A responsabilidade do leitor

Mulheres lendo a Bíblia. Hugues Merle 1859

“É claro que não são minhas ideias, mas o que diz a Bíblia!”

“Como no brocardo, in claris cessat interpretatio, a letra de lei diz assim, então deve ser cumprida!”

Ninguém que anda nesta terra gosta de estar errado, mas um simples exercício de leitura pode desafiar essa confiança.

Basta pedir a uma pessoa que acredita na Bíblia que indique em um perícope o que é descritivo e o que é normativo, o que é aplicável hoje e o que não é mais obrigatório, o que é “literal” e o que é “espiritual”. Basta pedir a quem defenda a letra da lei que aplique hoje algo obsoleto, mas que não foi explicitamente revogado. Em seguida, verifique se os mesmos critérios se aplicam de forma consistente em outros lugares. A ideia não é denunciar alguém –  há leitores abertos a admitir limitações e dificuldades no processo de leitura –, mas demonstrar os problemas e potencialidades de uma interpretação dependente do leitor.

A hermenêutica serve como disciplina auxiliar em estudos da religião e do Direito, bem como paradigma teórico e metodológico em humanidades e ciências sociais. Dado a um projeto em que estou envolvido, vale atentar ao papel hermenêutico dos textos mais sagrados para as religiões abraâmicas, a Bíblia.

Problemas na interpretação

A Bíblia tem um papel inquestionável na sociedade global, mesmo para aqueles que não a consideram sagrada. Ao longo da história, o livro foi fonte de todo tipo de produção cultural. Além de seus usos litúrgico ou teológico, a Bíblia tem implicações artísticas, inspirando gênios como Dante, Bach e Rembrandt. Também forneceu um repertório para apelos por justiça, por exemplo os da pintora barroca Artemisia Gentileschi, os do ativista dos direitos civis Martin Luther King e, recentemente, as demandas pela proteção do ambiente saudável e da mitigação das diferenças sociais. Não obstante, há políticos invocam espuriamente as Sagradas Escrituras para massacrar seus inimigos porque Jesus açoitou os cambistas. Até mesmo a “instituição sagrada” da escravidão teve apoiadores que escolheram a dedo suas justificativas dentro da Bíblia.

Uma razão para tal variação interpretativa é que a Bíblia é uma coleção muito grande de escritos de diferentes gêneros escritos ao longo de muitos séculos. Com uma quantidade tão grande de textos, é fácil configurar suas peças para montar uma imagem adequada ao gosto (e interesses) do leitor. Assim, pode-se encontrar significados ocultos com técnicas extravagantes como o chamado código da Bíblia, mas isso não implica uma mensagem sobrenatural, uma vez que resultados semelhantes ocorrem em outras obras literárias de dimensões mamutes.

Mesmo uma porção menor dos textos bíblicos pode suscitar uma interpretação rebuscada. Vemos representações coloridas dos três reis Baltasar, Gaspar e Melquior que vieram adorar o menino Jesus, mas temos dificuldade em encontrá-los nas narrativas da natividade. Se a última ceia e o Pentecostes aconteceram em um cenáculo, não deveriam os cristãos de hoje subir as escadas para o culto? Na história teve gente que achou que sim. Essas interpretações são possíveis porque tendemos a decifrar o texto preenchendo suas lacunas com nossa memória, criatividade e imaginação. Além disso, estamos propensos a ver padrões em todos os lugares: desde nuvens que claramente são cordeiros fofos até a óbvia cabala de reptilianos puxando os cordões do “sistema” de acordo com muitos vídeos da internet.

A resposta da hermenêutica

A cena não é de desespero. Apesar de tais limitações como leitores, ainda é possível compreender o mundo em geral, pois podemos nos envolver em um processo hermenêutico.

A hermenêutica é uma arte, uma disciplina, e um “não método” (segundo os protestos de Gadamer) de dar sentido às informações que temos do mundo. Funciona melhor quando o fenômeno é traduzido em textos, de forma que a leitura do enunciado escrito transmita significado. Todavia, qualquer cenário com estruturas coerentes pode ser interpretado, ou seja, lido como um texto.

Os gregos antigos começaram a prestar atenção a esse processo, mas a hermenêutica ainda permaneceu por muito tempo emaranhada com a filologia. Essa última disciplina estava associada primordialmente à hermenêutica para a produção de livros (incluindo a edição, a tradução, a cópia e a correção de manuscritos). Ela permaneceu como uma disciplina secundária até que os humanistas da Renascença e os reformadores encontraram uma utilidade para ela ao apresentarem uma argumentação sobre a prioridade do textos clássicos e bíblicos. Dada a primazia das Escrituras para o protestantismo alemão, não é de admirar que juristas românticos como Savigny ou teólogos como Schleiermacher recrutassem e refinassem a hermenêutica como método interpretativo para contrapor as reivindicações de uma racionalidade iluminista universal. Ainda na Alemanha, Nietzsche bradava que não havia fatos, mas apenas interpretações, Dilthey desafiou a aplicação de métodos das ciências naturais para compreender os assuntos humanos e Heidegger puxou a interpretação para o lugar da existência.

