História das Teorias da Administração ou Gestão

A administração — ou gestão, como preferem os lusitanos — transcende a mera prática organizacional; ela se consolidou como uma disciplina acadêmica fundamentada em um robusto corpo de paradigmas. Definida como o conjunto de normas para planejar, organizar, dirigir e controlar esforços coletivos, a administração evoluiu ao longo do século XX para responder às transformações tecnológicas e sociais. O que começou como uma busca pela “única melhor maneira” (the one best way) transformou-se em uma compreensão multifacetada de sistemas vivos e adaptáveis.

O nascimento da disciplina: paradigmas clássicos

Surgidos na era progressista (fin-de-siècle), o Taylorismo, o Fordismo e a Teoria Clássica refletem o otimismo científico e o positivismo metodológico do período.

Taylorismo e Fordismo (Ênfase nas Tarefas): Frederick Taylor, em The Principles of Scientific Management (1911), aplicou o pragmatismo e a racionalização ao chão de fábrica. Baseado na ética Quaker e na obsessão pela medição, Taylor propôs a divisão especializada do trabalho e o desenho de cargos para reduzir movimentos ao mínimo. Frank Gilbreth complementou essa visão, elevando a produtividade de pedreiros de 120 para 350 tijolos/hora. Henry Ford coroou essa era com a produção em massa, a linha de montagem e a padronização, tratando o operário como homo economicus.

Administração Clássica (Fayol): Henri Fayol deslocou o olhar da tarefa para a estrutura. Ele definiu as seis funções da empresa (Técnicas, Comerciais, Financeiras, Contábeis, de Segurança e Administrativas) e o processo administrativo original (POC3: Prever, Organizar, Comandar, Coordenar e Controlar). Fayol estabeleceu 14 princípios gerais, incluindo Unidade de Comando, Equidade e Espírito de Equipe.

POSDCORB: Luther Gulick expandiu Fayol para sete elementos: Planejamento, Organização, Assessoria (Staffing), Direção, Coordenação, Informação (Reporting) e Orçamento (Budgeting).

Burocracia e estruturalismo

    Max Weber introduziu a Teoria da Burocracia, focada na máxima eficiência através do “tipo ideal”: formalização, divisão do trabalho, hierarquia, impessoalidade e meritocracia. Entretanto, Weber identificou disfunções inerentes, como o excesso de formalismo (“papelório”), a despersonalização e a resistência a mudanças.

    A Teoria Estruturalista (Etzioni, Blau, Scott) surgiu como uma síntese, focando no sistema aberto e no “homem organizacional”. Amitai Etzioni classificou as organizações em Coercitivas, Normativas e Utilitárias, enquanto Blau e Scott focaram nos beneficiários (Mútuos, Comerciais, de Serviço ou de Estado).

    A ênfase nas pessoas e no comportamento

    A Escola de Relações Humanas (Mayo e Lewin) humanizou a administração, focando na organização informal e em conceitos como motivação e liderança. Isso evoluiu para a Teoria Comportamental de Herbert Simon, que entende o ser humano como um animal social orientado por objetivos.

      Neste campo, destacam-se:

      • Hierarquia de Maslow e a Teoria dos Dois Fatores de Herzberg (fatores higiênicos vs. motivacionais).
      • Teorias X e Y de McGregor, contrastando estilos autoritários e participativos.
      • Sistemas de Likert: Do autoritário-coercitivo ao participativo.
      • Processo Decisorial: A ideia de que o administrador escolhe a alternativa “satisfatória” diante de uma racionalidade limitada.

      Teoria dos Sistemas e Cibernética

      A transição do pensamento administrativo para a contemporaneidade foi profundamente marcada pela ruptura com o mecanicismo, dando lugar a uma visão holística fundamentada na Teoria dos Sistemas. Influenciada pelos trabalhos de Ludwig von Bertalanffy, essa perspectiva abandonou a urgência por soluções práticas isoladas para se dedicar à construção de potentes formulações conceituais. Sob essa ótica, a empresa deixa de ser vista como uma máquina de peças estáticas e passa a ser compreendida como um organismo vivo: um conjunto de elementos dinamicamente inter-relacionados que operam através de um fluxo contínuo de entradas, processamento, saídas e retroação (feedback).

      Essa natureza orgânica das organizações é sustentada por conceitos-chave que explicam sua sobrevivência em ambientes instáveis. A busca pelo equilíbrio interno, ou homeostase, permite que a empresa mantenha seu “estado firme”, enquanto a entropia negativa (negentropia) age como uma força de resistência à desintegração, importando energia e informação do ambiente para renovar o sistema. Mais do que apenas sobreviver, as organizações exibem morfogênese, a capacidade de modificar suas próprias estruturas básicas, e resiliência, que as permite absorver impactos externos e recuperar sua integridade funcional.

      A operacionalização dessa complexidade encontrou suporte na Cibernética e na Informática. Essas disciplinas deslocaram o foco para os processos de controle e comunicação, onde o processamento de dados deixa de ser uma tarefa burocrática para se tornar o motor de geração de informação. O objetivo central é a redução das incertezas, permitindo que o sistema se autorregule com precisão frente às flutuações do entorno.

      Consolidando essa visão, o Modelo de Katz e Kahn aplica a teoria sistêmica de forma definitiva à administração, caracterizando a organização como um sistema aberto. Para esses autores, a empresa sobrevive através de ciclos recorrentes de eventos e da equifinalidade — o princípio de que um sistema pode alcançar o mesmo estado final partindo de condições iniciais diferentes e por caminhos distintos.

      Finalmente, para que essa abstração se traduza em suporte à decisão estratégica, a Teoria Matemática da Administração fornece o rigor analítico necessário. Através da aplicação da Teoria dos Jogos, do estudo de Filas, da análise de Grafos e de modelos de Probabilidade, a gestão deixa de ser puramente intuitiva para se tornar uma ciência de modelos, capaz de simular cenários e otimizar resultados em um mundo cada vez mais interconectado.

      Contingência e o cenário atual

      A Teoria da Contingência decretou o fim do “best way”. A organização é uma variável dependente do ambiente e da tecnologia. O foco mudou para o ajuste e a adaptabilidade.

        Hoje, a gestão integra seis variáveis básicas: Tarefas, Estrutura, Pessoas, Tecnologia, Ambiente e Competitividade. Novas abordagens como a Teoria do Caos, Capital Intelectual e Aprendizagem Organizacional buscam garantir resultados sustentáveis em um mundo de complexidade crescente.

        Atualizado em 29 de janeiro de 2026.

        Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega. Possui graduação em Gestão Pública.


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        • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2026)

        Na referência:

        ALVES, Leonardo Marcondes. História das teorias da administração ou gestão. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/01/29/historia-das-teorias-da-administracao-ou-gestao/. Acesso em: 29 jan. 2026.

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