Ecletismo espiritualista: mais do que o positivo

A filosofia francesa do século XIX enfrentou um problema que não era apenas técnico: como justificar a experiência do eu — sua liberdade, sua moralidade, sua abertura ao transcendente — sem recorrer a fundamentos que a ciência emergente recusava. O espiritualismo eclético foi a resposta dominante a esse impasse, e sua história intelectual é inseparável de três figuras que formam uma linhagem direta: Maine de Biran, Victor Cousin e Paul Janet.

Três formuladores e um opositor

François-Pierre-Gonthier Maine de Biran (1766- 1824) nasceu em uma família de médicos e passou a maior parte de sua vida adulta em Bergerac, na Dordonha, onde fundou uma sociedade médica. Foi para esse círculo que redigiu o único trabalho que divulgou por iniciativa própria em vida: A Influência do Hábito sobre a Faculdade de Pensar (1802). Quando se transferiu para Paris, frequentou a Société d’Auteuil, reduto dos herdeiros de Condillac e dos enciclopedistas. Contudo, progressivamente se afastou do sensacionismo que ali dominava. O contato com espiritualistas e neocatólicos empenhados em reconciliar modernidade e religião orientou sua trajetória definitiva. Publicou ainda, no período parisiense, uma brochura sobre Laromiguière (1817, sem assinar) e um verbete sobre Leibniz na Biographie Universelle (1819). Todo o restante de sua produção permaneceu inédito até depois de sua morte. Victor Cousin editou as Obras Filosóficas em quatro volumes em 1841; Ernest Naville organizou três volumes adicionais em 1859; a obra completa, em catorze tomos, só se tornou acessível no século XX.

Biran recusava publicar porque sua investigação central permanecia inconclusa. O Diário Íntimo — divulgado postumamente — registra a busca por um princípio único capaz de refundar toda a metafísica. O ponto de partida era a experiência do ato voluntário: quando o agente move o próprio braço por deliberação, sem estímulo externo, encontra imediatamente as ideias de causa, eu e liberdade. Essa era a resposta biraniana ao empirismo de Locke e Condillac, que havia dissociado experiência interna e externa: o “fato primitivo da consciência” reunia ambas num único dado originário. A introspecção tornava-se método filosófico legítimo, e a liberdade deixava de ser postulado para ser vivência. Porém a questão que Biran nunca resolveu a contento era outra: de onde procedem as ideias de Deus, bem e moral? Inclinou-se a admitir que a experiência mística desempenha, para a humanidade como um todo, papel análogo ao do ato voluntário para o indivíduo — acesso empírico a realidades que ultrapassam a percepção ordinária. Seus discípulos consideraram o sistema suficientemente sólido para ser completado e difundido; o próprio Biran julgava o contrário.

Victor Cousin (1792–1867) foi quem transformou esse programa fragmentário em doutrina institucional. Aos vinte e três anos, assumiu as cátedras de Royer-Collard na Faculdade de Letras de Paris e na École Normale. Sua trajetória foi marcada pela política: ligado aos liberais doutrinários — o mesmo grupo de Guizot e Royer-Collard que liderou a Revolução de 1831 —, perdeu o magistério sob os ultras e foi preso na Prússia no inverno de 1824–1825, quando exercia a função de preceptor de um jovem nobre. Durante o governo de Luís Filipe, chegou a reitor da Universidade e ministro da Instrução Pública, consolidando o espiritualismo eclético como filosofia oficial do Estado. A correspondência com os hegelianos alemães, publicada em 1990, revela que Hegel o estimava; pensadores como Victor Brochard e Rodolfo Mondolfo reconheceram seus méritos, embora a historiografia francesa, influenciada pelo positivismo, o tenha tratado com desdém.

A contribuição intelectual de Cousin foi dupla. Primeiro, introduziu na França a história da filosofia como disciplina rigorosa — criação de Hegel, que substituiu a simples exposição de autores preferidos por uma análise da contribuição de cada pensador ao desenvolvimento de problemas filosóficos específicos. Cousin refez e ampliou o Curso de História da Filosofia Moderna ao longo de décadas, chegando a oito volumes no fim dos anos 1840, e editou obras de Abelardo, Pascal e o próprio Biran, além de traduzir Platão. Segundo, reformulou o problema moral herdado de Biran. Partindo da noção de fato primitivo da consciência, estendeu-a ao domínio ético: os juízos morais também seriam dados originários, irredutíveis a cálculo ou sensação. No Du vrai, du beau et du bien, escreveu que “o bem é obrigatório” e que “a obrigação repousa sobre o bem”, conciliando assim a busca aristotélica da felicidade com a exigência kantiana de dever. A solução era engenhosa, mas não apaziguou os adversários.

Paul Janet (1823–1899) herdou o programa cousiniano e o expôs a pressões que Cousin não havia enfrentado: o avanço da psicologia experimental, as teorias do inconsciente e a medicalização crescente do estudo da mente. Seu esforço consistiu em manter o núcleo espiritualista — o valor cognitivo da introspecção, a irredutibilidade do eu à matéria — sem ignorar os resultados do laboratório. Nesse sentido, representa menos uma ruptura com a tradição do que sua adaptação defensiva a um novo contexto científico.

A esse espiritualismo institucionalizado, Pierre Lafitte (1823–1903) opôs a herança de Auguste Comte. Para o positivismo, a filosofia deve restringir-se aos fatos observáveis e às regularidades científicas; qualquer apelo à experiência interior como fonte de conhecimento metafísico é, na melhor das hipóteses, ilusão e, na pior, obstáculo ao progresso intelectual. O conflito entre os dois campos não girava em torno de detalhes: era uma disputa sobre o que conta como experiência válida e sobre o que a filosofia pode legitimamente afirmar.

