Mumpsimus: amor às mentiras reconfortantes

Mumpsimus é a adesão obstinada a uma crença, tradição, preconceito, ideologia ou decisão mesmo quando todas evidências contrárias sejam apresentadas.

Quem já tentou trazer um obstinado ao bom senso conhece muito bem o mumpsimus. Quanto mais apresenta as evidências de um argumento, mais cabeça-dura um mumpsimus fica. E suas técnicas para se entrincherar em reconfortantes mentiras são sempre as mesmas, como se verá.

O termo mumpsimus foi cunhado pelo humanista holandês Desidério Erasmo de Roterdã (1466-1536). Em uma carta a um amigo também filólogo, Erasmo contou uma anedota de como as pessoas insistem em erros por gosto irracional. Na anedota, um padre ignorante rezava a missa em latim falando sobre a hóstia: “Quod ore mumpsimus, Domine” quando deveria dizer “Quod ore sumpsimus, Domine” (“O que recebemos na boca, Senhor”). Mumpsimus simplesmente era uma palavra inexistente, oriunda de um equívoco na audição do padre ou de uma leitura pobre do missal. O padre, mesmo quando corrigido, teimou em continuar a dizer mumpsimus.

A palavra acabou incorporada aos dicionários em inglês tanto para a pessoa obstinada quanto para o fenômeno. Em uma das ironias da história, uma obra de Erasmo é agarrada tenazmente hoje por mumpsimus. O humanista foi o editor do Textus Receptus, uma edição eclética do Novo Testamento grego — a primeira a ser publicada na nova imprensa — e não hesitou em melhorar seu texto a cada nova edição. Entretanto, a descoberta de mais manuscritos — mais antigos, confiáveis e melhores que os seis inicialmente disponíveis a Erasmo — demandou novas edições do Novo Testamento grego. No final do século XIX essas novas edições ganharam aceitação entre biblistas profissionais. Entretanto, em rincões fundamentalistas ocorreu um mumpsimus. Nesses grupos marginais dando um caráter de inspiração canônica às diversas edições que se chamam Textus Receptus, rejeitando a mesma filologia que as produziu originalmente.

