Numa pesquisa sobre ligas de boliche, Robert Putnam descreveu um fato simples: pessoas continuavam a jogar, mas deixaram de jogar juntas. A metáfora serviu para falar de capital social, isto é, redes, normas e confiança que permitem cooperação. O diagnóstico era histórico e localizado nos Estados Unidos do século XX, mas a imagem viajou. No Brasil urbano do século XXI, entre jovens adultos, o problema não é o abandono de um passado associativo denso, e sim a dificuldade persistente de construí-lo.
Putnam estava errado em pensar que o problema era a erosão; o verdadeiro problema é que nunca tivemos o que ele lamenta perder — e isso é uma vantagem”, ou o oposto: “O Brasil não precisa de mais associativismo, precisa de outra coisa que ainda não tem nome.
A comparação pede cuidado. O ponto de partida difere. Nos Estados Unidos observados por Putnam, havia alta participação em igrejas, sindicatos, associações de bairro e clubes. A questão era a queda nas taxas de filiação e presença. No Brasil, a linha de base sempre foi mais irregular. Há tradição de mobilização popular, irmandades religiosas, associações locais e movimentos sociais, mas a filiação estável a organizações voluntárias formais nunca atingiu o mesmo patamar médio. Entre jovens adultos de grandes cidades, o quadro atual combina baixa participação em associações duradouras com intensa circulação em redes de laços fracos.
A métrica também muda. Putnam contava membros, reuniões, horas dedicadas. No Brasil contemporâneo, é preciso observar um duplo movimento. De um lado, poucos ingressam e permanecem em organizações presenciais de longo prazo. De outro, cresce a presença em redes digitais e contatos profissionais de curta duração. Esses vínculos ampliam informação e visibilidade, mas não produzem com a mesma frequência obrigações recíprocas, cuidado continuado e confiança espessa.
As causas estruturais apresentam paralelos e diferenças. Putnam destacou mudança geracional, expansão suburbana, televisão e pressão de tempo em famílias com dois provedores. No Brasil, a mobilidade urbana assume outra escala. Jovens deixam cidades médias e pequenas para estudar e trabalhar em metrópoles. A rede de parentesco fica para trás. No destino, a vida se organiza em torno de estudo e trabalho. O deslocamento diário consome horas. A moradia é transitória. O ciclo de conhecidos se renova com frequência.
Há ainda o tema da violência e da desconfiança. O medo altera rotinas, horários e usos do espaço público. Encontros espontâneos perdem terreno para encontros marcados em locais fechados ou mediados por plataformas. A rua deixa de ser extensão da sociabilidade cotidiana. Isso reduz a exposição repetida às mesmas pessoas, condição clássica para que a familiaridade vire confiança.
A economia também pesa. Inserção precária, renda instável e jornadas fragmentadas dificultam compromissos regulares. Reuniões semanais, trabalho voluntário fixo e participação em diretórios exigem previsibilidade. Quando a agenda muda a cada mês, o engajamento contínuo perde prioridade. O tempo livre tende a ser usado para descanso, qualificação ou renda extra.
Nesse contexto surge um deslocamento cultural em torno da solidão. Em sociedades antigas, o exílio significava perda de identidade e proteção. Hoje, morar só pode sinalizar autonomia e êxito econômico. A moradia individual vira meta. O valor atribuído à independência altera o cálculo sobre investir em vínculos densos, que implicam deveres, concessões e presença.
A mobilidade funciona como faca de dois gumes. Abre acesso a universidades, empregos e experiências. Ao mesmo tempo, rompe laços herdados. O recém-chegado à metrópole torna-se átomo funcional: integrado a fluxos produtivos, pouco enraizado em coletivos estáveis. A rede principal é profissional. A rede de apoio, incerta.
Daí emerge um sintoma recorrente: a dificuldade de iniciar amizades novas. Em comunidades estáveis, amizades nascem da proximidade repetida e do destino compartilhado: mesma rua, mesma escola, mesmo templo, mesmo turno. Para o jovem adulto móvel, a amizade vira projeto deliberado. Exige cursos, grupos de interesse, aplicativos ou dinâmicas de trabalho. O contato é intermitente. O custo de coordenação é alto. Formam-se muitos colegas e poucos amigos capazes de prover ajuda mútua consistente.
Há um paradoxo associativo. O Brasil mantém histórico de organizações de base e engajamento cívico. Contudo, para o jovem urbano independente, muitas dessas instâncias parecem ligadas a gerações anteriores, lutas específicas ou territórios dos quais ele não faz parte. Grupos religiosos continuam a oferecer comunidade pronta, com encontros frequentes e rede de cuidado, mas pedem adesão doutrinária e regras de conduta. Outras formas surgem: coletivos culturais, grupos esportivos, iniciativas criativas e comunidades digitais. São portas de entrada acessíveis, porém a permanência é volátil e a identidade comum se ancora mais em interesse do que em destino compartilhado.
