Sérgio Buarque de Holanda: Raízes do Brasil

Holanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Edição crítica. Organização de Pedro Meira Monteiro, Lilia Moritz Schwarcz; estabelecimento e texto e notas Mauricio Acuña e Marcelo Diego. São Paulo: Companhia das Letras, 2016 [original de 1936].

raízes do brasil

Em um livro denso – com 220 páginas nas edições mais populares da Cia das Letras – o historiador e pensador social Sérgio Buarque de Hollanda (1902-1982) faz uma síntese explicativa de como no Brasil se mistura o público e o privado, empregando-se recursos públicos íntimos para alcançar objetivos que seriam de interesse privado.

Objetivo

Busca explicar como o Brasil é – em aspectos de relações sociais, políticas e culturais – e os motivos para o atraso para sua modernização (nos termos dos anos 1930, entenda-se ser uma sociedade urbanizada e industrial). O objetivo é expresso no parágrafo inicial:

A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.

Tese

As influências culturais da colonização europeia em contato com os indígenas e africanos resultaram em uma sociedade de uma zona de transição. Nos trópicos, o Estado patrimonialista tornou-se uma instituição no qual o homem cordial emprega meios públicos para alcançar fins privados.

Teoria e metodologia

As influências teóricas são do modernismo brasileiro, das tentativas de interpretação do Brasil, da historiografia francesa (época que surgia a École des Annalles) e a sociologia histórica de Max Weber. Evita abordagens positivistas nas ciências sociais, ainda em voga no Hemisfério Norte.

Metodologicamente emprega uma abordagem ensaística, com elementos de história social, antropologia e sociologia, com o uso de tipos ideais weberianos.

Conceitos de o Homem Cordial e Patrimonialismo

O brasileiro seria o homem cordial. Trata-se de um tipo ideal, mas irônico, pois não seria esse homem cordial dotado de polidez ou civilidade, mas averso à formalidade, à racionalidade impessoal e ao ritualismo social presente em hierarquias. O homem coridal cria e rompe laços comunitários pautado na emoção.

Ao rejeitar a razão em prol da afetividade, o homem cordial formado pela interação das matrizes portuguesas, africanas e indígenas deixaram no brasileiro a a incapacidade de separar o espaço público do privado. Assim, impera o patrimonialismo, essa confusão entre a coisa pública e o interesse privado.

As conclusões lógicas é que o subdesenvolvimento brasileiro resulta do patrimonialismo corrupto, que por sua vez tem origem no homem cordial. A racionalidade burocrática weberiana nunca teria se enraizado entre nós.

O homem cordial não seria um aspecto do Brasil pré-moderno. Calixtre (2014) encontra sua continuidade na sociedade brasileira contemporânea. A lógica da afetividade sobrevive bem ao mundo urbano e industrializado, dando valor às relações pessoais meio à impessoalidade racionalizada do mundo moderno.

Recepção e crítica

Sintetizando o renovado interesse cultural pelo Brasil por parte dos modernistas com a sociologia weberiana, Raízes do Brasil faz parte da boa safra de 1930: é para ser lida a par de Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freire, Formação do Brasil Contemporâneo (de 1942, mas em 1933 lançado seu esboço Evolução política do Brasil ) de Caio Prado Jr.,  História Econômica do Brasil (1937) de Roberto Simonsen. Compartilhando a interpretação weberiana do patrimonialismo, é uma obra a ser cotejada com Os Donos do Poder (1958) de Raymundo Faoro.

Fora do Brasil, apesar das conexões internacionais de Sérgio Buarque, a obra permanece restrita aos círculos brasilianistas. Foi publicada em italiano, espanhol, japonês, alemão, francês e, tardiamente (2012), em inglês.

Os conceitos de patrimonialismo e do homem cordial passaram a ser lugar comum na interpretação do Brasil, estando em vigência principalmente para explicar a corrupção, o subdesenvolvimento e para retratar a relação do indivíduo com o Estado (CALIXTRE, 2014). As noções posteriores de teoria da dependência de Fernando Henrique Cardoso, de jeitinho brasileiro de Roberto DaMatta, das críticas reformistas ao Estado por Bresser Pereira são derivações (e reinterpretações) da tese de Sérgio Buarque.

