Wiener, Norbert. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. São Paulo: Cultrix, 1970.
Se houve um momento em que as fronteiras entre o vivo e o artificial começaram a borrar de forma sistemática, ele atende pelo nome de Norbert Wiener. Matemático prodigioso, formado no ambiente fértil de Harvard e do MIT, Wiener tornou-se o principal arquiteto de um novo campo que, a partir de 1948, prometia nada menos que uma linguagem comum para descrever cérebros, máquinas, organismos e sociedades. Ele chamou esse campo de cibernética — “a ciência do controle e da comunicação no animal e na máquina”.

A palavra vinha do grego kybernētēs, o timoneiro, aquele que governa um navio mantendo o rumo em meio às correntes. A metáfora náutica não era acidental: para Wiener, sistemas vivos e artificiais tinham em comum a capacidade de manter um curso, corrigindo desvios em relação a um objetivo. A cibernética nasceu, em parte, de problemas extremamente concretos. Durante a Segunda Guerra Mundial, Wiener trabalhou em dispositivos de mira automática para artilharia antiaérea: máquinas que precisavam “prever” a trajetória de aviões inimigos e ajustar continuamente sua pontaria. Ali, ao lado de colaboradores como o neurofisiologista Arturo Rosenblueth e o engenheiro Julian Bigelow, ele percebeu que os mesmos princípios que regiam esses mecanismos também pareciam operar no sistema nervoso.
O conceito central que emergiu foi o de feedback. Um sistema dotado de feedback usa os resultados de suas próprias ações como informação para ajustar seu comportamento futuro. No feedback negativo, o desvio em relação a uma meta é reduzido: o termostato liga o aquecedor quando a temperatura cai e o desliga quando sobe demais; o corpo humano sua para resfriar-se e treme para se aquecer. No feedback positivo, ao contrário, o desvio se amplifica: o chiado crescente de um microfone próximo ao alto-falante ou o crescimento exponencial de uma reação em cadeia. Para Wiener, era o feedback negativo que tornava possível falar, de forma rigorosa, em comportamento orientado a fins. A velha noção filosófica de teleologia — propósito — retornava, não como mistério metafísico, mas como descrição operacional de sistemas que se regulam em direção a um estado-alvo.
Outro traço distintivo da cibernética era sua ênfase na informação. Wiener via informação como uma grandeza fundamental, tão crucial quanto matéria e energia, mas de natureza distinta. Em diálogo — e por vezes em tensão — com a teoria matemática da informação de Claude Shannon, ele insistia que o essencial não era apenas a transmissão eficiente de sinais, mas sua função dentro de um sistema de controle. Informação era aquilo que permitia reduzir incerteza relevante para a ação. Nesse sentido, comunicar e controlar eram dois lados da mesma moeda.
Metodologicamente, a cibernética favorecia a abordagem da “caixa-preta”. Em vez de exigir conhecimento detalhado da estrutura interna de um sistema, o pesquisador podia concentrar-se nas relações entre entradas, saídas e comportamento observável. Essa postura funcional abria caminho para analogias ousadas: o cérebro podia ser tratado como uma rede de processamento de sinais; máquinas podiam ser concebidas não mais como engrenagens rígidas, mas como sistemas adaptativos capazes de aprender com seus próprios erros. Não por acaso, Wiener e seus contemporâneos já especulavam sobre próteses inteligentes e dispositivos que substituíssem sentidos perdidos por meio de circuitos de realimentação.
A ambição teórica da cibernética também tocava a física. Wiener via os processos de controle e comunicação como formas locais de resistência à entropia. Se a segunda lei da termodinâmica descreve a tendência geral ao aumento da desordem, sistemas vivos e máquinas cibernéticas pareciam criar “ilhas de ordem” ao importar energia e, sobretudo, informação do ambiente. Manter a organização era, nesse quadro, uma luta contínua contra a degradação — luta travada por meio de circuitos informacionais.
