O que acontece quando um matemático decide que nada deve ser aceito sem definição — nem mesmo o número 1?
No fim do século XIX, enquanto a matemática se expandia em todas as direções, um professor de Turim trabalhava no movimento oposto: reduzir, clarificar, reconstruir desde a base. Giuseppe Peano (1858–1932) não foi apenas um descobridor de teoremas; foi um arquiteto de linguagem, forma e rigor. Seu legado atravessa a aritmética, a análise, a geometria, a lógica e até a linguística — sempre com a mesma obsessão: tornar o pensamento matemático transparente, formal e universal.

Contar sem contar: os Axiomas de Peano
Antes de Peano, os números naturais eram tratados como algo óbvio, quase pré-matemático. Peano fez a pergunta desconcertante: o que são, exatamente, 0, 1, 2, 3…?
Sua resposta veio em 1889, nos Axiomas de Peano, um conjunto de regras simples que definem os números naturais sem recorrer à intuição de “contar objetos”:
- Existe um número inicial (hoje, 0).
- Todo número tem um sucessor.
- 0 não é sucessor de nenhum número.
- Sucessores de números diferentes são diferentes.
- Se uma propriedade vale para 0 e vale para o sucessor sempre que vale para um número, então vale para todos (o princípio da indução).
Com isso, a aritmética deixa de ser um hábito mental e se torna uma estrutura lógica. Esses axiomas são a base não apenas da teoria dos números, mas da ciência da computação: recursão, laços e definições indutivas em programação ecoam diretamente essa arquitetura.
A linha que virou área: a Curva de Peano
Em 1890, Peano apresentou algo que parecia um paradoxo visual: uma curva contínua que preenche um quadrado inteiro.
A Curva de Peano é uma linha que se dobra sobre si mesma infinitamente, ocupando cada ponto de uma região bidimensional. Ela não “vira” superfície no sentido usual; continua sendo, topologicamente, um objeto unidimensional. Mas sua imagem cobre uma área.
O choque conceitual foi profundo. A geometria clássica distinguia nitidamente linhas e superfícies. Peano mostrou que, do ponto de vista da continuidade, essa fronteira pode colapsar. Hoje, curvas desse tipo aparecem em compressão de imagens, processamento de sinais e algoritmos que percorrem dados bidimensionais com trajetórias lineares eficientes. A intuição geométrica saiu abalada — e mais rica.
Existir não é saber encontrar: o Teorema de Existência de Peano
Na análise, Peano também ajudou a estabelecer um princípio fundamental: às vezes, a matemática pode garantir que algo existe, mesmo sem nos dar uma fórmula explícita.
O Teorema de Existência de Peano trata de equações diferenciais da formay′=f(x,y)
e afirma que, sob condições bastante gerais de continuidade, existe ao menos uma solução passando por um ponto inicial dado.
Isso não diz como encontrar a solução, nem garante que ela seja única. Mas fornece o alicerce lógico para grande parte da física matemática: modelos de movimento, crescimento populacional ou variação de temperatura só fazem sentido se soubermos que as equações que os descrevem admitem trajetórias reais. Peano ajudou a separar duas questões: existência e construtibilidade.
Medindo o irregular: a Medida de Peano–Jordan
Antes da teoria de Lebesgue dominar a análise, havia o problema de atribuir “tamanho” a conjuntos mais complicados do que retângulos e polígonos.
A medida de Peano–Jordan propõe aproximar uma figura por dentro e por fora com coleções de blocos simples. Quando as duas aproximações convergem para o mesmo valor, esse número é a “área” ou “volume” do conjunto.
O método falha para conjuntos excessivamente irregulares — e justamente essa limitação abriu caminho para a teoria de medida moderna. Mas a ideia de definir grandezas por aproximações sucessivas tornou-se central na análise e na probabilidade.
O Teorema do Núcleo de Peano: integrar é pesar vizinhanças
No estudo de aproximações integrais, o Teorema do Núcleo de Peano fornece uma forma elegante de expressar o erro de certos métodos numéricos como uma integral ponderada — o “núcleo” — da derivada de ordem superior da função.
A intuição é que o valor de uma função pode ser reconstruído a partir de médias locais, com pesos específicos. Essa perspectiva está na base de técnicas de quadratura numérica, análise de sinais e métodos de elementos finitos. Mais uma vez, Peano aparece onde cálculo, aproximação e estrutura se encontram.
Uma nova gramática do pensamento: a notação lógico-simbólica
Peano acreditava que o rigor dependia de linguagem precisa. Ele desenvolveu e popularizou uma notação formal para a lógica — com símbolos para “todo”, “existe”, implicação e negação — que influenciou profundamente Bertrand Russell e a tradição logicista.
A chamada notação Peano–Russell ajudou a transformar a lógica de uma arte filosófica em uma disciplina simbólica manipulável, antecessora direta das linguagens formais da computação. Provar tornou-se, literalmente, calcular com símbolos.
Latino sine flexione: matemática como língua universal
A obsessão de Peano pela clareza ultrapassou a matemática. Ele criou o Latino sine flexione, uma versão simplificada do latim sem declinações ou conjugações complexas. A ideia era oferecer uma língua neutra e internacional para a ciência.
A proposta nunca se tornou dominante, mas revela algo essencial sobre seu projeto intelectual: para Peano, progresso científico exigia não apenas boas ideias, mas meios de expressão universais e não ambíguos. Sua utopia linguística ecoa hoje no inglês técnico padronizado e nas linguagens formais. As linguagens de programação são descendentes diretos de seu projeto.
Espaços vetoriais: a álgebra da estrutura
Peano também contribuiu para a axiomatização de estruturas algébricas como os espaços vetoriais: conjuntos de objetos que podem ser somados e multiplicados por escalares segundo regras simples.
Essa formalização abstrai vetores geométricos e os transforma numa linguagem geral para física, gráficos computacionais, estatística e aprendizado de máquina. Ao enfatizar axiomas em vez de representações concretas, Peano ajudou a consolidar o estilo estrutural da matemática moderna.
Superfícies estranhas: a Superfície de Peano
Assim como sua curva preenchia uma área, a chamada Superfície de Peano explora como objetos bidimensionais podem se dobrar e se enredar no espaço tridimensional de maneiras que desafiam a intuição. Esses exemplos extremos alimentaram o desenvolvimento da topologia, onde a forma importa menos que a conectividade e a continuidade.
O rigor como aventura
Peano não foi lembrado por um único “grande teorema”, mas por algo mais raro: uma transformação do estilo matemático. Ele insistiu que números, funções, espaços e provas precisavam ser definidos com precisão quase linguística. Onde outros viam intuição suficiente, ele via ambiguidade a ser eliminada.
Seu trabalho está na base de como ensinamos aritmética, escrevemos lógica simbólica, modelamos sistemas físicos e estruturamos dados abstratos. Até suas excentricidades linguísticas refletem a mesma convicção: pensar bem exige falar — e simbolizar — bem.
Se a matemática moderna parece um edifício de vidro e aço, transparente e estrutural, muito disso se deve ao arquiteto discreto de Turim que decidiu começar do zero. Literalmente.
SAIBA MAIS
https://mathshistory.st-andrews.ac.uk/Biographies/Peano/
Atualizado em 29 de janeiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
Como citar esse texto no formato ABNT:
- Citação com autor incluído no texto: Alves (2009)
- Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2009)
Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Giuseppe Peano e a ambição de fundar o infinito. Ensaios e Notas, 2009. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2009/10/29/giuseppe-peano-e-a-ambicao-de-fundar-o-infinito/. Acesso em: 29 jan. 2026.

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