A metáfora, então, se desloca. Se Putnam falou de “jogar boliche sozinho”, aqui aparece algo como “fazer networking sozinho”. A conexão é exibida e medida. Perfis acumulam contatos. Interações são registradas. A performance de sociabilidade ganha espaço. Falta, com frequência, a sociabilidade incorporada em rotinas, vizinhança e obrigações recíprocas.
Isso afeta os tipos de capital social disponíveis. O capital de ligação com instituições e oportunidades formais cresce: conexões com empresas, plataformas, editais. O capital performático online também se expande. Já o capital de união — aquele que sustenta cuidado cotidiano, empréstimos informais, divisão de riscos e presença em crises — torna-se escasso para muitos.
As consequências aparecem na vida cívica e na experiência subjetiva. Menos vínculos densos reduzem a prática de deliberação local, ação coletiva e gestão compartilhada de problemas. No plano individual, dificuldades são tratadas como encargos privados. Perda de trabalho, doença na família ou necessidade de mudança rápida encontram redes de apoio limitadas. Serviços de mercado e políticas públicas substituem, quando possível, aquilo que antes circulava em redes pessoais.
O contraste final talvez seja este. Putnam lamentava a erosão de um tecido associativo que já existia. Entre jovens adultos urbanos no Brasil, o desafio é anterior: construir esse tecido em condições de mobilidade alta, mediação digital intensa, insegurança urbana e instabilidade econômica. O desejo de comunidade persiste, visível na busca por grupos, cursos, igrejas, esportes e coletivos. O problema é o modo de transformar encontros ocasionais em vínculos duradouros.
Robert D. Putnam (nascido em 1941) discorre sobre capital social, engajamento cívico e o declínio da vida comunitária nas sociedades contemporâneas, especialmente nos Estados Unidos. Sua pesquisa interdisciplinar debate sobre a vitalidade da sociedade civil e a saúde das instituições democráticas. Com um Ph.D. obtido na Universidade de Yale em 1970, Putnam lecionou na Universidade de Harvard, com passagens pela Universidade de Michigan. Sua abordagem de pesquisa combina de análise quantitativa, política comparada e teoria sociológica.
Putnam alerta que o declínio do capital social representa uma séria ameaça à democracia. A erosão da confiança e das redes sociais leva ao desengajamento cívico e político, o que, por sua vez, pode alimentar a polarização, o extremismo e a desconfiança nas instituições. Sem capital social suficiente, as sociedades enfrentam dificuldades em promover a ação coletiva necessária para resolver problemas complexos (como saúde pública, mudanças climáticas ou integração social). Em trabalhos posteriores, como Our Kids (Nossos Filhos, 2015), ele conecta esse declínio também à crescente desigualdade econômica e de oportunidades, que fratura ainda mais a coesão social.
Se aceitamos que o tecido associativo não pode ser tecido sob essas condições estruturais, restam duas opções: ou inventamos uma forma de sociabilidade que não dependa da repetição espacial (e aqui sugiro que experimentemos…), ou politizamos a precariedade não como questão econômica, mas como destruição do cuidado mútuo. A segunda opção parece mais honesta.
A questão em aberto não é apenas quantas pessoas participam de algo, mas que tipo de relação esse algo produz ao longo do tempo. Sem rotinas compartilhadas, frequência de contato e expectativa de reciprocidade, a rede cresce em extensão e encolhe em profundidade. O resultado é uma sociedade conectada em superfície e rarefeita em espessura.
SAIBA MAIS
BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BOURDIEU, Pierre. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. Tradução de Maria Alice Nogueira. São Paulo: Unesp, 2004. (Contém o ensaio “O capital social”).
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Tradução de Roneide Venâncio Majer. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
COLEMAN, James S. Social capital in the creation of human capital. American Journal of Sociology, Chicago, v. 94, n. Supplement, p. S95-S120, 1988.
GRANOVETTER, Mark S. The strength of weak ties. American Journal of Sociology, Chicago, v. 78, n. 6, p. 1360-1380, 1973.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do desempenho. Tradução de Enio Paulo Giachini. São Paulo: Estação Liberdade, 2017.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução de Enio Paulo Giachini. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.
PUTNAM, Robert D. Bowling alone: the collapse and revival of American community. New York: Simon & Schuster, 2000.
PUTNAM, Robert D. Making democracy work: civic traditions in modern Italy. Princeton: Princeton University Press, 1993.
SENNETT, Richard. Juntos: rituais, prazeres e políticas de cooperação. Tradução de Christiane Nogueira Gama. Rio de Janeiro: Record, 2013.
SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. Tradução de Laura T. de M. Teixeira. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.
STANDING, Guy. O precariado: a nova classe perigosa. Tradução de Cláudio de Faria Nogueira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.
TURKLE, Sherry. Alone together: why we expect more from technology and less from each other. New York: Basic Books, 2011.
TURKLE, Sherry. Reclaiming conversation: the power of talk in a digital age. New York: Penguin Press, 2015.
Atualizado em 29 de janeiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
Como citar esse texto no formato ABNT:
- Citação com autor incluído no texto: Alves (2014)
- Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2014)
Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Antes só. Ensaios e Notas, 2014. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2014/06/15/antes-so/. Acesso em: 29 jan. 2026.

Deixe um comentário