Acepções quanto às Artes Liberais

Seria tentador definir as artes liberais através de uma fórmula elegante que unisse o trivium e o quadrivium à formação do homem livre e à base da universidade medieval. Todavia, tal definição seria tão confortável quanto enganosa, pois sob a mesma designação convivem currículos propedêuticos, programas humanistas, reformas renascentistas, modelos norte-americanos contemporâneos e bacharelados interdisciplinares. O conceito não é estático, mas histórico, alterando-se conforme as perguntas que cada época endereça à educação. Torna-se mais produtivo, portanto, investigar as acepções que o termo recebeu ao longo do tempo e as tensões que elas revelam.

Muito antes da consolidação medieval das sete artes, existia a ideia de uma enkýklios paideía — a educação circular e abrangente destinada à formação do cidadão. Quintiliano a descreveu como o orbis doctrinae, o círculo de disciplinas que precede a retórica. O historiador L. M. de Rijk demonstrou que o termo sofreu deslocamentos significativos já na Antiguidade. No século V a.C., designava uma educação córica composta por ginástica e música; posteriormente, passou a significar estudos literários e retóricos. Com Platão, o conceito ganhou escopo matemático como preparação para a filosofia. O século IV a.C. testemunhou a rivalidade entre duas escolas: a de Platão, que via as technai como mero prelúdio à filosofia, e a de Isócrates, que enxergava na cultura literária e retórica a formação integral do homem público. Nessa síntese de Isócrates, o orador ideal possuía conhecimento científico e virtude, influenciando profundamente Cícero e o núcleo do que viria a ser a educação liberal.

A Carta 88 de Sêneca a Lucílio marca um momento decisivo ao examinar as artes liberais como disciplinas propedêuticas enquanto denuncia suas futilidades. Para o filósofo estóico, a gramática, a música, a geometria e a astronomia não tornam o indivíduo virtuoso por si sós; apenas a busca pela sabedoria liberta. Sêneca confronta duas concepções de liberalis: a educação adequada aos homens livres de nascimento, pertencentes à elite proprietária, e a educação que produz liberdade interior pelo domínio da mente. Esta distinção seria retomada séculos depois por Martha Nussbaum, para quem a educação liberal não deve reproduzir tradições de forma acrítica, mas formar cidadãos capazes de distinguir hábito de razão e alcançar autonomia crítica.

No pensamento de Agostinho de Hipona, as artes preservam sua utilidade como instrumentos para o estudo das Escrituras e para a reflexão sobre o próprio pensar. Embora propedêuticas à sabedoria cristã, Agostinho admite que não são absolutamente necessárias, visto que até o ignorante poderia alcançar a felicidade, ainda que a ignorância fosse considerada a única infelicidade real. A consolidação medieval organizou esse saber em dois blocos fundamentais. O trivium — composto por gramática, retórica e lógica — representava a disciplina da mente pela linguagem, estabelecendo as normas da correção, da eficácia e da verdade. O quadrivium reunia aritmética, música, geometria e astronomia como aplicações teóricas do número e do espaço. Esse currículo preparava o estudante para as faculdades superiores de Medicina, Direito e Teologia. Para Alfonso X, o Sábio, o termo “liberal” aplicava-se ao que exigia plena dedicação, livre de outros encargos, distinguindo-se das artes mecânicas e técnicas.

O Renascimento reconfigurou o modelo ao adicionar as filosofias natural, moral e metafísica às sete artes tradicionais. O humanismo italiano reformulou o trivium sob o nome de studia humanitatis, priorizando a poesia e a filosofia moral em detrimento da lógica. No século XVII, Comenius incorporou as artes liberais ao ensino pré-universitário, enquanto o modelo de Genebra ilustrava a fusão entre o humanismo clássico e a reforma religiosa, ancorando a leitura de autores gregos e latinos na formação moral e no Credo Apostólico.

A partir do século XVIII, as artes liberais sofreram erosão na Europa continental. As reformas prussianas de Humboldt e o modelo francês pós-revolucionário privilegiaram a especialização científica e profissional, passando a ver a formação liberal como um resquício aristocrático. Contudo, o modelo sobreviveu e se transformou nos Estados Unidos e no Canadá, onde os liberal arts colleges ainda defendem uma formação ampla antes da especialização. No Brasil, os bacharelados interdisciplinares retomam parcialmente essa ideia como uma formação transversal entre humanidades e tecnologias.

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