O obra AGrande Transformação: As Origens Políticas e Econômicas do Nosso Tempo, publicada em 1944 pelo historiador econômico e antropólogo social húngaro-austríaco Karl Polanyi, questiona dogmas do capitalismo de mercado. Redigido durante a Segunda Guerra Mundial, o livro faz uma análise histórica e teórica das convulsões sociais e econômicas que definiram o século XIX e a primeira metade do século XX. A obra examina as razões pelas quais uma era de paz relativa (1815-1914), sustentada por um equilíbrio de poder, o padrão-ouro, o mercado autorregulado e o estado liberal, culminou na Primeira Guerra Mundial, na Grande Depressão e na ascensão do fascismo.
Estrutura e argumento central da obra
A estrutura da obra, conforme destacado na introdução de Fred Block e corroborado por análises acadêmicas, organiza-se em três partes interligadas.
A primeira parte, “O Sistema Internacional”, introduz o colapso da civilização do século XIX. Polanyi investiga como a aparente prosperidade desse período deu lugar a conflitos e desordem, questionando a estabilidade de um sistema baseado em instituições liberais.
A segunda parte, “Ascensão e Queda da Economia de Mercado”, constitui o núcleo do livro. Polanyi recua à Revolução Industrial Inglesa, no início do século XIX, para demonstrar como o pensamento liberal de mercado surgiu como resposta às disrupções da industrialização. Ele argumenta que a crença na subordinação da sociedade a mercados autorregulados se tornou um princípio organizador da economia mundial, impulsionado pelo papel dominante da Inglaterra. Subsequentemente, Polanyi introduz sua tese central do “duplo movimento”. Ele sustenta que a tentativa de criar um mercado totalmente autorregulado, especialmente para o que designa como “mercadorias fictícias” – trabalho, terra e dinheiro – provocou um contramovimento da sociedade. Este visava proteger-se das consequências destrutivas de tal mercado. As tensões entre a liberalização do mercado e a autoproteção social minaram as instituições da economia global, conduzindo diretamente ao colapso da paz e da ordem econômica.
Na terceira parte, “A Transformação em Curso”, Polanyi analisa as transformações decorrentes do colapso do sistema do século XIX. Ele examina fenômenos como a ascensão do fascismo, o New Deal nos Estados Unidos e os planos quinquenais na União Soviética, interpretando-os como diferentes respostas à crise do liberalismo de mercado. O autor conclui com reflexões sobre a natureza da liberdade em uma sociedade complexa.
Os conceitos fundamentais de Polanyi
Polanyi se esforça para definir seus conceitos-chave, como “embeddedness” (imersão) e “mercadorias fictícias”, de forma precisa. Embora o texto possa exigir atenção inicial, seu estilo direto e acessível, em contraste com textos econômicos técnicos, facilita a compreensão. Polanyi constrói uma narrativa histórica persuasiva, traçando as origens e consequências da economia de mercado, tornando a obra cativante.
O poder crítico de “A Grande Transformação” reside na desconstrução da ideia de um mercado autorregulado como fenômeno “natural”. Polanyi argumenta que o mercado autorregulado é uma construção histórica e uma “utopia”, e não uma condição natural das sociedades. Ele demonstra que, antes do século XIX, as economias estavam “embutidas” (embedded) em relações sociais, na política, na religião e na cultura. Esse conceito de “embeddedness”, sua contribuição mais reconhecida, sustenta que a atividade econômica era historicamente subordinada às necessidades e valores sociais. O liberalismo econômico do século XIX representou uma tentativa radical de “desencaixar” (disembed) a economia da sociedade, transformando a própria sociedade num “apêndice do mercado”.
Um conceito central é o de “mercadorias fictícias”, referindo-se ao trabalho (atividade humana), à terra (natureza) e ao dinheiro (meio de troca). Polanyi postula que estes não são mercadorias no sentido de terem sido produzidos para venda no mercado. Tratá-los como tal, sujeitando-os à lógica do mercado, acarreta consequências sociais e ambientais: a mercantilização do trabalho destrói os laços sociais e a segurança humana; a da terra ameaça o ambiente e os meios de subsistência tradicionais; e a do dinheiro pode levar à instabilidade financeira.
O “duplo movimento” é a dinâmica central que Polanyi identifica no século XIX e início do século XX. Por um lado, houve a expansão do mercado e da lógica da mercantilização. Por outro, e em resposta, surgiu um contramovimento da sociedade para se proteger dos efeitos desintegradores do mercado, através de medidas como legislação trabalhista, tarifas protecionistas e criação de bancos centrais. Este conflito inerente tornou o sistema de mercado autorregulado insustentável. Embora socialista, Polanyi difere do marxismo ortodoxo ao rejeitar um determinismo econômico estrito, enfatizando o papel das escolhas políticas, das ideologias e das respostas sociais na configuração das transformações históricas, em vez de ver a história impulsionada apenas por forças econômicas.
História da recepção
A recepção de “A Grande Transformação” teve momentos distintos. Lançado em 1944, mesmo ano de “O Caminho da Servidão” de Friedrich Hayek, o livro de Polanyi ofereceu uma perspectiva radicalmente diferente sobre as origens das crises da época e o futuro da sociedade; enquanto Hayek defendia o livre mercado, Polanyi criticava a sua utopia. Embora não tenha tido o impacto político imediato de obras de Keynes ou Hayek, sua influência cresceu nas décadas seguintes, especialmente nas ciências sociais fora da economia mainstream, tornando-se um texto seminal em sociologia econômica, antropologia econômica, ciência política e história.
