Sabemos acuradamente somente que sabemos pouco. Com o conhecimento, a dúvida cresce.
Johann Wolfgang von Goethe
A oncologista disse “provavelmente benigno”. Ansiosa, a paciente só ouviu certeza. Três meses depois, a segunda biópsia. A certeza vende bem. Promete alívio, direção, chão firme. Em um mundo acelerado, ela funciona como moeda forte: discursos seguros, especialistas resolutos, previsões com tom de destino. Mas essa confiança tem algo de teatral. Quanto mais aprendemos sobre o mundo, mais percebemos a extensão do que não sabemos.

A convivência com a incerteza
A ciência, frequentemente tratada como fábrica de verdades finais, é na prática um sistema disciplinado de revisões. Suas afirmações são provisórias não por fraqueza, mas por método. Hipóteses sobrevivem enquanto resistem às tentativas de refutação; teorias são mantidas até que dados melhores as desloquem. O conhecimento científico não é um monumento, mas um canteiro de obras permanente. A dúvida não é inimiga do saber — é sua ferramenta mais precisa.
Fora dos laboratórios, porém, essa provisoriedade incomoda. Queremos respostas estáveis para orientar políticas, investimentos, escolhas pessoais. Pagamos bilhetes para viajar em aviões apertados porque confiamos no sistema de torres e pilotos. A tensão aparece quando confundimos o caráter provisório do conhecimento com fragilidade ou indecisão. Exigimos da ciência o que ela não promete: garantias absolutas.
É aqui que uma hermenêutica contingencial se torna útil. Toda compreensão ocorre em contexto; todo julgamento parte de um horizonte limitado. Hans-Georg Gadamer chamou atenção para o papel dos “pré-conceitos” — não no sentido de erros morais, mas de pressupostos inevitáveis. Eles não são obstáculos externos ao entendimento; são o ponto de partida de qualquer interpretação. Vemos o mundo a partir de uma história, de uma linguagem, de expectativas que não escolhemos inteiramente. Compreender algo novo é, em parte, revisar essas lentes.
Essa condição não desaparece com mais informação. Especialização amplia a precisão em um campo e, ao mesmo tempo, estreita o campo de visão. O especialista sabe mais e mais sobre menos e menos; fora de sua área, volta a depender de confiança, atalhos cognitivos e julgamentos rápidos. A limitação não é exceção — é regra.
Por isso recorremos à heurística: estratégias práticas para decidir sob incerteza. Em vez de buscar a solução perfeita, buscamos a suficientemente boa, dadas as circunstâncias. Heurísticas não eliminam o risco, mas tornam a ação possível quando a informação é incompleta e o tempo é curto. Elas são pontes provisórias sobre lacunas de conhecimento.
O problema é que também são vulneráveis a vieses, ilusões de controle e narrativas reconfortantes. Confundimos familiaridade com probabilidade, convicção com evidência. A mente prefere coerência à verdade estatística. Aprender a conviver com a incerteza envolve reconhecer essa fragilidade interna — perceber que o erro não está apenas “lá fora”, mas embutido em nossos próprios mecanismos de julgamento.
Tomar decisões nesse cenário é menos como resolver uma equação e mais como navegar. Não controlamos o vento, apenas ajustamos as velas. Algumas escolhas serão revistas, outras se revelarão equivocadas em retrospecto. A alternativa — esperar certeza total — raramente está disponível. A inação também é uma decisão, só que tomada por omissão.
Conviver com a incerteza, então, não é resignação, mas postura intelectual e ética. Exige firmeza sem rigidez, abertura sem paralisia. Significa agir com base no melhor conhecimento disponível, mantendo a disposição de corrigir o rumo. Em vez de buscar um mundo sem dúvidas, aprendemos a habitar um mundo em revisão constante.
Talvez maturidade cognitiva consista nisso: trocar a fantasia de controle pela prática da atenção, substituir a ânsia por certezas pela disposição de aprender. A dúvida deixa de ser falha de caráter e passa a ser sinal de lucidez. Não sabemos o suficiente — e é justamente por isso que continuamos perguntando.
Navegamos usando estrelas que sabemos estarem distantes.
SAIBA MAIS
Dewey, John. Como Pensamos. Traduzido por Haydée de Camargo Campos. Companhia Editora Nacional, 1959.
Kahneman, Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Traduzido por Cássio de Arantes Leite. Objetiva, 2012.
Gadamer, Hans-Georg. Verdade e Método. Traduzido por Flávio Paulo Meurer. Vozes, 1997.
Popper, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. Traduzido por Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. Cultrix, 1972.
Taleb, Nassim Nicholas. A Lógica do Cisne Negro: O Impacto do Altamente Improvável. Traduzido por Marcelo Schild. BestSeller, 2008.
Atualizado em 3 de fevereiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
Como citar esse texto no formato ABNT:
- Citação com autor incluído no texto: Alves (2026)
- Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2026)
Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. A convivência com a incerteza. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/02/17/a-convivencia-com-a-incerteza/. Acesso em: 3 fev. 2026.

Deixe um comentário