temporalidade | A unidade do tempo existencial (passado, presente e futuro) que difere do tempo linear dos relógios. |
| Sein-zum-Tode | Ser-para-a-morte | A consciência da finitude como a possibilidade mais própria que individualiza o Dasein. |
SAIBA MAIS
CASANOVA, Marco Antônio. Compreender Heidegger. Petrópolis: Vozes, 2009.
DREYFUS, Hubert L. Being-in-the-world: a commentary on Heidegger’s Being and Time, division I. Massachusetts: MIT Press, 1991.
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GIACÓIA, Osvaldo. Heidegger urgente: introdução a um novo pensar. São Paulo: Três Estrelas, 2013.
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Atualizado em 10 de fevereiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Heidegger: Dasein. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/02/10/heidegger-dasein/. Acesso em: 10 fev. 2026.

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