Dentro dessa tradição alemã, Hans-Georg Gadamer entendeu que nossos horizontes estão limitados por nossos preconceitos e situação histórica para ler qualquer texto. Seguindo os mesmos passos, os críticos literários Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser focalizaram no polo leitor do círculo hermenêutico, daí as abordagens da resposta do leitor e da estética da recepção. Enquanto isso, os franceses Barthes, Foucault, Kristeva e Derrida enterraram a busca pela intenção autoral, criticaram o poder entrelaçado nos discursos sobre os textos e demonstraram como o sentido não é definitivo, mas referencial. Assim, o contexto veio a lume.

Um texto sem contexto é impossível de se entender. Esse seria um texto escrito em uma escrita desconhecida de uma linguagem há muito esquecida. Em um exemplo já batido, mesmo um texto de uma única palavra, como “vaga”, depende do contexto. Coloque-o na vitrine de uma agência de empregos, ou em um cartaz de hotel na beira de uma estrada ou em um cartão cafona de Dia dos Namorados e a mesma palavra referir-se-á a significados diferentes.

É proveitoso considerar o contexto o mais amplo possível. Não se limita apenas a outras partes do texto, mas o histórico, o suporte linguístico, o material, o momento sociocultural da autoria, a transmissão e a recepção do texto informam o processo de construção dos significados.

Potenciais interpretativos

Os benefícios potenciais da hermenêutica talvez sejam os seus mesmos riscos. Ao integrar os leitores, o texto e o contexto (aqui inclui informações sobre o autor, que não mais atua como o guardião autorizado do verdadeiro significado, mas uma parte do contexto de produção textual) ainda permanecem os riscos de superinterpretação.

Este risco é contrabalançado pela possibilidade atual de contrastar a recepção de uma obra por meio de ideias e artefatos de audiências anteriores com as vozes atuais das margens. Teólogos acadêmicos e estudiosos da Bíblia podem ter leitores perspicazes entre comunidades interpretativas pós-coloniais, camponesas, migrantes, igrejas domésticas, classes subalternas, mulheres e outros pontos de vista minoritários. Por essa razão, o biblicista Brennan Breed argumenta que a leitura consistente da Bíblia não deva ser orientada nem pela busca da “intenção autoral”, tampouco pela busca do texto ou contextos originais, mas guiada pela sua história cultural da recepção de textos.  Desse modo, a interpretação não deve ser limitada em um único sistema de interpretação, mas promovedora de diálogos com outras comunidades de leitores.

O diálogo entre comunidades interpretativas é vital. Com o crescente fluxo de informações conectado pela mídia e a mobilidade das pessoas, há uma possibilidade de formar um terreno comum para a construção de uma comunidade produtiva na Terra. Os resultados podem aumentar a consciência dos leitores sobre como sua tradição, horizonte e situação ajudam a discernir leituras frutíferas do texto bíblico, ao mesmo tempo em que suspeitam e criticam interpretações manipulativas díspares.

Atualmente, trabalho em um projeto de pesquisa que tenta contribuir um pouco nisso. Investigo o conteúdo e o processo interpretativo de migrantes latinos ao lerem Bíblia durante contextos de culto pentecostais nos países nórdicos.

Focar nos migrantes faz sentido porque os leitores do Sul Global compartilham muitas características com as pessoas do período do Segundo Templo, quando o Cristianismo e o Judaísmo Rabínico surgiram. A comunidade de leitores do passado e do presente provém de sociedades autoritárias e agrárias sob o colonialismo, marginalidade, fome e peste, desigualdade e deslocamento. [1] Serem aderentes ao pentecostalismo aumentam a complexidade interseccional por pertencer a uma minoria religiosa plural com suas tensões internas. Todos são fatores que enriquecem o contexto dos leitores. O livro que eles consideram sagrado tem um peso considerável para se estabelecer na Terra que eles devem habitar.

Fechando o círculo hermenêutico

Uma abordagem consciente da diversidade cultural da Bíblia trata o livro como um objeto singular. Como um caleidoscópio, todas as imagens resultantes são limitadas dentro do dispositivo. Além disso, nem todos verão a mesma coisa com a mesma perspectiva. Ainda, como os contempladores de um caleidoscópio, os leitores da Bíblia devem coexistir e compartilhar o mesmo objeto.

Uma leitura informada por seus próprios limites, horizontes, tradições e preconceitos permite transcender os equívocos de uma inicial leitura ingênua bem como a esterilidade de uma segunda leitura crítica. Assim, seria possível atingir uma terceira leitura confiante, passar da hermenêutica da suspeita à hermenêutica da confiança, da primeira ingenuidade à segunda genuidade, como diria Ricoeur.

E aqueles que contemplam a Bíblia constituem públicos diferentes. Pode ser uma mulher palestina recitando o Zabur – os Salmos – para suportar a tensão cotidiana de cruzar as fronteiras. Pode ser um centro-americano em busca de asilo que, junto de uma congregação improvisada, celebra culto em uma caravana de camponeses fugitivos de aldeias atingidas pela violência e ambientalmente danificadas. Ainda pode ser uma leitura “para cima”, de um formulador de políticas globais expatriado em uma organização internacional que passeia por monumentos protestantes em Genebra. Apesar da diversidade dos leitores, uma autoconsciência do papel de alguém na leitura dessas Escrituras comuns é uma possibilidade para todos, não apenas morar, mas também conviver em uma Terra que seja uma herdade habitável. [2]

Notas

[1] Jenkins, Philip. The new faces of Christianity: Believing the Bible in the Global South. Oxford: Oxford University Press, 2006.

[2] Salmos 37:29; Mateus 5: 5; Alcorão 21: 105.

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