Neruda: dois poemas sobre saudade

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Saudade

Saudade — O que será? … Não sei … Procurei
em alguns dicionários empoeirados e antigos
e em outros livros que não me deram o significado
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
E que nela se obscurecem os amores longíguos,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
Ele a denomina num tremor de tranças e mãos.

E hoje em Eça de Queiroz sem olhar a adivinho,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma borboleta com um corpo estranho e fino
sempre longe — até agora! — das minhas redes silenciosas.

Saudade … Ei, vizinho, você conhece o significado
desta palavra em branco que, como um peixe evade?
Não … E me treme na boca seu tremor delicado…
Saudade …

Pablo Neruda (1904 – 1973)

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