Técnicas de Mumpsimus

  • Abstração: contrapor conceitos vagos para não aceitar as evidências. É comum entre adeptos de modismos e esquemas financeiros quando criticados quanto a qualidade de seus serviços, produtos ou retornos apelarem para abstrações: “é o mercado; é a experiência que você está comprando; não é taxa, mas investimento”.
  • Apelo à tradição: insistir que foi ensinado assim e pronto. O que deu certo no passado tem que ser preservado. Uma variante, tipicamente anticientífica, é argumentar que os estudiosos mudam seus posicionamentos frequentemente, mas a posição tradicional permanece absoluta e estática. Isso ignora o caráter zetético do conhecimento fundamentado.
  • Apelo à autoridade: selecionar as autoridades as quais são dignas de apresentar evidências, rejeitando qualquer evidência que não tenham sido sancionadas por tais autoridades. Um exemplo são os seguidores de gurus de internet que esperam o posicionamento deles para saber qual posição tomar diante de nova informação ou evento.
  • Apelo à ignorância: argumentar que as evidências não são suficientes ou que pessoalmente não experimenta fenômenos que corroboram as evidências. Um exemplo é negar o aquecimento global porque foi à praia e estava frio ou que os dados da ciência climática são inconclusivos (não são).
  • Demonização (ataques ad hominem): rejeitar as evidências porque elas são maléficas ou foram apresentadas por categorias de pessoas que premptoriamente o mumpsimus já considera desqualificadas. O argumento “ad Hitler” é uma variante. Tipicamente, sequazes de pseudocientistas dizem que os cientistas e acadêmicos “têm inveja” dos seus gurus.
  • Carregar as traves (moving the goalposts): demandar novos critérios a cada vez que recebe novas evidências sem que mude a posição original, evitando mudar de opinião. Uma variante é exigir exageradamente provas da posição que o mumpsimus rejeita enquanto se apega sem o mesmo rigor às suas posições. Isso é típico em controvérsias antivacinas. A cada vez que novos estudos clínicos e epidemiológicos demonstram a segurança e eficácia das vacinas, o mumpsimus passa a exigir estudos controlados com sujeitos humanos, o que seria antiético, visto que o grupo de controle poderia morrer ao ser inoculado.
  • Dois pesos, duas medidas: em debates sobre corrupção ou pró-vida o mumpsimus se revela. Eles mantém seus bandidos de estimação enquanto denunciam como “canalhas” corruptos do polo ideológico alheio. Em outros temas, a estratégia se repete. A vida só é um bem precioso e inegociável enquanto for um feto, depois se for pobre e minoria, a vida já não importa. Obviamente não vê incoerência em defender a pena de morte, facilitar a circulação de armas e rejeitar medidas científicas de combate à pandemia ao mesmo tempo que se identifica como “defensor da vida”.
  • Falácia do efeito dominó (slippery slope fallacy): rejeitar as novas evidências porque elas possuem o potencial de ruir sua visão de mundo, crenças ou instituições. Ora, dada a veracidade de uma informação, ela não dependerá das preferências ideológicas do mumpsimus. E, por vezes, as novas evidências nem fazem os céus caírem sobre as cabeças, mas requerem somente meros ajustes.
  • Falácia do espantalho (strawman fallacy): retratar as evidências ou quem as apresentou com uma caricatura distorcida de modo que se tornem refutáveis, desacreditadas ou ridicularizadas facilmente. Essa tática funciona bem quando se tem uma audiência adepta das mesmas posições ou que tenha animosidade contra a posição contrária.
  • Falso balanço: argumentar que outras opiniões (aqui há a confusão fato-opinião) são igualmente válidas e precisa-se, então, ponderá-las. Obviamente, já de antemão vão se posicionar a favor do ponto fora da curva ou da opinião divergente.
  • Falsa dicotomia ou falso dilema: considerar a nova informação como um falso problema para justificar a permanência na trincheira. Modismos que medicalizam alimentos persistem quando demonstrado que beber gororoba verde não traz benefício porque “pode ser não que funciona, mas vai que sim, né?”. Não, uma vez demonstrado que algo não funciona, a escolha é entre “não funcionar” e “não funcionar”.
  • Pragmatismo: considerar o argumento ou os fatos como inúteis e então manter a postura anterior. Qualquer um que tenha tentado implantar uma inovação sabe da resistência dos mumpsimus acomodados nos velhos hábitos.
  • Recorte seletivo (cherry-picking): recolha seletiva de alguns elementos de dados, fatos ou de parte das evidências para reconfigurá-los conforme a posição teimada. É fácil dizer que há a um suposto plano de dominação global infiltrado nas instituições em curso por mais de um século, mas quando se faz uma análise de agência e estrutura demonstrando a implausibilidade de tal conspiração, o mumpsimus irá correlacionar encontros internacionais de pessoas e organizações de afinidade políticas ou incidentes com esses autores para “provar” a teoria. Nisso, ignora todas as evidências contrárias.
  • Tautologia e ad hoc circular: partir das conclusões para justificar suas premissas. Está na moda de falar de uma suposta “a cosmovisão cristã” (assim mesmo, no singular e com um artigo definido. Vide abstração) para evadir-se de justificar os posicionamentos porque os não iniciados infiéis não entenderão, pois ou não possuem a iluminação divina ou não compartilham dos mesmos pressupostos. Outra manifestação é o distorcido “lugar de fala” que legitimiza expressar algum argumento somente quem se enquandra em uma determinada categoria ou experiência. Assim, o mumpsimus aplica a falácia do poço envenenado para sequer escutar argumentos alheios.
  • Ultracrepidarianismo: oriundo da máxima latina sutor, ne supra crepidam (sapateiro, não vá além dos calçados), é uma das facetas do efeito Dunning–Kruger. Mesmo que tenha informações limitadas sobre algum tópico, a pessoa com credencial sente-se no direito de opinar ainda que não tenha conhecimento completo, atual, especializado e coerente. É típico em médicos que prescrevem o “kit COVID”.

Como não ser um mumpsimus

É simples, basta manter um grau de abertura às novas experiências e viver o hábito de raciocinar criticamente.

Vale também atentar-se ao conselho do filósofo A. J. Ayer:

“Um homem sempre pode manter suas convicções diante de evidências aparentemente hostis se estiver preparado para fazer as suposições ad hoc necessárias. Mas, embora qualquer caso particular em que uma hipótese acalentada pareça ser refutada possa sempre ser explicada, ainda deve permanecer a possibilidade de que a hipótese seja finalmente abandonada. Caso contrário, não é uma hipótese genuína. Pois uma proposição cuja validade estamos resolvidos a manter em face de qualquer experiência não é uma hipótese, mas uma definição”.

A. J. Ayer. Language, Truth, and Logic, 95.

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