O gabinete de curiosidades: o quarto das maravilhas

Durante toda a modernidade (séculos XIV ao XVIII), monarcas e enriquecidos burgueses abriram as portas de seus gabinetes de curiosidades, Wunderkammer em alemão, para impressionados e invejosos visitantes. Fruto da mania de colecionar aliada com as oportunidades das grandes navegações, os gabinetes de curiosidade fizeram parte da economia de prestígio. Apresentaram ao público o fantástico, o exótico e o valioso.

Gabinete de Curiosidades, 1690s, Domenico Remps (c.1690)

Uma versão secularizada dos relicários medievais e antecessores dos museus, essas enciclopédias de artefatos podiam ocupar salas inteiras ou modestas estantes. Algumas estantes eram em si objetos de espantos: belíssimas obras de marchetaria combinadas com mecânica. Quando menos se espera uma mola fazia partes se abrirem ou caixas se deslocarem. A recente série de contos de horror de Guillermo del Toro com tal nome mostra um gabinete imponente. E o próprio diretor organizou um livro com suas notas e coleção de coisas bizarras, cuja primeira edição de 2013, vinha com os objetos, fazendo-o um livro-jogo com entrevistas, notas e planos de filmes, observações sobre o gótico.

A fascinação de del Toro pelo tema levou-o a organizar uma exposição. Na exposição Guillermo del Toro: At Home with Monsters disposta no Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA) de 2016 a 2017, o diretor de cinema foi o curador e artista.

Além das artes, o gabite de curiosidades constituem uma fase importante para a história da ciência e gestão do conhecimento. Eruditos como Ole Worm, Hans Sloane, Athanasius Kircher e Nicolas-Claude Fabri de Peiresc também colecionaram suas curiosidades, as quais serviam para suas especulações de história natural.

Nos cabinetes havia de tudo. Chumaços do borametz (o cordeiro vegetal da Tartária), sangue de dragão, chifre de unicórnio, fósseis, conchas, insetos, gemas raras, mandrágoras com aspectos humanos, corais, dioramas com cenas bíblicas ou do cotidiano de povos longínquos, caveiras de animais exóticos, máquinas com engrenagens complicadas, corais, animais empalhados, moedas, menagerie, amuletos, armas incomuns, materiais raros, porcelanas, estátuas, lentes, instrumentos de navegação, dentre outras fascinações para acumuladores mórbidos.

A necessidade de registrar e organizar essa bagunça toda deixou seu legado em um gênero de pintura e na museologia. O pai da museologia Samuel Quiccheberg (1529-1567) era um erudito flamengo que foi contratado para organizar o Wunderkammer do duque da Bavária. Em 1565 Quiccheberg, inspirado na Bíblia, propôs um sistema de catalogação e organização dos artefatos.

Os objetos deveriam ser categorizados em artificialia, fruto do engenho humano e outras antiguidades; naturalia ou coisas do mundo animal e botânico; scientifica, instrumentos de precisão; e mirabilia, tudo o quanto fosse exótico.

Quiccheberg argumentou que os reis bíblicos Salomão e Ezequias organizaram tais gabinetes. Quiccheberg aproveitou o gabinete para educar o público sobre as Escrituras e o “teatro do mundo”.

As restrições calvinistas dos holandeses faziam que a coleção desses objetos fosse aceitável entre os austeros batavos e flamengos. Ainda hoje Amsterdam recebe, como na época da Companhia das Índias Orientais, objetos curiosos do mundo todo. Alguns são meros detalhes decorativos, mas lojas na Nieuwe Spiegelstraat e a galeria Antiekcentrum valem a pena a visita e espere encontrar-se com o bizarro.

Com o avanço do iluminismo no final do século XVIII, o satírico Georg Christoph Lichtenberg chama os gabinete de curiosidades de “um monte de lixo inútil” (Georg Christoph Lichtenberg). O ideal de coleta sistematizada de Linneu substituiria o acúmulo de antiquários e objetos exóticos. Todavia, ainda permanecem como belas joias para a imaginação.

SAIBA MAIS

https://curiositas.org/ um cabinete de curiosidades virtual sobre os cabinetes de curiosidades.

Bowry , Stephanie; Rethinking the Curiosity Cabinet: A Study of Visual Representation in Early and Post Modernity. Tese de doutorado, University of Leicester, 2015. Contém uma nova tradução de Quiccheberg Inscriptiones Vel Tituli Theatri Amplissimi (1565).

https://thewunderkammerwebshop.com/ loja dedicada aos cabinetes de curiosidades em Amsterdam.

Del Toro, Guillermo; Zicree, Marc. Guillermo del Toro’s Cabinet of Curiosities: My Notebooks, Collections, and Other Obsessions. Harper Collins, 2013.

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