Existe uma certa perversidade intelectual — e uso o termo com toda a admiração que lhe é devida — em um poeta romano do primeiro século da era cristã decidir aplicar o aparato solene da poesia didática, aquele gênero grave e augusto que Lucrécio utilizara para descrever a natureza do universo, ao problema rigorosamente prático de como seduzir uma mulher nos pórticos do teatro de Pompeu. É precisamente essa perversidade que faz da Ars Amatoria de Ovídio não apenas um monumento da literatura latina, mas um texto que nos interpela com desconcertante modernidade — ou, para sermos mais precisos, um texto que demonstra como a modernidade não é propriedade exclusiva de nenhuma época.
Escrita por volta do ano 2 d.C., a obra divide-se em três livros que funcionam como um tríptico completo sobre a fenomenologia amorosa. Os dois primeiros endereçam-se aos homens; o terceiro, escrito dois anos depois como uma espécie de corrigendum de gênero, equipa as mulheres com arsenais simétricos aos já distribuídos aos seus adversários. O resultado é uma enciclopédia da sedução que, ao pretender ensinar tudo, revela na verdade algo muito mais profundo: que o amor, como o saber, é sempre uma questão de poder, estratégia e interpretação de sinais.
A topografia dodesejo
O primeiro livro abre com uma cartografia de Roma que é simultaneamente guia turístico e manual de caça. Ovídio percorre a cidade com o olhar meticuloso. Identifica em cada espaço público — os pórticos, os tribunais, o circo, o teatro — não apenas uma função social, mas um campo de possibilidades eróticas. A cidade torna-se um mapa, e o amante, seu navegador competente.
A comparação que Ovídio faz entre as oportunidades oferecidas pelo circo e o rapto mítico das sabinas não é mera pirotecnia retórica: é uma declaração epistemológica. Ela nos diz que a violência fundadora da tradição se transmuta, na civilização urbana e sofisticada de Augusto, em cortesia calculada, em pequenos gestos — como o de remover o pó imaginário do vestido de uma desconhecida — que reproduzem a estrutura da conquista sob a aparência da gentileza. A civilização, sugere Ovídio com seu sorriso perpétuo, não elimina a predação; ela a requinta.
A figura da ancilla — a criada intermediária, a mensageira de bilhetes amorosos — emerge aqui como um personagem que qualquer teórico da comunicação reconheceria com prazer: ela é o canal, mas também inevitavelmente a interferência, a intérprete que transforma a mensagem ao transmiti-la. Ovídio sabe que toda comunicação amorosa é mediada, e que o que parece uma declaração direta é sempre, na verdade, um palimpsesto de convenções, expectativas e encenações.
A manutenção do amor como arte liberal
O segundo livro é, de certa forma, o mais filosoficamente rico, pois enfrenta o problema que toda conquista deixa em aberto: e agora? A obtenção do objeto desejado revela imediatamente a necessidade de uma nova competência, distinta e mais sutil. Ovídio passa da caça à jardinagem — do impulso predatório à paciência cultivadora.
Os conselhos aqui distribuídos têm uma elegância paradoxal. A tolerância dos defeitos alheios não é apresentada como virtude moral, mas como técnica eficaz. A adulação não é dissimulação desonesta, mas instrumento de harmonia. A ausência calculada — deixá-la sentir falta de você, mas não por tempo demais — revela uma compreensão da psicologia do desejo que Stendhal, séculos depois, não aprofundaria substancialmente em De l’Amour.
O uso dos exempla mitológicos neste livro merece atenção particular. Ovídio não cita os mitos com a reverência do crente, mas com a ironia do filólogo que sabe que toda narrativa é construída e, portanto, pode ser instrumentalizada. Os heróis e deuses tornam-se casos clínicos, estudos de comportamento amoroso bem-sucedido ou catastroficamente fracassado. É uma dessacralização que, paradoxalmente, confere à mitologia uma vitalidade nova: ela deixa de ser origem sagrada e torna-se repertório vivo de modelos disponíveis.
