Trabalho, lazer e educação liberal

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Mortimer Adler

Embora o título deste ensaio seja “trabalho, lazer e educação liberal” e, embora inicie e termine com uma consideração sobre educação liberal, seu principal foco é distinguir entre trabalho e lazer. A razão disso é porque descobri ser quase impossível compreender a educação liberal, exceto em termos de sua finalidade. E a finalidade da educação liberal está no uso que fazemos do nosso lazer, nas atividades com as quais ocupam nosso tempo de lazer.

Para fundamentar essa tese de que a educação liberal deve ser entendida em termos de lazer, gostaria de proceder da seguinte forma: em primeiro lugar, aproximar de algumas definições de educação liberal em termos do lazer.  Em segundo lugar, tentar compreender com maior profundidade a importância desta definição, examinando mais de perto as distinções entre trabalho, por um lado, e lazer, em o outro. E, em terceiro lugar, concluir a partir dessa análise algumas implicações ou consequências do papel da educação liberal em uma democracia industrial como a nossa.

Vamos começar por onde qualquer um deve começar – pela tentativa de definir educação. Educação é uma atividade prática. Sua preocupação com os meios que devem ser empregados ou desenvolvidos para o alcance de uma finalidade. A definição mais ampla da qual ninguém, ao meu ver, pode discordar, é que a educação seria um processo com o objetivo de desenvolver ou aperfeiçoar os homens em si mesmos ou em relação à sociedade. Poucos discordarão dessa definição, pois a maioria das pessoas tende a considerar a educação como boa. E que seria boa porque faz algo de bom aos homens.  A definição seria precisamente isso: a educação aperfeiçoa as pessoas ou os torna melhores.

Todas as controvérsias na filosofia da educação existem porque as pessoas possuem diferentes concepções sobre o que seria a boa vida, sobre o que seria bom para o homem e sobre quais seriam as condições necessárias para sua melhoria. Dentro das grandes controvérsias sobre educação, há uma distinção fundamental que gostaria de salientar.

Dois tipos de Educação

Aparentemente existem dois aspectos nos quais o homem pode se desenvolver ou ser melhorado: primeiro, com respeito a funções ou talentos especiais e, segundo, com respeito às capacidades e funções que são comuns a todos os homens. Deixe-me explicar. Nas sociedades civilizadas, e até nas sociedades primitivas, há sempre uma rudimentar e, frequentemente, complexa divisão de trabalho. A sociedade existe através da diversidade das ocupações, dos diferentes grupos de homens executando diferentes funções. Além da divisão de trabalho e a consequente diversidade de funções, existe o fato simples e natural das diferenças individuais. Portanto, uma das visões de educação leva em consideração essas diferenças individuais e funcionais e diz que os homens são melhorados por meio de seu ajustamento às suas ocupações, fazendo deles melhores carpinteiros, melhores dentistas ou melhores pedreiros, aprimorando-os, em outras palavras, na direção de seus próprios talentos especiais.

A outra visão de educação diverge dessa ao ter como primário objetivo o aprimoramento do homem, não com respeito às suas diferenças, mas com respeito às similaridades as quais todo homem tem. De acordo com essa teoria, se existem certas coisas que todo homem pode fazer, ou certas coisas que todo homem deve fazer, é com essas coisas que a educação está primeiramente preocupada.

Essa simples distinção nos leva a diferenciar entre educação especializada e educação geral. Existe uma base para identificar a educação especializada com a educação vocacional, principalmente porque a educação especializada tem algumas referências à divisão de trabalho e à diversidade de ocupações, e a educação geral com a educação liberal, pois os esforços da educação geral estão direcionados para a formação liberal do homem como homem.

Fins Intrínsecos e fins extrínsecos

Existe ainda outro modo de diferenciar a educação em termos de suas finalidades. O processo educacional tem um fim intrínseco se o seu resultado se resume unicamente ao interior da pessoa que está sendo educada, a uma excelência ou aperfeiçoamento dessa pessoa, uma melhoria construída diretamente sobre sua natureza, assim como um bom hábito se torna parte da natureza da pessoa na qual o poder do hábito é aplicado. Um fim extrínseco da educação, por outro lado, ­­está na bondade de uma operação, não como se refletisse a bondade do operador, mas em lugar disso, a perfeição de algo mais como um resultado de uma operação que é bem executada.

Deste modo, por exemplo, pode haver duas razões para aprender carpintaria. Alguém pode desejar aprender carpintaria simplesmente para adquirir a habilidade ou a arte de usar ferramentas para fabricar coisas de madeira, uma arte ou habilidade que torna melhor qualquer um que a possui. Ou, alguém pode desejar aprender carpintaria para fazer boas mesas ou cadeiras, não como trabalhos de arte que refletem a excelência do artista, mas como mercadorias para vender. Essa distinção entre as duas razões para se aprender carpintaria está conectada na minha mente com a diferença ou a distinção entre educação liberal e vocacional. Assim a carpintaria é a mesma em ambos os casos, mas a primeira razão para se aprender carpintaria é liberal, a segunda é vocacional.

O Coração da Questão

Tudo isso, eu creio, leva diretamente ao coração da questão: que o treino vocacional é um treino para o trabalho ou execução de tarefas; é mais especializado do que geral; é para um fim extrínseco; e no final das contas, é a educação de escravos ou trabalhadores. E, do meu ponto de vista, não há diferença entre você dizer escravos ou trabalhadores porque o que você está querendo dizer é que o trabalhador é um homem que não faz nada além de trabalhar– um status que tem permanecido, aliás, durante todo o período industrial, do seu começo à quase nossos dias.

Educação Liberal é a educação para o lazer; é de caráter geral e é para um fim intrínseco, não para um fim extrínseco; e, quando comparada com o treinamento vocacional, que é a educação de escravos e trabalhadores, a educação liberal é a educação do homem livre.

Eu gostaria, entretanto, de acrescentar uma qualificação básica a este ponto. De acordo com essa definição ou concepção de educação liberal, ela não é restrita, de forma alguma, ao treinamento nas artes liberais. Nós, frequentemente e de forma muito estreita, identificamos a educação liberal com aquelas artes que são genuinamente artes liberais- Gramática, Retórica e as disciplinas lógicas e matemáticas – pois esse é um dos sentidos tradicionais da educação liberal. Mas, como estou usando aqui o termo “liberal”, em contraposição com “vocacional”, eu não estou confinando a educação liberal à educação intelectual ou ao cultivo da mente. Pelo contrário, como estou usando a frase, a educação liberal tem três grandes departamentos, conforme a divisão das excelências humanas ou modos de perfeição. O treino físico ou ginástico, no sentido Platônico, se seu objetivo for produzir boa coordenação do corpo, é educação liberal. Assim também é o treino moral, se seu objetivo for produzir perfeição moral, bons hábitos ou virtudes morais; e assim também é o treino intelectual, se seu objetivo for a produção de bons hábitos ou virtudes intelectuais. Todos os três são liberais em oposição ao vocacional. Isso não é, em sentido algum, uma negação da concepção de educação liberal como estando preocupada apenas com a mente, porque em todos esses três a mente exerce um papel. Todas as habilidades corporais são artes; todos os hábitos morais envolvem prudência; portanto a mente não é deixada fora do quadro geral mesmo quando estamos falando de treino moral e físico.


Extraído e traduzido de “Labor, Leisure, and Liberal Education“, publicado no The Journal of General Education (October 1951). Tradução de Daniel Kauffman para a AECEP.

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