Kuhn: paradigmas científicos

Thomas Kuhn. Paradigmas

O físico e historiador da ciência Thomas Kuhn (1922–1996) fez uma acurada observação de que o conhecimento científico não é cumulativo, contínuo e linear, mas disruptivo ocorrendo por “mudanças de paradigmas” ou “quebra de paradigma”, conceito cunhado por ele.

O paradigma fornece um conjunto de teorias, problemas ou questões diretrizes que definem o que é possível e racional investigar cientificamente.

Quatro estágios da revolução científica

  1. Ciência normal: os fundamentos e pressupostos de uma disciplina científica funciona para os cientistas trabalhando com as mesmas regras e práticas na ciência.
  2. Pesquisa extraordinária: gera um acúmulo significativo anomalia que começa a pesar contra o paradigma atual.
  3. Adoção de um novo paradigma: que atrai novos seguidores, com tanto resistência quanto motivo para adotá-lo.
  4. Consequências da revolução científica: o novo paradigma passa a ser dominante e obras terciárias e manuais didáticos já o tratam como normal e consensual na ciências, obscurecendo o processo revolucionário.

O conhecimento científico como um fenômeno social

Nenhum indivíduo ou grupo consegue “criar” um novo paradigma. O paradigma é um fenômeno emergente que se consolida meio a um emaranhado de diversos fatores sociais e científicos. Isso desafiou uma confiança cienticista nas metodologias e nas instituições. Mas longe de produzir um temeroso “relativismo”, Kuhn propõe atentar-se para como se faz o conhecimento científico aceito como válido.

“Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo-os ver a luz, mas sim porque seus oponentes acabam morrendo e cresce uma nova geração familiarizada com ela”. Max Planck

Exemplos de mudanças de paradigmas

Kuhn elenca alguns exemplos em seu livro: a transição de uma cosmologia ptolomaica para uma copernicana. Substituição da mecânica aristotélica para a mecânica clássica. Troca da teleologia pela seleção natural na biologia a partir de Darwin. Abandono do modelo de éter luminífero presente no espaço para o conceito de radiação eletromagnética no espaço-tempo.

Recepção

Originalmente pensado como um verbete para a International Encyclopedia of Unified Science, editada pelos positivistas de Vienna Otto Neurath e Rudolf Carnap, o livro foi publicado em 1962. Vendeu mais de 1,5 milhão de exemplares — feito notável em se tratando de uma obra de filosofia da ciência. Foi traduzido em cerca de duas dezenas de línguas e afetou além da ciência, áreas como a administração pública e privada, a religião e as artes. Como consequência desse extraordinário sucesso, a obra recebeu devidas críticas. Uma delas é a imprecisão teórica. Margaret Masterman (1970) aponta os diferentes sentidos (21 referentes distintos) que Kuhn usa em seu livro. Além disso, Masterman critica o conceito de “ciência normal” de Kuhn como uma visão metafísica do mundo ao invés de um instrumento analítico ou uma representação.

Kuhn limita suas teorias às ciências naturais (“ciências maduras”) e exclui explicitamente as ciências sociais (“protociências”). Ainda assim, seu modelo é aplicável em grande parte nas ciências sociais e humanidades. Noto isso, por exemplo, na economia. Depois de um século de pesquisa empírica — com métodos da antropologia, psicologia e ciências da cognição — ainda fundamenta ortodoxia econômica a adesão a pressupostos sobre comportamentos, valores e raciocínios humanos que não correspondem à realidade. Economistas conscientes do conhecimento oriundo de pesquisas empíricas e tais cientistas ainda permanecem marginais. Postos-chave em instituições pivôs.

A obra de Kuhn permanece como um dos textos mais discutidos na academia. Pelo visto, seu conceito não atingiu um status de ciência normal. Mas aí reside sua grandeza. Exatamente essas provocações evitam acomodar em paradigmas insustentáveis.


SAIBA MAIS

Kuhn, Thomas S. The Structure of Scientific Revolutions. Chicago: University of Chicago Press, 1962.

Kuhn, Thomas S. Estrutura das Revoluções Científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 2013.

Masterman, Margaret. “The nature of a paradigm. Criticism and the growth of knowledge” in Lakatos, Imre; Musgrave, Alan (eds.), Criticism and the Growth of Knowledge, Proceedings of the 1965 International Colloquium in the Philosophy of Science, vol. 4 (3 ed.), Cambridge: Cambridge University Press, 1970.

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