No entanto, a tese de Sérgio Buarque não é unanimidade. O sociólogo Jessé Souza (2015, 2017) contesta as interpretações que Buarque de Holanda faz de Weber e sua relevância para explicar o Brasil. Souza nota que a ênfase dada por essa linha de pensamento ao Estado, ao patrimonialismo e à corrupção ignora outros fatores. Para o crítico, o peso das desigualdades e das forças do mercado para explicar o subdesenvolvimento ou “atraso” do Brasil permanecem análises pouco difundidas.

Esboço Estruturado

  1. Fronteiras da Europa
  • Mundo novo e velha civilização.
  • Personalismo exagerado e suas consequências: tibieza do espírito de organização, da solidariedade, dos privilégios hereditários.
  • Falta de coesão na vida social.
  • A volta à tradição, um artifício.
  • Sentimento de irracionalidade específica dos privilégios e das hierarquias.
  • Em que sentido anteciparam os povos ibéricos a mentalidade moderna.
  • O trabalho manual e mecânico, inimigo da personalidade.
  • A obediência como fundamento de disciplina.
  1. Trabalho & aventura
  • Portugal e a colonização das terras tropicais.
  • Dois princípios que regulam diversamente as atividades dos homens.
  • Plasticidade social dos portugueses.
  • Civilização agrícola?
  • Carência de orgulho racial.
  • O labéu associado aos trabalhos vis.
  • Organização do artesanato; sua relativa debilidade na América portuguesa.
  • Incapacidade de livre e duradoura associação.
  • A “moral das senzalas” e sua influência.
  • Malogro da experiência holandesa.
  • Nota ao capítulo 2: Persistência da lavoura de tipo predatório.
  1. Herança rural
  • A Abolição: marco divisório entre duas épocas.
  • Incompatibilidade do trabalho escravo com a civilização burguesa e o capitalismo moderno.
  • Da Lei Eusébio à crise de 64.
  • O caso de Mauá.
  • Patriarcalismo e espírito de facção.
  • Causas da posição suprema conferida às virtudes da imaginação e da inteligência.
  • Cairu e suas ideias.
  • Decoro aristocrático.
  • Ditadura dos domínios agrários.
  • Contraste entre a pujança das terras de lavoura e a mesquinhez das cidades na era colonial
  1. O semeador e o ladrilhador
  • A fundação de cidades como instrumento de dominação.
  • Zelo urbanístico dos castelhanos: o triunfo completo da linha reta.
  • Marinha e interior.
  • A rotina contra a razão abstrata.
  • O espírito da expansão portuguesa. A nobreza nova do Quinhentos.
  • O realismo lusitano.
  • Papel da Igreja.
  • Notas ao capítulo 4:
    • Vida intelectual na América espanhola e no Brasil.
    • A língua geral em São Paulo.
    • Aversão às virtudes econômicas.
    • Natureza e arte.
  1. O homem cordial
  • Antígona e Creonte.
  • Pedagogia moderna e as virtudes antifamiliares.
  • Patrimonialismo.
  • O “homem cordial”.
  • Aversão aos ritualismos: como se manifesta ela na vida social, na linguagem, nos negócios.
  • A religião e a exaltação dos valores cordiais.
  1. Novos tempos
  • Finis operantis.
  • O sentido do bacharelismo.
  • Como se pode explicar o bom êxito dos positivistas.
  • As origens da democracia no Brasil: um mal-entendido.
  • Etos e Eros. Nossos românticos.
  • Apego bizantino aos livros.
  • A miragem da alfabetização.  
  • O desencanto da realidade.
  1. Nossa revolução
  • As agitações políticas na América Latina.
  • Iberismo e americanismo.
  • Do senhor de engenho ao fazendeiro.
  • O aparelhamento do Estado no Brasil.
  • Política e sociedade.
  • O caudilhismo e seu avesso.
  • Uma revolução vertical.
  • As oligarquias: prolongamentos do personalismo no espaço e no tempo.
  • A democracia e a formação nacional.
  • As novas ditaduras.
  • Perspectivas.

