Liquidados: GameStop, Redditors e Wall Street

No final de janeiro de 2021, vários pequenos investidores individuais se articularam no fórum Reddit para enfrentar grandes fundos de investimentos de Wall Street. Normalmente esses grandes fundos apostam na quebra e na liquidação de empresas, mas tiveram a surpresa intragável de perder bilhões quando os pequenos investidores se uniram para inflar os preços das ações e outros títulos relacionados à rede de lojas de jogos GameStop.

Embora não seja uma revolução do proletariado ou a versão digital do movimento Occupy Wall Street, os impactos (e reação) sobre os grandes atores do sistema financeiro ainda estão só no começo.

Nos anos 1990 e 2000, a antropóloga Karen Ho investigou o cotidiano dos bancos de investimento de Wall Street. Esta etnografia de Ho (2009) relata como os bancos de investimentos, hedge funds e outros grandes grupos financeiros ativamente constroem alta, bolhas e quebras – tudo sob uma verniz ideológica que seria meramente a mão invisível do mercado operando.

A separação entre gestão e propriedade dos empreendimentos que permitiu surgir um sistema econômico que gera riqueza meramente contábil – sem produtos ou trabalho – também isentou executivos de responsabilidade. Sob o ideal de aumentar o valor do preço da ação, suposta motivação de um imaginário investidor abstrato, Ho demonstra como operadores financeiros agem sem ponderar os impactos de seus atos, revestidos por uma moralidade que distancia suas decisões das consequências.

O trabalho de Ho não se trata de uma denunciação contra o sistema. É um retrato etnograficamente acurado e crítico sob a perspectiva de quem trabalhou por dentro. Ela demonstra como opera a manufatura de risco financeiro que gerou as crises dos anos 1980, a bolha dos dotcom nos anos 1990 e a crise de crédito de 2008. Institucionalmente, o sistema financeiro de Wall Street cria riscos para maximizar seus lucros. A manipulação de dados, de ocasião e acordos  por parte de executivos de fundos e bancos de investimento para baixar o preço das ações de empresas com patrimônio significativo. A empresa é comprada com valor menor do que seu valor patrimonial, então é dividida em seus bens vendidos com preços mais altos. Além disso, o mercado paralelo de derivativos, incluindo as opções de compra, faz do sistema financeiro um grande cassino.

Só que nesse cassino, a banca sempre lucra. No caso, a banca são os grandes fundos, com posição favorável (proteção legal, recursos financeiros e conexões pessoais) para forçar mecanismos de reestruturação de empresas. Essa reestruturação, antes com o nome hostile takeover (tomada hostil) mudou sua designação para o eufemístico mergers and aquisitions (fusões e aquisições). Já na estratégio do shorting o banco corretor (broker) “empresta” as ações de seus correntistas na forma de opções de compra ou venda para gestores de fundos de investimentos (traders) que as vendem no mercado e apostam na queda dos preços das ações. Quando o preço das ações caem, os gestores dos fundos de investimento compram as mesmas ações com preços menores para devolver ao corretor. O objetivo é ganho a curto prazo, não importando o valor que uma empresa em pleno funcionamento possa gerar.

Depois da quebra do sistema financeiro em 1929, a lei Glass-Steagall Act (de 1933) separou as atividades de banco comercial e de banco de investimento para evitar operações arriscadas e especulativas com os depósitos de seus clientes. Contudo, em 1999, o Gramm-Leach-Bliley Act eliminou muito das restrições. Consequentemente, os fundos de investimentos cresceram com proporções de Cthulhu. Após a crise de 2008, decidiram não esperar que os papéis públicos se valorizem e partiram para o ataque à bens estatais, forçando a “privatização” de setores públicos para liquidar seu patrimônio.

Nesse cenário, enquanto seria de se esperar que as facilidades de comunicação democratizassem o acesso ao mercado financeiro, não foi o que aconteceu. Pequenos investidores, day traders, mutuários, correntistas e poupadores ficaram cada vez mais à mercê das manipulações – legalmente permitidas – do mercado. E muitos dos investidores varejistas vivem mais de esperança na sorte que vão ganhar algo nesse sistema. Alguns de fato ganham, mas como em um cassino, o esquema é desenhado para a perda generalizada, principalmente pela assimetria de informações e pela incapacidade de manipular o mercado a seus favores.

Em nome de leis econômicas “naturais” a responsabilização é individualizada. Enquanto isso, os operadores de Wall Street se justificam com um discurso de smartness – a esperteza seria evidente, pois são todos oriundos de três ou quatro instituições universitárias de renome. Seria a fruição dos méritos dos esforços e de seus brilhantismos. Na prática, os operadores financeiros não precisam ser os mais inteligentes, pois para os coitados que estudaram em universidades menos prestigiosas ou para minorias ficam a parte operacional, o back office.

Ho realizou seu trabalho de campo enquanto estudava em Princeton e notou que essa ideologia de smartness contrasta com inseguranças. O círculo de autoglorificação e legitimação convive com ciclos de demissão e recontratação dos banqueiros juniores, trabalho com horas excessivas, sem vida social, mais prestígio que renda e o temido downsizing. Ou seja, aplicam aos humanos as mesmas estratégias especulativas de shorting.

Imagine o clima agora em Wall Street. Aqueles que sentiam os mais espertos levaram uma rasteira de investidores individuais que operavam via aplicativos como Robin Hood e não com contas em fundos que requer montantes excludentes. São investidores que até encaram o mercado financeiro como diversão, uma jogatina legalizada, sem acesso a informações privilegiadas. Ao invés de clubes de golfe, encontraram meios de articulação em fóruns de internet. Tudo isso integra uma nova forma distribuída de sociabilidade.

Os novos meios de sociabilidade, o neotribalismo, a arquitetura distribuída de se organizar, o fluxo de informação pela internet móvil, dentre outros fatores afetarão muito as instituições. Se regimes eleitorais foram capturados por movimentos que sabem muito bem utilizar esses elementos, o mesmo pode se esperar para outras instituições — da religião ao mercado financeiro.

Obviamente, os donos da bola vão criar mecanismos para mudar a regras do jogo em favor deles. Vão taxar de irresponsabilidade esse tipo de especulações que, entre eles, é meramente uma manhã de terça-feira.

A ironia da história da economia é que Adam Smith condenava o mercado financeiro enquanto Marx via nas ações uma possibilidade de os proletários se tornarem proprietários dos meios de produção. Não é uma reestruturação do mercado financeiro como fez internamente a Islândia, mas tem muita gente com milhões de motivos para comemorar.

SAIBA MAIS

HO, Karen. Liquidated: an ethnography of Wall Street. Durham, NC: Duke University Press, 2009.

FILMES PARA ENTENDER O “SISTEMA”

A Lavanderia (2019)

A grande aposta (2015)

99 casas (2014)

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