Carlos Nejar: Matusalém de Flores

Uma epoeia em prosa, Matusalém de Flores é um romance microsmo. É uma síntese de várias tramas e alusões. E quem resume em si todo esse universo é Noe Matusalém.

Noe Matusalém, o protagonista, completa o ciclo do herói. É um quixote moderno na busca épica pela imortalidade. O próprio nome remete ao personagem bíblico de proverbial longevidade e pai de Noé. Não por acaso seu filho, Noé Eleazar, remete ao dilúvio. E note a proposódia: é Noe, não Noé. Matusalém nasce órfão de pai e mãe e foi criado por uma tia. Seu sancho é o fiel cãozinho viralata Crisóstomo. O solteirão Matusalém entrelaça-se afetivamente com Lídia Parma. Terão o filho Noé, o qual partirá para a Inglaterra estudar o mar.

Profeticamente, a cidadezinha enfrenta a propagação de um vírus e seus boatos. Pragas de ratos e pombos, seca bem como guerras contra as pragas e a cobiça da cidade vizinha são os desafios que Matusalém toma parte.

O livro é cheio de paradoxos e antíteses. Situado no pampa e também no mar. Matusalém é tranquilo, mas sujeito passional. Reúne o regional e o universal. Não por menos começa a obra:

Aqui não acaba o Mar nem a Terra principia. Porque o Mar não sabe como acabar, e a Terra já principiou muito antes e toma o espaço de vivos e mortos.
A paisagem não devora a terra como a terra devora a paisagem. E precedeu as plantas, as árvores e o homem, quando a natureza sabe mais de nós do que nós da natureza.

A intertextualidade do romance é refinada. O enredo em situado na cidadezinha pampeana de Pedra das Flores. Podia ser Antares, podia ser as coxilhas de Simões Lopes Neto, podia ser Macondo. Erudito à moda de Geraldo Vieira, é confortável em elencar referências como Diógenes, Robinson Crosué, Padre Vieira, Tácito, Heródoto, Dante, Amadis de Gaula, Chrétien de Troyes, O cavaleiro do Leão, Sir Gawain e o cavaleiro verde, Carlos Magno e seus cavaleiros, Lancelot e o Rei Arthur, O valoroso do tirante, O Branco, Dom Quixote. Sua interação com o amigo Diógenes, inspirado no cínico, dá vazão para várias reflexões.

A presença da Bíblia é notória. Nejar é um escritor de matriz pentecostal e sua espiritualidade e familiaridade com as Escrituras transparecem. Há recursos do fantástico, talvez um realismo mágico, como nos testemunhos pentecostais e na cura miraculosa.

Carlos Najar Matusalém de Flores

Carlos Nejar, poeta e romancista gaúcho, é um artesão das palavras. Cinzela personagens memoráveis e pule frases espantosas. Seu reconhecimento entre críticos rendeu-lhes uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, na Academia Brasileira de Filosofia e uma indicação para o Nobel da Literatura. Seria superinterpretação ver em Matusalém a biografia do autor, mas há paralelos: Carlos é pai do autor Fabrício Carpinejar, tal como Noe teve continuidade com seu filho Noé. Matusalém foi indicado para a Academia de Letras de Flores de Pedra e é um mestre da palavra.

SAIBA MAIS

Nejar, Carlos. Matusalém de Flores. São Paulo: Boitempo, 2014.

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