A influência de Karl Polanyi na antropologia econômica foi significativa, especialmente ao desafiar a universalidade da teoria econômica formal e introduzir a perspectiva substantivista. Polanyi argumentou que, ao contrário das economias de mercado modernas, que se concebem como sistemas autorregulados, as economias pré-capitalistas estavam “embutidas” (o já mencionado embedded) em instituições sociais, culturais e religiosas. Isso significava que a atividade econômica não era separada ou subordinada à lógica do lucro, mas sim moldada por princípios de reciprocidade (trocas baseadas em relações sociais) e redistribuição (movimentos de bens via um centro político ou religioso). Ao fazer essa distinção, Polanyi e seus seguidores, como George Dalton e Marshall Sahlins, refutaram a aplicação de modelos econômicos ocidentais a todas as sociedades, defendendo que o estudo das economias não-ocidentais requer uma compreensão de suas estruturas sociais e morais específicas. Embora o debate “formalista-substantivista” tenha tido seus momentos de crítica, os conceitos de embeddedness, reciprocidade e redistribuição se tornaram ferramentas básicas na antropologia para analisar como as relações sociais e culturais moldam o comportamento econômico em diversos contextos, desde sociedades tribais até aspectos de economias contemporâneas informais ou de bem-estar.
A influência de Polanyi transcendeu a antropologia econômica, alcançando a sociologia histórica e a economia a partir da década de 1980, quando o sociólogo econômico Mark Granovetter revitalizou o conceito de embeddedness (imersão). Granovetter utilizou a ideia de que as ações econômicas estão enraizadas em redes sociais, contrastando com a visão de atores isolados e puramente racionais. Uma terceira onda de interesse em Polanyi, nos anos 1990, conectou suas teorias ao estudo da globalização. Pensadores da análise de sistemas-mundo, como Immanuel Wallerstein, e seus seguidores, tanto empregaram quanto criticaram as concepções de Polanyi para entender as dinâmicas de poder e as estruturas históricas do capitalismo global. Na área da política social, as teorias de Polanyi ganharam destaque como uma alternativa ao marxismo e ao liberalismo tradicionais. Ele inspirou, por exemplo, o estudioso do estado de bem-estar social Gösta Esping-Andersen, que utilizou o conceito de descomodificação para descrever como os serviços de bem-estar social podem libertar os indivíduos da dependência exclusiva do mercado.
A obra ganhou nova relevância com a globalização neoliberal a partir dos anos 1980 e após a crise financeira de 2008. Acadêmicos como Joseph Stiglitz e Thomas Piketty recorrem às ideias de Polanyi para analisar as consequências da liberalização dos mercados, as crises financeiras e a necessidade de re-embutir a economia em estruturas sociais e regulatórias. A obra também gerou debates, com críticos questionando sua interpretação histórica ou a generalidade de certos conceitos. No entanto, sua capacidade de inspirar pesquisas e fornecer um quadro analítico para entender as tensões entre mercado e sociedade permanece.
Quanto ao seu histórico editorial, a primeira edição de “A Grande Transformação” foi publicada nos Estados Unidos por Farrar & Rinehart em 1944, e no Reino Unido por Victor Gollancz Ltd. no mesmo ano. Polanyi escreveu grande parte do livro enquanto estava em Vermont, EUA, com o apoio de uma bolsa Rockefeller. Edições posteriores, notadamente uma importante edição da Beacon Press (a partir de 1957 e reeditada em 2001 com um novo prefácio de Joseph Stiglitz e uma introdução de Fred Block), ajudaram a consolidar seu status de clássico e a apresentá-lo a novas gerações de leitores. O Instituto Karl Polanyi de Economia Política, fundado após o centenário de seu nascimento em 1986 na Universidade Concordia (Montreal, Canadá), continua a propagar suas ideias e a manter seus arquivos.
A visão de Polanyi de uma economia enraizada na sociedade, resistindo à utopia de mercados autorregulados, demonstra uma persistente validade para enfrentar os desafios econômicos, políticos, ambientais e sociais contemporâneos.
SAIBA MAIS
Mendell, Marguerite; Polanyi-Levitt, Kari. “Karl Polanyi: His Life and Times.” Studies in Political Economy, No. 22, 7-39, 1997.
Polanyi, Karl. A Grande Transformação: As Origens Políticas e Econômicas de Nosso Tempo. Campus, 2000 (Originalmente 1944).
Polanyi, Karl. Comércio e Mercado nos Impérios Antigos. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1977 (Originalmente 1957).
Polanyi, Karl. O Sustento do Homem. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1980 (Originalmente 1977).
Block, Fred. “Introduction” to The Great Transformation by Karl Polanyi. Beacon Press, 2001.
Hodgson, Geoffrey M. “Karl Polanyi.” In A Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Philip Arestis and Malcolm Sawyer (Eds.). Edward Elgar Publishing, 2000.
Isaac, Barry L. “The Substantivists: Polanyi.” In A Handbook of Economic Anthropology. Edward Elgar Publishing, 2007.

Deixe um comentário