Bosch: humildade epistemológica e tolerância

O missiólogo e ativista anti-apartheid sul-africano David Bosch (1929 –1992) acreditava piamente que o diálogo poderia sanar as feridas resultantes das injustiças, das ideologias e da polarização que separavam as pessoas.

Sem abrir mão de suas convicções morais, religiosas e políticas, Bosch apresenta uma postura que é hoje necessária: o reconhecimento da capacidade de outras pessoas possuírem suas opiniões, crenças e visões de mundo. E isso não implica em um relativismo, pós-modernismo ou a aceitabilidade da pós-verdade institucionalizada. Antes, é o primeiro passo para engajar um diálogo com pessoas diferentes de você.

David Bosch e Desmond Tutu
Bosch e Desmond Tutu

Longe de nos levar a um atoleiro de subjetivismo e relativismo, a abordagem que defendo na verdade promove uma tensão criativa entre meu compromisso final com a fé e minha própria percepção teológica da fé.

Em vez de ver minha própria interpretação como absolutamente correta e todas as outras definições erradas, reconheço que diferentes interpretações teológicas, inclusive as minhas, refletem diferentes contextos, perspectivas e preconcepções.

Isso não quer dizer, no entanto, que eu considero toda a posições teológicas igualmente válidas ou que não importa no que as pessoas acreditam.  Pelo contrário, darei o melhor de mim para compartilhar minha compreensão de fé com outras pessoas, concedendo-lhes o direito de fazer o mesmo.

Minha percepção é que minha abordagem teológica é um “mapa” e que um mapa nunca é o “território” real.[1] Embora acredite que meu mapa seja o melhor, aceito que existam outros tipos de mapas e também que, pelo menos em teoria, algum deles possa ser melhor que o meu, pois só posso conhecer em parte. [2]

Para o cristão, isso significa que qualquer mudança de paradigma só deve ser realizada com base no evangelho e por causa do evangelho, nunca, no entanto, contra o evangelho[3].

SAIBA MAIS

BOSCH, David, J. Transforming Mission: Paradigm Shifts in Theology of Mission. Maryknoll, NY: Orbis Books, 1991, p.191. Disponível em português sob o título Missão Transformadora. Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão, pela editora Sinodal (2002).


[1] HIEBERT, Paul G. The Missiological Implications of an Epistemological Shift, Theological Students Fellowship Bulletin (May-June), p. 15; MARTIN, James. Toward a Post-Critical Paradigm, New Testament Studies vol 33, 1987, p. 373.

[2] 1 Cor 13:12 “Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido.”

[3] KÜNG, Hans. Theologie im Aufbruch: Eine ökumenische Grundlegung. Munich: Piper Verlag, 1987, p. 194.

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