Os três espiritualistas desenvolveram seu projeto filosófico em oposição ao sensacionalismo que os precedeu, do qual o positivismo surgiu. Lafitte, por sua vez, definiu sua escola em oposição à abordagem metafísica dos espiritualistas. Eles eram as duas principais forças concorrentes na filosofia francesa da época.

Difusão e declínio do ecletismo espiritualista

O ecletismo espiritual venceu institucionalmente durante a Monarquia de Julho e o Segundo Império, mas cedeu terreno nas décadas seguintes. Sua difusão foi, contudo, geograficamente ampla. Galgou também o mundo de fala portuguesa, concorrente ao positivismo da época.

Em Portugal e no Brasil imperial, a Escola Eclética funcionou como matriz filosófica de segmentos da elite letrada. O currículo do Colégio Pedro II e das faculdades de direito foi moldado pelo cousinismo durante todo o Segundo Reinado. Dessa forma, esteve presente na geração que debateu abolição e república.

A fragilidade interna do ecletismo espiritualista era estrutural. O projeto de Cousin consistia em recolher o verdadeiro em cada sistema filosófico e integrá-lo numa síntese — procedimento que pressupunha um critério capaz de distinguir o verdadeiro do falso em cada tradição. Mas esse critério nunca foi demonstrado; foi postulado. Os adversários logo perceberam que o ecletismo não era uma filosofia no sentido rigoroso, mas uma política intelectual: conciliava o que convinha conciliar e excluía o que perturbava a síntese. Ernest Renan e, mais tarde, os neokantianos como Charles Renouvier apontaram que uma doutrina construída pela justaposição de elementos heterogêneos carecia de coerência argumentativa. A acusação de superficialidade colou.

A pressão positivista foi a mais visível. Comte havia formulado a lei dos três estados — teológico, metafísico e positivo — e o espiritualismo se enquadrava com precisão na fase metafísica: substituía entidades teológicas por abstrações como “consciência”, “fato primitivo” e “participação no ser”, sem submeter nenhuma delas à verificação empírica. Para Lafitte e os comtianos, o apelo à experiência interior como fundamento do conhecimento era simplesmente metafísica disfarçada de psicologia. A força retórica dessa crítica era considerável numa época em que as ciências naturais acumulavam resultados concretos e prestígio social crescente.

A revolução nas ciências da mente foi talvez o golpe mais profundo, porque veio de dentro do próprio território que o espiritualismo reivindicava. A psicologia experimental de Wilhelm Wundt, a psicopatologia de Charcot e as pesquisas sobre o inconsciente de Théodule Ribot mostraram que os processos mentais podiam ser estudados por métodos objetivos, sem recorrer à introspecção filosófica como dado privilegiado. Pior: a introspecção revelou-se metodologicamente suspeita, pois o observador altera o que observa e não tem acesso confiável aos mecanismos subjacentes à própria consciência. O “fato primitivo” biraniano, longe de ser fundamento seguro, passou a ser visto como artefato de um método inadequado.

O contexto político também importa. O espiritualismo cousiniano havia se consolidado como filosofia oficial do Estado liberal orleanista. Com a queda de Luís Filipe em 1848, perdeu seu suporte institucional imediato. Sob o Segundo Império e depois na Terceira República, o laicismo militante encontrou no positivismo um aliado mais natural do que no espiritualismo, que mantinha vínculos evidentes com a teologia cristã — vínculos que Cousin sempre procurou atenuar, mas nunca dissolveu completamente.

Por fim, o neokantismo que se instalou nas universidades francesas nas décadas de 1870 e 1880, sob figuras como Renouvier e depois Léon Brunschvicg, ofereceu uma alternativa mais rigorosa para quem queria preservar a dimensão crítica da filosofia sem aderir ao positivismo. O neokantismo retomava a questão das condições do conhecimento com instrumentos mais precisos do que o ecletismo havia desenvolvido, tornando-o obsoleto até mesmo para quem não era positivista.

O resultado foi que o espiritualismo eclético perdeu simultaneamente sua credibilidade filosófica, seu suporte institucional e seu monopólio sobre a alternativa ao positivismo.

O impacto sobre pensadores posteriores operou em registros distintos. Henri Bergson retomou o primado da experiência vivida e da duração interior, desenvolvendo o que Biran havia deixado em aberto sem o aparato metafísico do ecletismo. William James encontrou no espiritualismo francês um interlocutor para sua defesa do valor cognitivo da experiência subjetiva. Há ressonâncias no espiritualismo cristão de Maurice Blondel. Na psicologia francesa, Théodule Ribot e Pierre Janet — sobrinho de Paul Janet — herdaram o interesse pela introspecção, submetendo-a ao método experimental de modo que dissolvia a fronteira entre filosofia e ciência que o espiritualismo havia procurado preservar.

A questão central permanece. Para o espiritualismo francês, a consciência é presença a si mesma: ela percebe a diversidade de seus estados e mantém identidade ao percebê-la, pois seria contraditório que ela experimentasse sua própria ausência. O fato primitivo é o eu descobrir-se capaz de descobrir — o que o texto de Cousin descreve como revelação da participação do eu na existência do universo. Esse enunciado condensa o projeto biraniano e sua herança: a tentativa de sustentar, com rigor e sem abandonar a experiência, que liberdade, moralidade e transcendência pertencem ao domínio do cognoscível. Se essa tentativa fracassou como sistema, a pergunta que a animava continua a exigir resposta.

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