Poucos livros parecem olhar de volta para nós. O Manuscrito Voynich é um deles. Folheá-lo — ainda que apenas em reprodução digital — é experimentar a estranha sensação de estar diante de uma mensagem cuidadosamente escrita para alguém que nunca chegou.
Hoje catalogado como Beinecke MS 408, na Universidade de Yale, o manuscrito leva o nome do livreiro Wilfrid Voynich, que o adquiriu em 1912. Mas o objeto em si é bem mais antigo: análises por carbono-14 datam o pergaminho entre 1404 e 1438. Pequeno, do tamanho de um livro de bolso medieval, ele reúne cerca de 240 páginas originais de velino, das quais pouco mais de uma centena sobreviveram. Cada folha é coberta por uma escrita fluida e consistente — e por imagens que parecem saídas de um sonho botânico.

Um livro que parece saber o que está fazendo
Nada no Voynich sugere improviso. O manuscrito é organizado em seções temáticas claras. Primeiro vêm as plantas: páginas e páginas de ilustrações botânicas, cada uma acompanhada por blocos de texto. Mas as plantas não correspondem a espécies conhecidas. São composições híbridas, raízes de um tipo, folhas de outro, flores de nenhum. É como se alguém tivesse aprendido botânica em outro mundo.
Depois surgem diagramas astronômicos e cosmológicos — sóis, luas, estrelas, círculos concêntricos. Um desdobramento espetacular de várias páginas mostra uma grande composição de “rosetas” interligadas, lembrando mapas de cidades imaginárias ou esquemas do cosmos.
A seção seguinte é a mais perturbadora: dezenas de pequenas figuras femininas nuas, muitas vezes imersas em líquidos verdes ou azuis, conectadas por tubos e canais. Parecem ninfas em um sistema hidráulico alquímico, banhando-se dentro de um corpo que é ao mesmo tempo humano e cósmico.
Há ainda páginas com partes de plantas e frascos que lembram recipientes farmacêuticos, e uma seção final composta apenas de pequenos parágrafos de texto, cada um marcado por um símbolo em forma de estrela — como se fossem receitas, fórmulas ou instruções.
Tudo isso está escrito num sistema gráfico que não corresponde a nenhuma escrita conhecida.
Uma língua que obedece às regras — mas de qual mundo?
O alfabeto do Voynich tem cerca de 20 a 30 caracteres recorrentes, escritos da esquerda para a direita. À primeira vista, parece uma cifra. Mas, quando linguistas e criptógrafos analisaram o texto estatisticamente, encontraram algo desconcertante: ele se comporta como uma língua natural.
As palavras têm comprimentos típicos, a frequência dos termos segue padrões como a Lei de Zipf, e certas estruturas se repetem em posições previsíveis dentro das linhas. Há até evidências de dois “dialetos” ou modos de escrita diferentes, conhecidos como Currier A e Currier B, nomeados a partir do pesquisador que os identificou nos anos 1970.
E, no entanto, ninguém conseguiu ler uma única frase com segurança.
Essa tensão — estrutura sem sentido — sustenta o fascínio moderno. Se for uma cifra, ela é extraordinariamente sofisticada para o início do século XV. Se for uma língua inventada, é a mais longa e sistemática já preservada. Se for um embuste, é um embuste que domina estatística linguística séculos antes de a disciplina existir.
Um objeto que atravessa alquimistas e imperadores
O percurso histórico do manuscrito é tão enigmático quanto seu texto. A primeira menção segura data do século XVII, quando o alquimista de Praga Georg Baresch escreveu ao erudito jesuíta Athanasius Kircher, pedindo ajuda para decifrar um livro misterioso que possuía. Mais tarde, o manuscrito passou às mãos de Johannes Marcus Marci, reitor da Universidade de Praga, que o enviou ao próprio Kircher.
Há uma tradição — não comprovada, mas persistente — de que o imperador Rodolfo II do Sacro Império Romano-Germânico, grande colecionador de curiosidades, teria pago uma soma elevada pelo volume, acreditando tratar-se de obra de Roger Bacon.
Depois disso, o manuscrito desaparece nos arquivos do Colégio Romano dos jesuítas, reaparecendo apenas em 1912, quando Voynich o compra numa coleção em dispersão na Itália. Desde 1969, ele pertence à Biblioteca Beinecke, em Yale, onde foi totalmente digitalizado e disponibilizado ao público.
O que ele é — e o que precisamos que ele seja
As teorias se acumulam. Para alguns, o texto é uma cifra médica ou alquímica, um repositório de saberes ocultos. Outros defendem que é uma língua construída, talvez ligada a tradições místicas. Há quem veja nele um elaborado sistema mnemônico, onde as imagens e palavras funcionariam como gatilhos de memória. E há os céticos: para eles, o Voynich pode ser um artefato deliberadamente sem sentido, produzido para parecer profundo — um objeto de prestígio para colecionadores renascentistas fascinados por mistério.
Nos últimos anos, análises computacionais e modelos de inteligência artificial sugeriram ligações com o hebraico ou com técnicas de embaralhamento de letras. Outras pesquisas concluíram que o texto pode ter sido gerado por regras simples de recombinação, produzindo uma “pseudo-língua” com aparência estatística de linguagem real. Nenhuma hipótese alcançou consenso.
Talvez o mais revelador seja que o manuscrito funciona como um espelho das nossas próprias expectativas. Criptógrafos veem um código. Linguistas veem uma língua. Historiadores da ciência veem um tratado perdido. Céticos veem uma fraude genial. O Voynich acolhe todas essas projeções porque, teimosamente, não responde a nenhuma.
O último grande enigma manuscrito
Num mundo onde satélites mapeiam o subsolo e algoritmos prevêem doenças, é quase reconfortante que um pequeno livro de pergaminho continue ilegível após um século de escrutínio moderno. O Manuscrito Voynich é um lembrete de que nem todo vestígio do passado se deixa traduzir em dados.
Ele persiste como uma mensagem selada não apenas por um código desconhecido, mas pela distância entre mundos mentais. Talvez não falte apenas a chave linguística. Talvez falte o contexto inteiro — a comunidade, as práticas, as suposições silenciosas — para as quais aquelas páginas faziam sentido.
Até que isso mude, o Voynich continuará sendo menos um texto a ser lido do que um limite a ser contemplado: o ponto em que o conhecimento histórico encontra, sem escândalo, o mistério.