Essa visão tinha implicações que iam muito além da engenharia. A cibernética rapidamente se tornou um idioma comum em campos tão diversos quanto biologia (homeostase, ecologia), psicologia e ciência cognitiva (mente como sistema de processamento de informação), ciências sociais (teoria de sistemas, modelos organizacionais) e, claro, ciência da computação e robótica. Nas famosas Conferências Macy, realizadas entre 1946 e 1953, antropólogos, psiquiatras, matemáticos e engenheiros sentaram-se à mesma mesa para discutir comunicação, mente e sociedade sob a nova lente cibernética.
Nelas, Warren McCulloch (neurocibernética) e W. Ross Ashby (variety/requisite variety) propuseram suas ideias. Deixou tais conferências pelos desentendimentos crescentes com Warren McCulloch e da resistência de Wiener às direções mais especulativas e filosóficas que o grupo tomava. Enquanto Shannon desenvolvia uma teoria matemática da transmissão (canal, ruído, capacidade), Wiener se interessava pela função semântica da informação no controle — divergência que antecipou o cisma posterior entre IA simbólica (shannoniana) e abordagens conexionistas/ecológicas (mais wienerianas)
Mas Wiener não era um tecnófilo ingênuo. Em seus livros posteriores, especialmente The Human Use of Human Beings (1950), ele soou o alarme sobre o impacto social da automação e dos sistemas informacionais. Preocupava-o a possibilidade de que máquinas de controle fossem usadas não para libertar, mas para submeter. A questão não era apenas o que as máquinas podiam fazer, mas quem as controlava e com quais fins. Ele antecipou debates atuais sobre desemprego tecnológico, vigilância e desumanização, insistindo que a cibernética deveria servir a um projeto ético: garantir um uso genuinamente humano dos sistemas que criamos.
Com o tempo, a cibernética original se fragmentou e deu origem a novas vertentes. A chamada cibernética de segunda ordem, associada a Heinz von Foerster, passou a incluir o próprio observador dentro do sistema observado, enfatizando reflexividade e construção do conhecimento. Paralelamente, a teoria geral dos sistemas, a biónica, a biocibernética e diversas correntes das ciências cognitivas herdaram e transformaram seus conceitos. Enquanto isso, a inteligência artificial clássica seguiu por outro caminho, privilegiando manipulação simbólica e raciocínio abstrato, em contraste com o foco cibernético em feedback, corpo e adaptação — um contraste que hoje reaparece nos debates entre IA simbólica e abordagens conexionistas e incorporadas.
Ainda assim, o mundo contemporâneo é profundamente cibernético. Redes digitais globais, sistemas autônomos, interfaces humano-computador e modelos de sistemas complexos todos operam, de um modo ou de outro, com as ideias de informação, controle e realimentação que Wiener ajudou a consolidar. A cibernética não foi apenas uma teoria sobre máquinas; foi uma nova forma de imaginar vida, mente e sociedade como processos informacionais interligados. E, nesse imaginário, permanece a pergunta ética que Wiener nunca abandonou: que tipo de timoneiros queremos ser, agora que construímos máquinas capazes de também segurar o leme?
Norbert Wiener (1894–1964) foi um matemático e filósofo norte-americano amplamente reconhecido como fundador da cibernética, o estudo interdisciplinar do controle e da comunicação em animais e máquinas.
Celebrado como uma criança prodígio que ingressou no Tufts College aos 11 anos e doutorou-se em Harvard aos 17, Wiener passou a maior parte de sua carreira no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Durante a Segunda Guerra Mundial, seu trabalho em sistemas de controle de fogo antiaéreo levou-o a formalizar a teoria matemática da retroalimentação (feedback) e da transmissão de informação — ideias que articulou em sua obra seminal de 1948 Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine (Cibernética: Ou Controle e Comunicação no Animal e na Máquina).
Além da cibernética, Wiener fez contribuições fundamentais aos processos estocásticos (o processo de Wiener/movimento browniano), à análise harmônica e aos primórdios da inteligência artificial. Era também um humanista que se preocupava profundamente com as consequências sociais da automação e com as responsabilidades éticas dos cientistas, temas que explorou em obras como The Human Use of Human Beings (O Uso Humano dos Seres Humanos), de 1950.
Atualizado em 29 de janeiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Wiener: cibernética. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/01/29/wiener-cibernetica/. Acesso em: 29 jan. 2026.

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