O universo feminino como cosmologia
O terceiro livro é talvez o mais surpreendente, e não apenas pelo gesto aparentemente igualitário de armar as mulheres com os mesmos instrumentos dados aos homens. Sua surpresa maior reside em como Ovídio trata o universo cotidiano do cultus feminino — os penteados, as cores do vestuário, os cosméticos aplicados discretamente antes que o amante chegue — como um microcosmo dotado de dignidade filosófica.
Há algo genuinamente revolucionário nesta operação. Em uma cultura que hierarquizava os temas poéticos do épico ao lírico, do público ao privado, do masculino ao feminino, Ovídio eleva a toalete matinal de uma mulher romana ao nível de uma cosmogonia particular. O quarto onde ela se prepara é descrito com uma seriedade que ressoa com a imago mundi dos filósofos — mas é um mundo de rouge e espelhos, de escolhas táticas entre diferentes arranjos de cabelo segundo o formato do rosto. Esta irreverência não é superficial: ela interroga, com toda a sua leveza, quais saberes uma cultura considera dignos de sistematização e quais condena ao silêncio da evidência banal.
O crime de ter escrito bem
Nenhuma resenha da Ars Amatoria seria honesta se evitasse o desfecho biográfico que conferiu ao texto a aura sombria do livro perigoso. Em 8 d.C., o imperador Augusto exilou Ovídio para Tomos, à beira do Mar Negro, de onde o poeta nunca mais regressaria. As razões oficiais eram obscuras — carmen et error, um poema e um erro —, mas a Ars Amatoria foi explicitamente citada como evidência da depravação do seu autor.
A ironia, que Ovídio certamente teria apreciado, é que o poema subvertia precisamente o programa moral augustano de restauração dos antigos valores romanos: a fidelidade conjugal, a austeridade dos costumes, a subordinação do prazer individual ao bem coletivo. Ao apresentar o amor como jogo inteligente de manipulação mútua, ao tratar o prazer como bem civilizacional legítimo e digno de sistematização, Ovídio não apenas descumpria a agenda imperial — ele a ridicularizava com uma elegância que tornava impossível qualquer resposta puramente administrativa.
O exílio transformou o texto num índice dos limites do poder político face à ironia literária. Augusto podia banir o poeta; não podia desfazer o sorriso do poema.
Coda: a sobrevivência da obra
A Ars Amatoria sobreviveu, como sobrevivem os textos verdadeiramente vivos, por razões que seus contemporâneos não podiam prever. Na Idade Média — época em que se poderia esperar que um manual de sedução romana fosse discretamente esquecido —, ela foi lida com surpreendente seriedade como um tratado sobre a natureza do amor cortês, influenciando Andrés el Capellán e toda a tradição que dele derivou. Os monges copistas que preservaram seus manuscritos provavelmente não imaginariam que estavam transmitindo um texto subversivo; talvez vissem nele apenas a elegância formal dos dísticos elegíacos, o latim modelar, o engenho retórico.
Esta sobrevivência acidental nos ensina algo sobre a natureza dos textos canônicos: eles persistem não porque cada época os lê corretamente, mas porque cada época os lê de modo diferente, encontrando neles respostas para perguntas que o autor original não formulou. A Ars Amatoria é hoje lida como documento histórico, como exercício de ironia literária, como reflexão sobre relações de gênero, como fonte para a história da sexualidade romana — e ainda, ocasionalmente, com a ingênua esperança de que suas prescrições funcionem.
Ovídio, que ensinou que toda promessa amorosa é uma forma de representação teatral, certamente aprovaria esta última leitura. E sorrindo, sem dúvida, acrescentaria que a crença na literalidade dos textos é a forma mais encantadora de ingenuidade.
Publicado com a devida consciência de que recensear um manual de sedução é, em si mesmo, uma forma de sedução: promete-se ao leitor um acesso privilegiado a um segredo que, ao ser revelado, não perde nada de seu encanto.

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