O autor

Filho de um pernambucano com uma fluminense de Niterói, Sérgio Buarque de Holanda nasceu em 1902 em uma família de classe média em São Paulo. Durante a juventude na pauliceia teve contanto com Sérgio Milliet, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Monteiro Lobato. Começa aí seu envolvimento com o movimento modernista paulista, não nas artes, mas no jornalismo e na interpretação sociocultural em detrimento às vertentes deterministas dominantes na virada do século. Em 1921 a família muda-se para o Rio e Sérgio começa seus estudos na Faculdade de Direito e convivia nos círculos boêmios e intelectuais da capital.

Assis Chateaubriand convidou-o a ser correspondente especial dos Diários Associados em Berlim. Assim, em 1929 e 1930, esteve na Alemanha, aprendeu a língua, conheceu a obra de Weber e teve um filho, Sérgio Georg Ernst. O destino do filho alemão foi por um tempo mistério irresoluto para a família Buarque de Holanda. Adotado, tornou-se cantor e apresentador de TV na antiga Alemanha Oriental sob o nome Sergio Günther (BUARQUE, 2014; WINK 2017).

De retorno ao Brasil participou da efêmera Universidade do Distrito Federal, depois indo trabalhar na Biblioteca Nacional, onde esteve na Divisão de Consulta e no Instituto do Livro. Nessa época publica Raízes do Brasil. Após a guerra volta à Europa, assumindo entre 1953 e 1955 a cátedra de estudos brasileiros da Universidade de Roma. Em 1958 torna-se professor de História da Civilização Brasileira, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Como editor, organizou a História Geral da Civilização Brasileira. Como pensador, foi quem introduziu o pensamento weberiano no país (Mata, 2016, p.101), ainda que de modo indireto, antes mesmo de o autor alemão ter aceitação em países de língua inglesa, francesa ou espanhola.

Mesmo sendo elegível para a aposentadoria, continuava a lecionar na USP, mas solidário com professores demitidos pelo governo militar, deixou a universidade em 1969. Faleceu em São Paulo em 1982, quando na época participava na fundação do Partido dos Trabalhadores. No Brasil teve ainda mais sete filhos, com os filhos Ana de Hollanda e Chico Buarque ganhando notoriedade na música e atividade política durante a ditadura.

Jornalista, historiador, professor, crítico literário, pensador social, Sérgio Buarque é um intérprete “antropofágico” do Brasil. Reatribuiu significados brasileiros a conceitos desenvolvidos por uma sociologia interpretativa nascida e pensada para uma modernidade industrial europeia.

Bibliografia

  • Cobra de Vidro. São Paulo, 1944.
  • Monções. Rio de Janeiro, 1945.
  • Expansão Paulista em Fins do Século XVI e Princípio do Século XVII. São Paulo, 1948.
  • Caminhos e Fronteiras. Rio de Janeiro, 1957.
  • Visão do Paraíso: Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo, 1959.
  • Do Império à República. São Paulo, 1972. (História Geral da Civilização Brasileira, Tomo II, vol. 5).

SAIBA MAIS

Acervo Sérgio Buarque de Holanda – Unicamp

BUARQUE, Chico. O irmão alemão. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

CALIXTRE, André Bojikian. “Subdesenvolvimento, Sergio Buarque de Holanda e o Homem Cordial – a importância da especificidade radical da formação histórica do Brasil e de seu sujeito”. Em  Calixtre, André Bojikian; Niemeyer Almeida Filho (orgs.) Cátedras para o desenvolvimento: patronos do Brasil. Rio de Janeiro: Ipea, 2014.

MATA, Sérgio da. Considerações anti-hermenêuticas em torno da recepção de Max Weber no Brasil. Em: SENEDA, Marcos César; CUSTÓDIO, Henrique Florentino Faria (orgs). Max Weber: religião, valores e teoria do conhecimento. Uberlândia: EDUFU, 2016. DOI: 10.14393/EDUFU-978-85-7078-455-1.

SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira. Ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa, 2015.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. São Paulo: Leya, 2017.

WINK, Georg. A propósito de um irmão alemão: a ficcionalização de um assunto internacional de família. Estud. Lit. Bras. Contemp., Brasília , n. 50, p. 47-66, Apr. 2017 . DOI 10.1590/2316-4018504.

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